“Produz-se menos em Portugal, mas o que se produz é bastante mais inovador”
Comecemos pelo início. Porque é que decidiste estudar cinema, em particular Sound Design?
Os meus pais são músicos, e em minha casa o sentido predominante sempre foi a audição. Grande parte das influências que tenho na minha infância são de música. Depois, os meus avós sempre foram mega cinéfilos e mostraram-me imensos filmes. Desde miúdo ia todos os fins de semana a casa dos meus avós ver filmes com eles.
Depois, houve ali uma fase no secundário em que estava um bocado perdido. Sabia que gostava destas duas coisas e decidi fazer um curso na Restart, de Cinema. Acabei por fazer umas experiências com som porque havia um módulo em que tive de fazer sonoplastia, montagem de som para um pequeno anúncio. E pronto, diverti-me imenso a fazer aquilo e percebi que podia ser uma coisa interessante a explorar. Portanto, acho que foi o culminar destas duas influências familiares: os meus pais, do lado da música, e os meus avós, do lado do cinema.
Como foste parar a Londres, à National Film and Television School? Como foi a experiência do mestrado?
Primeiro fiz a Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), em Lisboa. Depois da ESTC comecei a trabalhar como perchista e diretor de som em rodagem, e ao fim de uns tempos comecei a sentir que precisava de mais fundamentos, mais bases na parte de pós-produção, da edição e da mistura do som. Achei que em Portugal não ia conseguir adquirir o nível que queria ter de forma mais educativa, ou seja, provavelmente ia começar logo a trabalhar e a aprender através do trabalho, e isso ia demorar imenso tempo. E não só isso; o cinema em Portugal consegue ser um bocado caótico em algumas coisas. Então pensei: qual o país onde posso aprender mais, a tornar-me mais eficiente?
A indústria inglesa é uma indústria super organizada e estruturada, ao contrário da portuguesa, que não é bem uma indústria. O cinema é mais uma família quase, a nível de escala, em comparação. O meu interesse era extrair essa organização dos ingleses e trazer para os meus métodos de trabalho, para os meus workflows, como eles dizem. E acho que isso foi a principal razão pela qual quis vir para esta escola: o nível de profissionalização é muito grande. Depois candidatei-me à escola, consegui a vaga e pedi a bolsa à Gulbenkian.
Durante o mestrado tiveste oportunidade de aprender com nomes como Francis Ford Coppola ou Paul Thomas Anderson. O que sentes que isso te trouxe? Há algum momento que tenha sido particularmente marcante?
Ainda ontem à noite estava a pensar nisso, numa masterclass que tivemos com o Walter Murch. Ele estava a contar-nos uma coisa que quase ninguém sabe, mas que é assim um inside knowledge que, só por ficar a saber, já compensou completamente ter vindo para cá: que o filme do Star Wars é uma espécie de paralelismo com o que estava a acontecer na Guerra do Vietname. O Viet Cong eram os rebeldes e o Império eram os Estados Unidos. E ele conseguiu pôr um país todo unido com a base de uma ideia que era contra o seu próprio país, porque as pessoas interpretaram aquilo de uma forma completamente diferente. É incrível!
Também estive há pouco tempo numa masterclass com o Paul Thomas Anderson, que foi bastante interessante. Mais do que o que dizem, gosto de poder aceder à pessoa que eles são fora dos filmes que fazem. O Walter Murch, por exemplo é uma pessoa bastante representativa do profissional que é: muito obcecado e inteligente. Num dos dias que veio cá, esteve quatro horas a passar slides de caras diferentes, a mostrar como a regra do retângulo de ouro se aplicava à cara de quase todas as pessoas, e como outras eram mais esquisitas, como a do Donald Trump. Enfim, uma pessoa completamente obcecada com detalhes e coisas da vida.
Terminar o mestrado com dois filmes selecionados para o Festival de Cannes é um feito extraordinário. Como viveste esse reconhecimento e que impacto achas que teve – ou poderá vir a ter – no teu percurso profissional?
Acho que é ótimo para mim, principalmente, no sentido em que posso ir a Cannes ver os filmes e ver o que outros realizadores, noutros pontos do mundo, estão a fazer. Depois, dentro deste contexto de festivais conhece-se sempre imensa gente e é uma boa oportunidade para conhecer outros realizadores e para me deixar inspirar por outras pessoas. Claro que é sempre bom ter um festival recorrente dentro do nosso portfólio, porque ajuda a definir a nossa estética também, neste caso enquanto sound designer, mas acho que a verdadeira oportunidade é poder ir ao festival.
Há pouco referiste diferenças entre o cinema português e inglês. Em que diferem ao certo?
Em primeiro lugar, o cinema cá [no Reino Unido] é feito para vender bilhetes e para fazer dinheiro, enquanto em Portugal é maioritariamente financiado pelo Estado e não tem esse interesse monetário. Ou seja, é um cinema que vive mais da sua forma artística, o que também tem a sua contradição, porque não há nenhum esforço do Estado português para que estes filmes sejam vistos por portugueses.
Ou seja, os filmes em Portugal acabam por ser feitos de forma mais amadora – e quando digo amadora, não digo de forma menos profissional, mas antes mais apaixonada. Esta forma de fazer cinema procura por si, cada processo procura a sua forma de se recriar. Os filmes são todos um pouco diferentes, há uma estrutura, mais ou menos, mas os filmes têm todos contornos diferentes na forma como são feitos, desde os tamanhos das equipas até às dinâmicas entre cada pessoa dentro da equipa. Eu adoro esta forma de fazer cinema, mas é, por vezes, muito caótica. A sensação de estar perdido é boa para o processo criativo, para encontrar novas formas de linguagem cinematográfica, é o tipo de ambiente necessário para que novas coisas aconteçam do ponto de vista da linguagem, para que novas ideias sejam exploradas.
O problema da indústria inglesa é que está tão sedimentada, há uma forma tão genérica de se fazer tudo – e os ingleses são ótimos a dizer “eu sei como é que se faz” –, que os filmes são mais produtos e têm um objetivo muito mais comercial. Esta questão da organização revela-se muito no que é que os filmes acabam por ser: a forma é sempre muito igual, os filmes estão todos assim na mesma paleta de cores e emoções.
Consegues explicar-nos o que faz um designer de som?
Depende muito do projeto, mas idealmente um designer de som ou sound designer é uma pessoa que acompanha o projeto desde o início com o realizador e que se encarrega de explorar a dimensão sonora de um filme. No fundo, ajuda o realizador a pensar no som, faz a montagem do som ou das ideias mais criativas de som, ou faz a mistura, ou seja, pode assumir muitas formas. Neste contexto de escola e em grande parte dos contextos dentro do regime de cinema independente e curtas-metragens, o sound designer muitas vezes faz a pós-produção toda do filme.
Em Portugal, por exemplo, há uma cultura que vem mais do cinema francês, que é a ideia do engenheiro de som, do diretor de som, que faz a captação dos diálogos e que acompanha não só a rodagem, mas a pós-produção, uma pessoa que acompanha tudo de forma direta. Aqui, no Reino Unido, as coisas estão um pouco mais separadas: tens a pessoa que grava o som e depois tens o sound supervisor ou sound designer que controla o workflow das coisas. Portanto, tanto pode ser um coordenador da pós-produção de som como pode ser uma pessoa que efetivamente faz tudo ou que faz só uma coisa, às vezes.
Quando falamos em som, neste caso, falamos em todos os sons do filme, não só música?
Não, a música geralmente é do compositor, ou podem ser comprados os direitos de musica já existente. Eu faço os foleys [sonoplastia], as atmosferas, edito e monto os diálogos, os efeitos sonoros, e depois a mistura no fim, que é balancear os níveis das coisas de forma a soar a um filme.
O som no cinema português costuma ser alvo de críticas…
Pois, há esta ideia de que o som em Portugal é mau mas, sem ofensa aos atores, os portugueses também têm uma dificuldade na oralidade. Às vezes é muito difícil perceber os atores. Fala-se muito para dentro. Já com os ingleses percebe-se tudinho, mesmo que o microfone não esteja a apontar para o sítio certo, eles falam de forma tão pronunciada e articulada que quase nem é preciso gravar: basta olhar para a boca deles e percebe-se o que estão a dizer. É incrível, porque quase todo o inglês sabe projetar a voz, têm imensa cultura teatral e musical, e o teatro shakespeariano. Nós somos muito acanhados nesse sentido, estamos sempre muito tímidos.
De que forma a Bolsa de Formação em Artes no Estrangeiro da Fundação Gulbenkian foi determinante para tornar este teu percurso possível?
Se não tivesse tido a bolsa da Gulbenkian, não podia, em primeiro lugar, ter vindo para Londres, porque o custo de vida cá é muito mais alto do que em Portugal e o preço das propinas também. O que a bolsa me proporcionou, acima de tudo, foi a possibilidade de não pensar em mais nada durante estes dois anos senão em tornar-me melhor no que queria estudar. Ou seja, não tinha distrações, não tinha de me preocupar com fazer dinheiro para pagar a renda. Nesse sentido, a ajuda monetária trouxe-me uma estabilidade que me permitiu focar a 100% nos meus estudos, que é uma experiência incrível. Sinto-me muito grato e privilegiado por me ter sido dada esta oportunidade. E pronto, quando a bolsa se vai embora, voltar à realidade é duro.
E agora, que objetivos tens para o futuro próximo? Queres ficar por Londres?
Sim, a ideia agora é ficar em Londres algum tempo, para ver se consigo expandir a minha rede de contactos cá. Aqui, ao contrário de em Portugal, trabalha-se muito à distância, o que tem as suas coisas boas, mas também tem muitas coisas más, porque acho que é importante, principalmente no cinema, o contacto pessoal e as pessoas estarem juntas fisicamente. Mas depois, lá está, eles são tão organizados e está tudo tão estruturado que estas dinâmicas de trabalho acabam por funcionar bem à distância. Portanto, sim, a minha ideia agora é ficar cá durante uns tempos e depois, quando tiver uma rede de contactos mais extensa, voltar e eventualmente levar alguns dos meus clientes para Portugal.
E o ideal seria conseguir trabalhar nessa área a tempo inteiro?
Sim. Acabei a faculdade há pouco tempo e já começo a ter algum trabalho cá, mas a ideia é voltar para Portugal eventualmente. Até porque, como disse antes, do ponto de vista criativo interessa-me muito mais os projetos que se fazem em Portugal. Entre os projetos que faço cá e lá, diria quase três em três curtas-metragens são nomeadas para festivais grandes em Portugal, e cá só uma em 10 curtas. Ou seja, produz-se menos em Portugal, mas o que se produz é bastante mais inovador, e isso interessa-me muito.