“Na altura não se falava em colegas, era companheiros e companheiras!”
Entre trabalhadores no ativo e reformados, todos integram o projeto de arte participativa e comunitária Urdidura, apoiado pela 3.ª edição da iniciativa PARTIS & Art for Change. O projeto reúne pessoas com origens e percursos diversos – desde antigos operários dos lanifícios a trabalhadores e estudantes imigrantes recentemente chegados à região – e desafia-os a partilhar um processo artístico coletivo nas áreas da dramaturgia, do teatro e do cinema.
Sublinhando o contributo dos operários fabris da Beira Interior na conquista de direitos laborais, as suas vozes desenham uma história comum: a de um território industrial onde o trabalho, a luta e a liberdade se entrelaçam, fio a fio.
“As pessoas não podiam dizer mal do governo”
Elvira Cardoso é reformada da indústria têxtil e começou a trabalhar numa fábrica de lanifícios da Covilhã ainda não tinha 13 anos. Vinda da aldeia da Bouça, fazia longos percursos a pé para chegar ao trabalho ou ficava alojada com outras raparigas, sempre acompanhadas por uma mulher mais velha, também operária fabril. Trabalhou na secção da ultimação e foi delegada sindical até ao encerramento da fábrica. Ao falar do período anterior ao 25 de Abril, recorda um tempo marcado pelo medo e pela falta de liberdade: “As pessoas não podiam dizer mal do governo, e muitos até tinham de emigrar porque não havia liberdade.”
Elvira Cardoso
Trabalhar em criança era comum na indústria têxtil da região, sobretudo entre raparigas, e as desigualdades salariais faziam parte do quotidiano. Maria Amélia Simplício, que viveu toda a vida no Tortosendo, começou ainda criança a trabalhar numa fábrica de lanifícios e mais tarde tornou‑se urdideira. Atualmente reformada, foi delegada sindical durante vários anos e lembra que, mesmo antes da Revolução, já existiam formas de luta organizada, como a greve de 1973 pelos salários e pelos direitos dos trabalhadores dos lanifícios.
Amélia Simplício
A resistência acontecia também fora das greves e da visibilidade pública. Gabriel Carrola, natural do Tortosendo, começou a trabalhar em criança, dando fios aos teares, e mais tarde foi tecelão. Com um longo percurso no sindicalismo e no associativismo local, sublinha a importância da solidariedade entre trabalhadores, que se organizavam para apoiar colegas doentes ou famílias sem rendimento – gestos que, para ele, foram também formas concretas de resistência ao fascismo.
Gabriel Carrola
“A seguir ao 25 de Abril sentimos logo na pele a liberdade”
O 25 de Abril surge nas memórias como uma mudança sentida no próprio trabalho. Vieram as reuniões, as reivindicações e uma nova forma de relação dentro da fábrica, marcada por um forte sentimento coletivo.
Essa memória do passado dialoga com experiências mais recentes. Alexandre Faria, operário têxtil brasileiro a viver na Covilhã há seis anos, trabalha atualmente na Fábrica Paulo de Oliveira. No Urdidura, cruza a sua experiência com as histórias de quem trabalhou nos lanifícios durante décadas, vendo nas lutas do passado uma força capaz de mobilizar os trabalhadores de hoje.
Alexandre Faria
Também Cybelle Mendes, brasileira a viver na Covilhã há sete anos, participante do projeto e consultora na área do cinema, sublinha a importância histórica da indústria têxtil na organização dos trabalhadores e na disseminação da resistência antifascista. Ao mesmo tempo, traz para o projeto uma reflexão sobre liberdade no presente, marcada pela experiência da migração e pelas formas subtis de discriminação que persistem.
Cybelle Mendes
No Urdidura, estas vozes entrelaçam‑se num gesto coletivo de criação. No Dia do Trabalhador, o projeto lembra que a liberdade e os direitos laborais não são abstratos: nascem do trabalho, da organização e das experiências vividas por quem, geração após geração, fez da fábrica um lugar de luta e de comunidade.