JAM!: um “pontapé de saída” para a mudança

21 jul 2026 11 min
Entre Tomar e Santarém, fomos conhecer dois projetos apoiados pela JAM! (Jovens + Artes = Mudança), uma iniciativa da Artemrede para dar aos jovens ferramentas, confiança e espaço nas suas próprias comunidades, com o apoio da Fundação Gulbenkian.

É uma tarde de sábado, em junho, particularmente quente. À porta do Complexo Desportivo Municipal de Tomar, conversamos com Sofia, de 16 anos, uma das jovens responsáveis por dinamizar o projeto SomCultura, que todas as semanas junta crianças em sessões de dança, música e apoio ao estudo.

O projeto nasceu da vontade de quatro jovens — Nádia, irmãos Cristiano e Fernando, e Sofia — de criar um espaço para as crianças da sua comunidade, no bairro 1º de Maio. “Não é só um projeto, é um sítio onde as crianças se possam sentir seguras, onde queiram voltar”, diz Sofia. “Só que é difícil, porque [a comunidade cigana] é uma comunidade que não tem regras, não tem horários”.

Neste sábado, a dificuldade revela-se ainda maior: devido ao calor e a falta de transportes, as crianças não saem de casa. É preciso ir buscá-las porta a porta, com a ajuda de Cláudia Hortêncio, gestora de projeto da Artemrede, e o mediador Tiago Franco. No final, são oito crianças, entre os 6 e os 15 anos, que chegam para participar nas atividades.

Dentro da sala, dança, música e jogos vão ocupando o espaço. Ao fundo, junto às janelas, Sofia e Tiago ajudam a fazer exercícios no quadro, pinta-se ou joga-se; do outro lado, Nádia lidera os passos de dança com as raparigas, enquanto os irmãos Cristiano e Fernando marcam o ritmo no cajón e na viola com os rapazes. É assim, entre imprevistos e improvisos, que se constrói o SomCultura, um dos sete projetos apoiados pela JAM! (Jovem + Artes = Mudança).

Começar pelo início

Coordenada pela Artemrede, em parceria com os municípios de Abrantes, Alcanena, Santarém, Sobral de Monte Agraço e Tomar, e com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, a JAM! decorre entre 2024 e 2026 e procura fomentar projetos criativos e inovadores pensados e concretizados por jovens entre os 18 e os 25 anos.

“Estávamos muito habituados a fazer projetos que já vêm delineados, e depois procurar participantes. Aqui quisemos fazer o inverso: perguntar às pessoas o que querem fazer”, explica Cláudia Hortêncio. Essa inversão traduziu-se num processo exigente, feito de várias etapas que acompanharam os três anos de trabalho: formação, experimentação, mentoria, implementação.

Em Tomar, esse processo começou com Nádia Alves, de 22 anos, uma das poucas participantes que acompanhou o percurso da JAM! desde o início. Depois de passar pelas várias fases de formação e laboratório de projetos, Nádia apresentou a ideia de criar um espaço dedicado às crianças do seu bairro, envolvendo desde logo os seus dois irmãos, Cristiano e Fernando.

Mais tarde, juntou-se Sofia, de 16 anos, namorada de Cristiano, que trouxe ao projeto uma nova energia e um papel central na sua organização. Apesar de não pertencer à comunidade cigana, Sofia conhece de perto aquela realidade: convive com a família desde os 13 anos, o que lhe dá uma proximidade rara, feita de confiança, mas também de consciência dos limites.

Hoje, os quatro dinamizam o SomCultura para cerca de uma dezena de crianças entre os 6 e os 15 anos, quase todas de etnia cigana. As sessões cruzam apoio ao estudo, música e dança, mas o objetivo vai além das atividades em si. Sofia acredita que muitas daquelas crianças crescem dentro de “uma bolha isolada”, e vê o projeto como uma oportunidade para alargar experiências e criar formas de convivência. “Por exemplo, a Nádia é uma referência para elas: uma mulher cigana que não casou aos 16 anos, que trabalha, que quer sempre mais do que pode”. Essa dimensão simbólica cruza-se com um envolvimento familiar forte: os pais de Nádia, Cristiano e Fernando estão presentes, acompanham, apoiam e observam o projeto desde o início, com a ajuda do avô.

A vontade de mudar mentalidades dentro e fora da comunidade convive com desafios constantes: a irregularidade da participação, as limitações logísticas (como a falta de transporte), as tensões entre tradição e mudança. Ainda assim, todos veem que o sucesso do SomCultura não se mede apenas pelo número de participantes ou pela estabilidade das sessões, mas pelo espaço que se vai abrindo, lentamente, a novas possibilidades. 

Uma verdadeira foto de família: em cima, os irmãos Nádia, Cristiano e Fernando, com a mãe, Sofia e o mediador Tiago. Em baixo, Cláudia Hortêncio (gestora de projeto), com um tio da família e as crianças participantes

Criar ligação onde ela não existia

De Tomar, na mesma tarde, seguimos para Santarém. No Jardim de São Domingos, o “AfroHouse” está em pleno, com um evento que começou de manhã e se prolonga pelo dia fora: um torneio de futsal, música, comida, um workshop de dança, uma feira. À sombra das árvores, juntam-se grupos de jovens, famílias, vizinhos. Há crianças a brincar, pessoas que chegam e ficam, outras que passam e regressam mais tarde.

O AfroHouse é um projeto liderado por Leandro e Antónia (de 29 e 28 anos), dois imigrantes angolanos que chegaram a Santarém em 2024. “Quando chegámos ao bairro de São Domingos, sentimos uma forte presença da comunidade africana, mas ao mesmo tempo sentíamos a falta da energia a que estávamos acostumados em Angola. As pessoas estavam aqui, mas não comunicavam. Nem sequer se cumprimentavam”, recorda Leandro. “Percebemos que era falta de conexão, não falta de interesse. Desenvolvemos o projeto no intuito de conectar as pessoas através da gastronomia e da música, que entendemos serem instrumentos de ligação”. Nesta dinâmica, o Leandro, que é também DJ, fica a cargo da música, e a Antónia é responsável pela gastronomia.

O que hoje acontece no jardim é o resultado desse caminho, que começou com um diagnóstico do bairro e das suas necessidades. “Temos aqui um espaço muito mal aproveitado para dinamizar o bairro, que tem já um cadastro e um estereotipo de bairro de marginais. Então, para quebrar esse gelo, trazer pessoas de fora, era preciso primeiro organizarmo-nos aqui dentro, dizer às pessoas que venham, cheguem, estão à vontade”.

Mas o AfroHouse não se resume aos eventos que acontecem no Jardim de São Domingos. Nos bastidores, o projeto tem servido para aproximar associações, grupos informais e moradores que raramente trabalhavam em conjunto. Ao longo dos últimos meses, Leandro e Antónia foram participando em iniciativas promovidas por outras entidades locais, ao mesmo tempo que as foram envolvendo nas suas próprias atividades. “Nós vamos às festividades deles, eles vêm às nossas. Esse intercâmbio tem sido muito saudável”, resume Leandro.

No evento de junho, esse trabalho torna-se visível: a Associação de Residentes ajuda na organização, grupos de jovens apoiam a montagem das infraestruturas e várias iniciativas partilham o mesmo espaço. “Sozinhos não ia dar certo”, reconhece. “Há cada vez mais pessoas interessadas em participar.”

Entre o entusiasmo e o desgaste

Chegar aqui não foi simples. Organizar um evento desta dimensão revelou-se muito mais exigente do que Leandro imaginava, e isso nota-se no seu cansaço. “Tal como um filho que está sob a tutela dos pais, em casa, não sabe como é a rua, mas quer ir para a rua. Foi exatamente o que aconteceu”, diz, rindo. “Antes havia sempre alguém a ajudar: a Cláudia, a Maria, os mediadores. Agora somos nós que temos de resolver tudo”.

A lista de tarefas parece interminável: dos artistas ao som, da comida à logística mais básica. “Estou a falar até do guardanapo”, acrescenta. Esse lado invisível, da produção, da burocracia, da responsabilidade, é uma das aprendizagens mais marcantes do processo.

Ao mesmo tempo, a vida não pára. Antónia, parceira no projeto, divide-se entre o trabalho, a organização das atividades, a casa e o cuidado da filha pequena, Winner. Esse equilíbrio é uma das maiores dificuldades, mas também parte do crescimento que a JAM! propõe. Leandro e António juntaram-se à JAM! uma semana depois de se instalarem em Santarém, e já não imaginam a vida sem o projeto. “Tem-nos acompanhado sempre, sempre, sempre. Não sei se a iniciativa vai continuar, mas seria muito importante que jovens como nós tivessem também a oportunidade que nós tivemos”. 

Uma rede que permite arriscar

Se há um elemento comum entre Tomar e Santarém, é a importância da rede que sustenta estes projetos. A JAM! não se limita a financiar ideias: há formação, mentoria, acompanhamento contínuo e uma presença constante, ainda que muitas vezes invisível. Ao longo do processo — desde o pensar ao concretizar —, a aprendizagem faz-se em conjunto. “Eles decidem o que querem fazer, mas nós estamos sempre aqui, a acompanhar, a perguntar, a lembrar coisas, a ajudar a organizar”, explica Cláudia Hortêncio.

Essa presença permite criar um espaço seguro para experimentar. “Eles sentem que têm uma retaguarda, e isso dá-lhes confiança para arriscar”, acrescenta Maria Cordeiro, gestora de projeto da Artemrede. “O objetivo foi mesmo que se percebessem autónomos e capazes.”

A Fundação Calouste Gulbenkian tem também um papel central nesse processo, como financiadora e parceira. Ao longo do projeto, acompanhou de perto o desenvolvimento das atividades, participou em momentos-chave e contribuiu para ajustar o percurso quando foi necessário. “Houve sempre abertura para repensar. Não foi só financiamento, foi mesmo uma relação de parceria”, sublinha Cláudia.  

Para os jovens, esse reconhecimento institucional tem também um impacto simbólico importante. Como refere Maria Cordeiro, apresentar um projeto a uma entidade como a Gulbenkian “é uma coisa muito poderosa”: valida o trabalho e reforça a responsabilidade dos jovens envolvidos.

Por uma cultura mais democrática

Ao longo dos três anos, a JAM! tem vindo a afirmar-se como um espaço onde a cultura se constrói de dentro para fora, a partir das vontades, necessidades e experiências de quem vive nos territórios. A iniciativa inspira-se no modelo internacional The Agency, criado em 2013 a partir da metodologia do encenador e ativista brasileiro Marcus Faustini, nas favelas do Rio de Janeiro, posteriormente desenvolvido no Reino Unido.

Para Maria Cordeiro, a democracia cultural não passa apenas por alargar o acesso à cultura, mas também por alargar quem a produz. “A produção da cultura tem de estar acessível a mais pessoas do que só os mesmos”, defende. Isso implica investimento em capacitação, acompanhamento e mediação, para que jovens que nunca imaginaram liderar um projeto possam ganhar confiança e experimentar.

Esse processo nem sempre é linear. Há avanços e recuos, momentos de entusiasmo e outros de dúvida. Mas há também sinais concretos de transformação — nas relações que se criam, nas pontes que se constroem, na forma como estes jovens passam a ocupar o seu lugar nas comunidades. “Há um pontapé de saída que nós ajudamos a dar. Depois, eles seguem pelo seu próprio pé”, resume Cláudia.

Em Tomar, isso vê-se no entusiasmo de uma rapariga de 16 anos perante a oportunidade de mudar mentalidades na sua comunidade. Em Santarém, no modo como um jardim se transforma num ponto de encontro. Há ainda cinco outros projetos a decorrer em 2026, com diferentes jovens, abordagens e territórios, e vontade de continuar e alargar a iniciativa no futuro.

A JAM! constrói-se assim entre o improviso e a estrutura, entre o apoio e a autonomia, entre o sonho e o trabalho. Mais do que projetos, deixa processos — e, sobretudo, uma forma de materializar uma ideia central: a de que a cultura ganha poder quando está nas mãos e nas vozes das próprias pessoas, nos seus territórios, nos contextos onde vivem. É aí que começa a verdadeira mudança.

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