A moda na biblioteca de Calouste Gulbenkian

Entre os milhares de títulos da biblioteca de Calouste Gulbenkian, encontra-se um conjunto de livros e revistas dedicados à moda, que revelam o interesse e a atenção do Colecionador às tendências do seu tempo.
11 mai 2026 15 min
Obras da Biblioteca

A biblioteca de Calouste Gulbenkian reúne cerca de 3.000 títulos de diversos tipos de publicações – livros, catálogos de museus e de leilões e publicações periódicas –, que abrangem os mais diversos domínios do conhecimento, refletindo os seus interesses pessoais, a sua faceta de colecionador de arte e a área dos seus negócios.

Calouste Gulbenkian utilizou-a como ferramenta de estudo e investigação para satisfazer a curiosidade intelectual que sempre o caracterizou. De facto, esta biblioteca revela não só traços da sua personalidade, como também a influência do ambiente cultural da época.

Nesse contexto, talvez não surpreenda a presença, na sua biblioteca, de um conjunto de livros e revistas sobre a moda e o universo feminino.

“Gulbenkian interessava-se verdadeiramente pela moda; ele era, nesse domínio, um excelente crítico.”[i]

— Marcelle Monteil Chanet em C.S. Gulbenkian. Arquivos Gulbenkian PT FCG FCG:MCG-D00276

Os livros

Dentre os livros, o autor melhor representado é Octave Uzanne (1851-1931), editor, bibliófilo – cofundador da Société des Bibliophiles Contemporains – escritor, jornalista e crítico da arte e literário. Personagem reputado e influente entre os seus contemporâneos, Uzanne foi, em França, um dos promotores da Arte Nova, a corrente artística que, porventura, melhor expressou o espírito da designada Belle Époque, período temporal entre os anos de 1870 e 1914. 

Nas dezenas de livros que escreveu, prefaciou e editou sobre diferentes assuntos, Uzanne dedicou especial interesse ao universo feminino, à moda, aos costumes e a um certo mundanismo cosmopolita no contexto da sociedade burguesa parisiense do fin de siècle.

Estas obras, como o próprio escreveu no prefácio de L’éventail, são mais sobre a “história literária” e sobre os costumes, do que resultado de uma investigação histórica e documental exaustiva sobre a indumentária, escritas a pensar no “sufrágio simpático” do “mundo das letras e os letrados”.

Edições de luxo, com belas ilustrações e tiragens reduzidas, os livros de Octave Uzanne foram mais realizados a pensar num público masculino de gosto requintado e bibliófilo, como o próprio Calouste Gulbenkian, embora o autor se refira algumas vezes às “suas leitoras”.

“O livro e a mulher, estes são os primeiros amores de Uzanne, e não creio que ele os tenha traído…”[ii]

— Remy de Gourmont em “Notre époque : Octave Uzanne”. In La dépêche (vendredi, 21 octobre 1910)

O primeiro livro em que Octave Uzannne se debruçou sobre a moda e os adereços femininos foi L’éventail (Paris, 1882), profusamente ilustrado por Édouard-Henri Avril (1849-1928) sob o pseudónimo de Paul Avril, artista que se dedicou especialmente à ilustração de edições para colecionadores e bibliófilos, tendo ilustrado, entre outros, Le péché véniel (1901), de Honoré de Balzac.

Uzanne aborda neste livro a evolução do leque, fazendo a sua história desde a antiguidade clássica até meados de Oitocentos, não deixando de incluir na sua investigação outras geografias extraeuropeias, com as ilustrações de Avril a pontuar visualmente cada época.

Esta atenção pela arte do Extremo-Oriente vinha do século XVI, muito por causa do comércio de porcelanas, sedas e lacas chinesas que chegavam aos mercados europeus, alargando-se à arquitetura e aos jardins no século XVIII.

No século seguinte, as exposições universais, inauguradas em Londres em 1851, vieram ajudar a divulgar rapidamente esse gosto junto do público ocidental e a torná-lo popular, originando o estilo designado como Chinoiserie e o Japonisme, termo que terá sido criado pelo crítico, colecionador e impressor francês Philippe Burty (1830-1890), no início da década de 1870, para assinalar a influência da arte japonesa nas obras de artistas ocidentais nas últimas décadas de Oitocentos.

Na capa que Paul Avril desenhou são bem evidentes as influências orientais.

Um dos aspetos mais interessantes e originais de L’éventail é a composição gráfica, ou seja, o modo como o texto de Uzanne e as ilustrações de Paul Avril se combinam no espaço da página.

Aliás, desta colaboração entre os dois resultou ainda outro dos livros graficamente mais originais deste conjunto: L’ombrelle ; Le gant ; Le manchon (1883). Para além da multiplicidade decorativa das vinhetas que ornamentam muitas das páginas (sereias e querubins), ambos são profusamente ilustrados, podendo observar-se que as ilustrações – impressas em verde, rosa, azul e sépia – regem e subordinam a mancha do texto, por vezes mesmo sobrepondo-se a ele subtilmente, numa exuberante liberdade criativa.

Sobre esta sobrevalorização da imagem, escreveu Uzanne em L’ombrelle ; Le gant ; Le manchon:

“… a elegância decorativa de um livro como este esconde frequentemente restrições intelectuais para o autor, obrigado a colocar um espartilho apertado às suas ideias exuberantes, a fim de as fazer passar mais rapidamente por todas as combinações do desenho, que é aqui o Mentor inexorável do texto.”[iii] (páginas [III]-IV)

Depois do sucesso alcançado pelo livro que dedicou ao estudo do leque – traduzido e publicado em Inglaterra em 1884, como aconteceu com grande parte dos seus livros – Uzanne continuou a sua investigação sobre outros acessórios indispensáveis da toilette das mulheres elegantes, “… adornos protetores deste ser delicado, esguio e gracioso: a Sombrinha, a Luva, o Regalo.[iv] (página [III])

Seguiram-se La française du siècle (1886), com ilustrações a aguarela pelo pintor francês Albert Lynch (1860-1950) – que ilustrou também Le père Goriot de Balzac e La dame aux camélias de Alexandre Dumas filho –, gravadas a cores em água-forte pelo gravador Eugène Gaujean (1850-1900), La femme et la mode (1892) com mais de 160 desenhos inéditos de Albert Lynch (1860-1950) e do pintor e ilustrador francês Émile Mas (1853-1823), e um frontispício do pintor e ilustrador belga Félicien Rops (1833-1898) e, finalmente, Les modes de Paris (1898) com François Courboin (1865-1926), gravador e historiador da gravura. Pelo meio, Uzanne publicou ainda outro livro dedicado à mulher: Son altesse la femme (1885), com ilustrações do pintor Henri Gervex (1852-1929).

De acordo com a informação do inventário da sua biblioteca, os livros L’éventail, Voyage autour de sa chambre (1896) e Féminies: huit chapitres inédits dévoués à la femme, à l’amour, à la beauté (1896), também de Octave Uzanne, foram comprados à casa fundada em Londres por Joseph Zaehnsdorf, livreiro e encadernador, em maio de 1899.

Quanto a Féminies e a La femme au XVIIIe siècle (1862) de Edmond e Jules de Goncourt – outro título de referência oitocentista sobre o universo feminino que Calouste Gulbenkian comprou – fazem parte do acervo do Museu Gulbenkian, por vontade do Colecionador.

As revistas

A partir do final do século XIX observou-se um aumento dos títulos de jornais e revistas em circulação, com o aparecimento de um número cada vez mais significativo de publicações especializadas em sectores como a arte, a moda, a arquitetura ou os jardins.

Algumas possuíam um âmbito mais generalista, capazes de atrair públicos interessados, mas não necessariamente com conhecimentos específicos; outras, pelo contrário, dirigiam-se a profissionais ou a pessoas com interesses muito particulares, como os colecionadores de arte.

Homem cosmopolita e de interesses variados e ecléticos, Calouste Gulbenkian tinha na sua biblioteca um conjunto de revistas que incluía alguns títulos sobre a moda feminina, entre eles algumas das mais requintadas revistas publicadas em França, e que mais influenciaram a forma de vestir das mulheres abastadas e elegantes nas primeiras três décadas do século XX: Les succés d’A. G. B., Très parisien – que Calouste Gulbenkian recebeu, respetivamente, entre 1920 e 1933, e entre 1921 e 1936 – e a Gazette du bon ton. O conjunto é completado por Les modes.

Les modes: revue mensuelle illustrée des arts décoratifs appliqués à la femme

A revista mais antiga é Les modes, dirigida pelo engenheiro, editor e colecionador Michel Manzi (1849-1915), que começou a ser publicada em Paris em 1901, e foi das primeiras em que a fotografia – a preto e branco e colorida – foi amplamente usada, distinguindo-a de outras revistas de moda suas contemporâneas.

Em cada número reproduziam-se as criações dos mais reputados costureiros da época como Jeanne Paquin, Jean Doucet, Redfern e Coco Chanel. Terminou em 1937 e na biblioteca de Calouste Gulbenkian existe apenas até 1933.

Gazette du bon ton: arts, modes & frivolités

A Gazette du bon ton foi fundada em Paris, em novembro de 1912, pelo editor Lucien Vogel (1886-1954). No verão de 1915 foi suspensa por causa do primeiro conflito bélico à escala mundial, retomando a publicação em janeiro de 1920 e terminando em dezembro de 1925.

“Numa época em que a moda se tornou uma arte e uma súmula de todas as artes, é necessário que uma revista de moda seja, ela própria, um jornal de arte! Assim será a Gazette du bon ton.”[v]

— Nr. 1 (novembre 1912), página [10]

Folheando cada número, descobrem-se os modelos em voga criados pelos mais conceituados costureiros da época, como Jeanne Lanvin, Georges Doeuillet, Joseph Paquin, Paul Poiret, Charles Frederick Worth, Madeleine Vionnet, Redfren e Jacques Doucet.

Era impressa em papel de alta qualidade, com caracteres “Cochin” – uma letra inspirada no gravador Charles-Nicolas Cochin (1715-1790) –, criada especialmente para a revista, em 1912, pelo designer tipográfico francês Georges Peignot (1872-1915).

Ao longo dos anos, a Gazette du bon ton teve uma larga equipa de artistas a criar as ilustrações, em estêncil, coloridas au pouchoir, algumas com ouro, que a tornavam tão especial. Entre eles contavam-se ilustradores já com carreira firmada, como André Édouard Marty (1882-1974), Pierre Brissaud (1885-1964), Georges Lepape (1887-1971), Charles Martin (1884-1934) e Georges Barbier (1882-1932), mas também alguns jovens artistas e ilustradores ainda quase desconhecidos, como Guy Arnoux (1886-1951), Léon Bakst (1866-1924), Jean-Gabriel Domergue (1889-1962) e André Dignimont (1891-1965) que, poucos anos mais tarde, seriam afamados.

Neste grupo surge apenas um nome feminino, o de Maggie Salcedo (1890-1959), pintora e ilustradora formada na academia de la Grande Chaumière, que assina também alguns textos.

Não surpreende que sejam também maioritariamente masculinos nomes dos autores dos textos que acompanham as ilustrações. Nos quatro volumes existentes na biblioteca de Calouste Gulbenkian, apenas constam os nomes de Maggie (Salcedo) e de Lise Léon-Blum (1869-1931), cujo nome completo era Mary Adèle Julie Amélie Elise Blum e era casada com o político francês Léon Blum.

Entre os autores masculinos encontram-se personalidades com relevo na sociedade francesa do seu tempo, como Jean Besnard (1889-1958), ceramista, Henri de Régnier (1864-1936), escritor e poeta, Jean-Louis Vaudoyer (1883-1963), historiador da arte e escritor, Gabriel Mourey (1865-1943) novelista, poeta, e crítico da arte e René Blum (1878-1942) coreógrafo.

A coleção de Calouste Gulbenkian está incompleta, e sabe-se pelo inventário da sua biblioteca que foi comprada encadernada em quatro volumes (1912-1920), na venda pública da biblioteca de Eugéne Renevey, por intermédio da livraria parisiense Giraud-Badin (especializada em livros antigos e manuscritos), em junho de 1924, um ano antes da revista acabar. Certamente que, mais do que a moda, o que nela terá despertado o interesse do colecionador foi o requinte e o refinamento das ilustrações e sua qualidade gráfica.

Les succés d’A. G. B. : revue d’art des plus belles modes de Paris

A revista Art Goût Beauté surgiu em setembro de 1920, com o título Les succés d’A. G. B. As iniciais A.G.B. correspondem a Albert Godde, Beddin et Cie, empresa prestigiada de tecidos de Lyon, fundada em 1867, que a utilizou para publicidade das suas criações e da moda francesa.

Apresentada como “revista mensal que publica os mais belos desenhos dos grandes costureiros nas cores exatas das suas criações, bem como todos os tecidos em voga”[vi] (Nr. 1, septembre 1920), cada número era amplamente ilustrado com desenhos colados e litografados, a preto e a cores, com estêncil. Continha igualmente amostras de tecidos A.G.B. nas folhas de rosto.

Em 1920, e até ao ano seguinte, passa a designar-se Les succès d’art goût bon ton, e a partir de outubro de 1921, Art Goût Beauté. No início da década de 1930, a fotografia faz a sua aparição na revista, que muda ligeiramente o formato. As ilustrações foram entregues a alguns dos mais reputados ilustradores de moda, como Georges Lepape e Georges Barbier, que tinham já colaborado em outras publicações congéneres, embora o nome mais frequente seja, provavelmente, o da ilustradora e pintora francesa Colette Pattinger, ou Colette May (1896 -?), que aqui assinava simplesmente Colette.

Ao longo da sua publicação, as duas autoras mais frequentes, dos textos sobre moda, foram Rosine e Lucie Neumeyer-Hirigoyen, enquanto as rubricas sobre a vida mundana eram assinadas por Henri Clouzot (1865-1941), na altura conservador do museu Galliera, e Éric Bagge (1890-1978), arquiteto e decorador.

A Biblioteca de Arte possui quase toda a coleção desta rara e luxuosa revista de moda, que só não está completa porque Calouste Gulbenkian deixou de a comprar no final de 1932. Em 1934, deixaria de ser publicada.

Tal como a Gazette du bon ton, Art Goût Beauté era uma revista destinada, sem dúvida, a uma clientela feminina sofisticada, mundana e abastada, que apreciava e podia vestir as criações dos grandes costureiros franceses que ditavam a moda.

Très parisien

Très parisien é a última deste conjunto de revistas de Moda. Publicada entre 1920 e 1936, desejava ser “a revista da moda, do chique e da elegância”[vii], e tinha na sua direção uma mulher: Germaine Joumard (1898-1956), ilustradora que assina grande parte das ilustrações sob o pseudónimo de Joujou. Cada número continha uma seleção de modelos criados pelos grandes costureiros daqueles anos, desenhados e coloridos e geralmente impressos em papel vegetal.

Teve um suplemento dedicado apenas aos chapéus: Les chapeaux de Très parisien.

Quando a revista se extinguiu, no verão de 1936, Calouste Gulbenkian já tinha deixado de a comprar.


[i] “Gulbenkian s’intéressait vivement à la mode ; il était en ce domaine un excellent critique.”

[ii] “Le livre et la femme, ce sont les premières amours d’Uzanne, et je ne crois pas qu’il les ait trahies…”

[iii] “… l’élégance décorative d’un livre comme celui-ci cache souvent bien des compressions intellectuelles pour l’auteur, obligé de mettre un corset étroit à ses exubérances d’idées, afin de les faufiler plus prestement à travers toutes les combinaisons du dessin, qui est ici l’inexorable Mentor du texte.”

[iv] “… parures protectrices de cet être délicat, gracile et gracieux : L’Ombrelle, Le Gant, Le Manchon.”

[v] “Au moment où la mode est devenue un art, et un résumé de tous les arts, il faut qu’une gazette de la mode soit elle-même un journal d’art ! Telle sera la Gazette du Bon Ton.”

[vi] “Magazine mensuel qui publie les plus beaux dessins des grands couturiers dans les couleurs exactes de leurs créations, ainsi que tous les tissus à la mode.”

[vii]  “le journal de la mode, du chic, de l’élégance”

Série

Obras da Biblioteca

Uma seleção de livros e revistas, fotografias, catálogos de exposições e outros documentos cujos temas se relacionam com a história da arte, as artes visuais modernas e contemporâneas, a arquitetura, a fotografia e o design portugueses.
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