“Ode à amizade”

A Biblioteca de Arte celebra o centenário do nascimento de Querubim Lapa (1925-2016) mostrando o livro de poemas “Ode à amizade”, oferecido por António Reis, que o artista transformou em obra única ao intervencioná-lo com desenhos e pinturas.
29 dez 2025 7 min
Obras da Biblioteca

Quando António Reis (1927-1991) enviou o livro Ode à amizade a Querubim Lapa, este estava de novo a viver em Lisboa, depois de uma breve, mas profícua, estadia na cidade Invicta, onde permaneceu entre setembro de 1949 e outubro do ano seguinte.

“Porque o Querubim mesmo na distância sempre lembra, cá estou de novo a acenar-lhe…!”

— António Reis, março de 1952

A relação de amizade de que este livro é um testemunho admirável data precisamente do período em que Lapa se mudou para o Porto, para frequentar o curso de escultura na Escola de Belas Artes. Neste pouco mais de um ano, o artista integrou tertúlias, conviveu com colegas e outros artistas, entre os quais Fernando Lanhas e Júlio Resende, e estabeleceu laços de estreita amizade com António Reis.

Esta amizade não sucumbiu ao afastamento físico que a distância entre o Porto e Lisboa impôs a António Reis e a Querubim Lapa, antes continuou a florescer alimentada por uma correspondência regular.

Por estes anos, o cinema não era ainda a ocupação primeira de António Reis, que ganhava a vida nos escritórios da Vista Alegre, em Gaia, onde residia, e, paralelamente, escrevia poesia e colaborava com jornais e revistas.

Se Reis foi, até há alguns anos, um poeta quase desconhecido, o mesmo não se pode dizer da sua atividade como cineasta, que iniciou como assistente de Manoel de Oliveira, no filme Acto da Primavera (1962). Realizou o seu primeiro documentário em 1963 e, juntamente com a sua mulher, Margarida Cordeiro, foi o autor de alguns dos filmes mais marcantes do designado novo cinema português, como Jaime (1974), Trás-os-Montes (1976), Ana (1985) e Rosa de Areia (1989).

Escrito em 1952, tal como os outros livros de poemas publicados antes de 1957 Ode à amizade é raramente mencionado nos estudos sobre a obra poética do cineasta. O responsável por esta quase omissão foi, como vários autores sublinham, o próprio Reis: “Tinha havido já outros livros antes de Poemas quotidianos, mas a diferença destes, a sua radical clareza, o prodígio da sua concisão, levou a que o poeta apagasse da sua bibliografia tudo o que estava para trás.”[i]

Praticamente todos estes primeiros livros de poesia de Reis são edição de autor. Ode à amizade também o é, mas distingue-se dos demais pela capa, desenhada pelo pintor Eduardo Luís (1932-1988) estudante de pintura na Escola de Belas Artes do Porto (1946-1952), certamente amigo do poeta e colega de Querubim, aquando da passagem deste pelo Porto.

Trata-se de uma capa de um depuramento gráfico quase austero, dividida em duas partes, cinzenta na parte inferior, de menor dimensão, com o nome do autor e o título, e a outra, maior, de cor branca, onde Eduardo Luís representa a amizade através de duas figuras humanas, cujo vestuário faz adivinhar masculinas, abraçadas, de costas, longilíneas e estilizadas. As cores frias das roupas contrastam com o vermelho vivo do sol que contemplam. Este é um dos trabalhos iniciais de Luís, quando ainda frequentava a Escola de Belas Artes. Em 1958, o artista abandonou o Porto e, graças a uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, foi para Paris, onde se fixou.

Ode à amizade / António Reis, 1952
Ode à amizade / António Reis, 1952

“Para o António Reis com um abraço de admiração”

— Querubim, outubro de 1952

O livro que, poucos meses depois, Lapa devolveu ao poeta era um exemplar completamente distinto. A intervenção plástica do artista transformou-o numa obra absolutamente singular no panorama da arte portuguesa da segunda metade do século XX. Testemunha tanto a relação afetiva entre o pintor e António Reis, como o seu afastamento em relação à linguagem formal das suas primeiras obras de pintura, produzidas entre 1944 e o início da década de 1950.

Ode à amizade / António Reis, 1952

Como observou David Santos no texto Realismo, lirismo e memória poética social na pintura de Querubim Lapa, nestes anos o artista começou a realçar “aspetos de composição e representação cada vez menos realistas e, por oposição, mais líricos, levemente expressionistas, abstratos ou mesmo surrealizantes”, notando que ”neste processo de distanciamento sobre a primeira gramática visual neorrealista parece ainda evidente que um desejo de explosão cromática ou mesmo volumétrica de grande inventividade e composição… determina obras como Mulher vendendo um cisneFloristas, ou mesmo pinturas a óleo e sobre papel…”[ii]

Desta época datam igualmente desenhos que Querubim realizou para a revista Vértice, em 1951, e para o jornal Comércio do Porto, em 1952 e 1953.

Sendo um livro iluminado, no sentido em que os desenhos/pinturas trazem uma distinta luz às palavras, ilustrando-as e possibilitando-lhes outras interpretações, a forma como Querubim Lapa ilustrou os poemas de António Reis está mais próxima dos livros que William Blake criou no final do século XVII, do que dos livros iluminados do período medieval.

À semelhança das obras do poeta e pintor britânico, em Ode à amizade o espaço vazio de cada página cobre-se de desenhos e cor, sem rígidas separações pré-definidas. As palavras do poeta encontram nas pinturas e desenhos do artista a correlação perfeita. Cada um dos poemas é ilustrado segundo a interpretação livre de Querubim, em desenhos marcados por um traço fluído em tinta-da-china preta, coloridos a guache com uma paleta sumptuosa.

Por vezes, os espaços vazios da página não são suficientes, e os desenhos invadem toda a extensão do papel, sobrepondo-se mesmo à escrita, fazendo com que palavras e desenhos se entrecruzem, dando-lhes uma outra expressão poética. O registo é figurativo e lírico, povoado por homens, mulheres e crianças, que interagem entre si e com outras criaturas animais, reais – coruja, pombos, carneiro, cisne – e imaginárias: uma fénix com cabeça humana e borboletas semi-humanas. As cores têm tons vibrantes e, por vezes, contrastantes: laranjas, vermelhos, rosas, verdes e azuis, e o artista utiliza-as denotando pleno domínio cromático.

Ode à amizade é, assim, uma obra única no percurso de Querubim Lapa. O artista não tornou a repetir esta experiência de ilustrar palavras de escritores e poetas. Na sua singularidade, este livro é um testemunho expressivo da liberdade criativa da composição e da potencialidade das cores, que explorou tanto na sua obra pictórica como nas suas criações em cerâmica.

Adquirido em 2022 e integrado na coleção de livros de artista e edição independente da Biblioteca de Arte, Ode à amizade é igualmente uma obra relevante para a compreensão das relações estabelecidas entre personalidades do meio cultural nacional na década de 1950.


[i] Diogo Vaz Pinto em https://sol.sapo.pt/2017/07/12/antonio-reis-eu-nao-voo-ando-quero-que-me-oicam/ Consultado em 23/12/2025.

[ii] SANTOS, David (2023). “Realismo, lirismo e memória poética social na pintura de Querubim Lapa”. In Querubim Lapa: uma poética neorrealista. Vila Franca de Xira: Museu do Neo-Realismo (páginas 43-44).

Série

Obras da Biblioteca

Uma seleção de livros e revistas, fotografias, catálogos de exposições e outros documentos cujos temas se relacionam com a história da arte, as artes visuais modernas e contemporâneas, a arquitetura, a fotografia e o design portugueses.
Saber mais

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.