Exposição de Trabalhos do Projeto da Sede e Museu

“A exposição ao lado”

Recuperamos a exposição realizada no contexto da “II Exposição de Artes Plásticas” de 1961, que deu a conhecer o estado de desenvolvimento do projeto da futura Sede e Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, então ainda em fase de conceção.
Isabel Magalló 22 jun 2026 6 min
Dos Arquivos

A Exposição de Trabalhos do Projeto da Sede e Museu constituiu a primeira apresentação pública do futuro edifício da Fundação Calouste Gulbenkian, através da apresentação de maquetas, desenhos, fotografias e estudos preliminares relativos ao desenvolvimento do projeto.

A mostra foi organizada em paralelo com a II Exposição de Artes Plásticas, tendo ambas sido inauguradas a 18 de dezembro de 1961 na Feira Internacional de Lisboa, edifício projetado anos antes pelos arquitetos Francisco Keil do Amaral (1910-1975) e Alberto Cruz (1920-1990), e inaugurado em 1956. Enquanto a II Exposição de Artes Plásticas ocupava a nave principal, a exposição dedicada ao projeto da futura Sede e Museu teve lugar na nave lateral contígua.

Inserida no contexto daquela marcante exposição de artes plásticas, a mostra arquitetónica contribuía, em articulação com aquela, para o reforço da imagem institucional da jovem Fundação junto do público. Por um lado, afirmava-se o seu papel enquanto instituição de apoio às artes portuguesas contemporâneas; por outro, apresentava-se o futuro edifício modernista que viria a representá-la, projetando sobre a própria Fundação uma imagem de modernidade e abertura ao futuro.

A exposição foi organizada conjuntamente pelo Serviço de Belas Artes e pelo Serviço de Projetos e Obras. A logística e os orçamentos ficaram a cargo do Serviço de Belas Artes, que a integrou como uma secção adicional na gestão geral da II Exposição de Artes Plásticas, enquanto o Serviço de Projetos e Obras assegurou a montagem de ambas as exposições e coordenou especificamente a programação da exposição da Sede e Museu, sob direção do arquiteto Jorge Sotto Mayor de Almeida (1924-1996).

Os desenhos, estudos e maquetas apresentados refletiam o estado em que se encontrava o projeto, ainda numa fase de gestação. Nesse conjunto de peças estavam incluídas as primeiras perspetivas interiores do projeto e fotografias da maqueta da Sede e Museu, tomadas no Parque de Santa Gertrudes, jogando com a luz natural e a escala da vegetação real.

Nessa altura, a equipa projetista – Alberto Pessoa (1919-1985), Pedro Cid (1925-1983) e Rui Atouguia (1917-2006) – já trabalhava nas instalações provisórias do Parque de Santa Gertrudes, em colaboração com os técnicos do Serviço de Projetos e Obras, com os arquitetos consultores estrangeiros Leslie Martin (1908-2000), Franco Albini (1905-1977), Georges Henri Rivière (1897-1985) e William Allen (1914-1998), bem como com os consultores portugueses Francisco Keil do Amaral e Carlos Ramos (1897-1969).

O próprio termo “Trabalhos” conferia à mostra um carácter singular: não se tratava de apresentar uma obra concluída, mas de expor um processo ainda em curso, normalmente invisível ao público e limitado às práticas internas.

A exposição apresentou não só o projeto que viria a ser construído, como também as maquetas e desenhos apresentados a concurso pelos outros dois grupos convidados: o integrado por Arménio Losa (1908-1988), Luís Pádua Ramos (1931-2005) e Sebastião Formosinho Sanches (1922-2004) e o formado por Arnaldo Araújo (1925-1982), Manuel Maria Laginha (1919-1985) e Frederico George (1915-1994).

A mostra caracterizava-se por uma “apresentação mais sóbria”, em consonância com o seu carácter de divulgação e institucional, segundo o relatório de atividades do Serviço de Projetos e Obras de 1961.

Serviço de Projetos e Obras
Serviço de Projetos e Obras

A exposição adotava uma linguagem depurada, marcada por painéis brancos de estrutura finíssima, que criavam uma sensação de espaço aberto e contínuo. A própria museografia incorporava elementos vegetais que reforçavam uma das ideias centrais do projeto de arquitetura: a integração do edifício na paisagem natural.

A montagem da exposição, em conjunto com a da II Exposição de Artes Plásticas, serviu ainda como ensaio de soluções museográficas e de iluminação posteriormente aplicadas aos estudos do futuro Museu Calouste Gulbenkian.

Todavia, tratando-se de uma “mostra satélite” orientada para a divulgação e promoção de um empreendimento arquitetónico próprio, a Exposição de Trabalhos da Sede e Museu acabaria por ser algo eclipsada pela importância e repercussão da II Exposição de Artes Plásticas, ao ponto de quase não ter deixado rasto documental. 

Terá porventura sido por isso que teve escassa receção na imprensa da época, cuja atenção crítica se concentrou sobretudo na II Exposição de Artes Plásticas. Destaca-se apenas uma brevíssima referência publicada no número 17 da Colóquio. Revista de Artes e Letras, na qual se descrevia o espaço da Feira Internacional de Lisboa, que permitia não só incorporar a secção de arquitetura e o programa cultural associado, mas também apresentar “os planos das construções que a Fundação Gulbenkian está em vias de levantar no Parque de Santa Gertrudes, em Palhavã”.

Apesar da reduzida repercussão pública da mostra, esta suscitou interesse em meios ligados à arquitetura e à arquitetura paisagista. Francisco Caldeira Cabral (1908-1992), por exemplo, em representação do Centro de Estudos de Arquitetura Paisagista do Instituto Superior de Agronomia, manifestava o desejo de visitar a exposição, sublinhando que “merecem-nos especial interesse a exposição do programa e dos projetos do concurso para a Sede e Museu dessa Fundação, pelo que teríamos o maior empenho em que a nossa visita pudesse ser acompanhada por uma pessoa dessa Fundação”.

Embora a documentação conservada nos arquivos seja escassa e dispersa, foi, ainda assim, possível sinalizar a existência desta exposição que até aqui tinha passado “ao lado” do radar da nossa historiografia e revelar um episódio significativo da história por trás do processo de conceção e construção da Sede e Museu da Fundação Calouste Gulbenkian.

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Momentos relevantes na história de Calouste Gulbenkian e da Fundação Gulbenkian em Portugal e no resto do mundo.
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