O selo da Fundação Calouste Gulbenkian

Inspirado numa moeda grega da coleção de Calouste Gulbenkian, o selo da Fundação adotou a quadriga como emblema dos seus quatro fins estatutários: Arte, Beneficência, Ciência e Educação.
16 out 2025 4 min
Dos Arquivos

A iniciativa de propor a criação de uma insígnia ou distintivo da Fundação terá partido de Kevork Loris Essayan (1897-1981), genro de Calouste Gulbenkian e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.

Na ata da reunião da Comissão Delegada do Conselho de Administração de 29 de abril de 1959 pode ler-se: “Por proposta do Senhor K. L. Essayan resolveu-se mandar fazer um selo branco que, ao mesmo tempo, sirva de distintivo da Fundação, nos moldes de uma medalha da colecção de numismática da Fundação, que, numa das faces, representa uma quadriga. O projecto de tal selo será confiado ao artista José Luís Brandão de Carvalho (…) e [a] um artista estrangeiro com quem o Senhor K. L. Essayan ficou encarregado de estabelecer contacto.”

A moeda em questão é um decadracma de duas faces originária de Siracusa, inventariada no Museu Calouste Gulbenkian como N317, que representa, no reverso, uma quadriga.

Decadracma de Siracusa – Anverso
Decadracma de Siracusa – Reverso

Na origem da escolha desta moeda encontra-se a ideia, expressa na ata da reunião do Conselho de Administração de 14 de outubro de 1959, de que os quatro cavalos simbolizariam os quatro fins estatutários da Fundação: Arte, Beneficência, Ciência e Educação.

Um dia após a reunião de abril de 1959, Essayan escreve a Madame Berthelot (?-1976), antiga secretária de Calouste Gulbenkian e, à época, responsável pelo secretariado que a Fundação mantinha na casa de Calouste Gulbenkian, na Avenue d’Iéna, em Paris. Explica-lhe que a Fundação pretendia ter uma “insígnia” ou “selo” que pudesse ser utilizado como en-tête nos seus documentos oficiais, e que servisse também de ex-líbris, e envia-lhe a fotografia da moeda que se pretendia reproduzir com essa finalidade, descrevendo-a como “a Greek coin showing on the verso Apollo driving his quadrige”.

Encarrega Madame Berthelot de obter um orçamento, junto dos gravadores da Rue Castiglione, para a execução de um carimbo com a imagem da moeda. O carimbo é encomendado a um gravador que apresentou o valor de Frs 22.000 para a sua execução em cobre, tendo Madame Berthelot informado Kevork Essayan, em carta datada de 1 de julho, que o carimbo fora enviado para Lisboa através de Robert Gulbenkian (1923-2009), sobrinho de Calouste Gulbenkian e colaborador da Fundação.

Os Arquivos Gulbenkian não localizaram, até à data, nenhuma evidência da utilização deste carimbo francês.

A alusão ao cavaleiro como Apolo, como referido por Kevork Essayan na correspondência para Madame Berthelot, terá sido um lapso, uma vez que não há elementos iconográficos na moeda que permitam associar o condutor a uma divindade. Já nos registos da coleção numismática da época de Calouste Gulbenkian se alude ao condutor da quadriga como um auriga ou cocheiro.

O artista portuense José Luís Brandão de Carvalho (1900-1962) começara, entretanto, a apresentar desenhos com as suas propostas, tendo a Comissão Delegada do Conselho de Administração, nas suas reuniões de 21 de julho e de 8 de setembro de 1959, decidido solicitar alterações aos mesmos.

Os Arquivos Gulbenkian guardam dez desses estudos, todos datados de 1959.

Estudo para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian
Estudo para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian
Estudo para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian
Sugestão para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian
Estudo para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian
Estudo para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian
Estudo para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian
Estudo para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian
Estudo para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian
Estudo para ex-líbris da Fundação Calouste Gulbenkian

A versão final do selo, cujo desenho original não se localizou, acabou por ser a reprodução exata da imagem da moeda, acrescida da inscrição “Fundação Calouste Gulbenkian Lisboa”.  O selo branco da Fundação, assim como o respetivo ex-líbris, foi, por decisão do Conselho de Administração, executado na Imprensa Nacional.

Selo branco da Fundação Calouste Gulbenkian
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