I Exposição de Artes Plásticas

A génese de uma coleção

A I Exposição de Artes Plásticas, que decorreu em Lisboa entre 7 e 30 de dezembro de 1957, constituiu um dos primeiros grandes eventos da Fundação, tendo contribuído para a construção e afirmação da sua imagem institucional e para definir as principais formas de apoio que a instituição privilegiaria nas décadas seguintes no que concerne à Arte Moderna e Contemporânea.
08 abr 2025 11 min
Dos Arquivos

Não obstante algumas mostras artísticas que vinham ocorrendo em Portugal a um ritmo mais ou menos constante, José de Azeredo Perdigão, Presidente da Fundação e responsável pelo pelouro das Artes, considerando ser este tipo de iniciativas fundamental para o “aperfeiçoamento moral e a elevação cultural do país”, defendia que a Fundação deveria ter a ambição de “fazer novo e melhor”.

Aprovada pelo Conselho de Administração em 1 de março de 1957, a I Exposição de Artes Plásticas irá decorrer no edifício da Sociedade Nacional de Belas Artes, uma vez que a Fundação não dispunha ainda de instalações próprias. Para equiparar o espaço às modernas exigências museológicas e à dignidade do acontecimento, promoveu-se a renovação do Salão de Exposições da Sociedade Nacional de Belas Artes, trabalho supervisionado por Maria de José Mendonça, então responsável pelo Serviço de Belas Artes e Museu.

 

 

Para além da exposição propriamente dita, estavam previstas outras iniciativas: a atribuição de prémios e de bolsas de estudo, a realização de três conferências, de visitas orientadas para o público mais jovem e a aquisição de obras de arte aos artistas.

Dentro das artes plásticas, as áreas contempladas pela mostra foram a Pintura, o Desenho, a Escultura e a Gravura, sendo os critérios de admissão a contemporaneidade e a qualidade dos trabalhos. Na seleção das obras a exibir, as divisões entre as diversas escolas constituíram um desafio.

Azeredo Perdigão referia, a esse propósito: “A nossa maior dificuldade é a psicologia dos artistas e as rivalidades que os dividem”. Para ultrapassar esta questão foi constituído um júri de admissão composto por conceituados especialistas, evitando-se, assim, a participação da Fundação no processo de seleção.

Os artistas foram convidados a apresentar a sua candidatura através de anúncios na imprensa e a adesão foi massiva, com a inscrição de 684 autores e 2.342 obras. Foram selecionadas cerca de 255 peças, a maior parte delas obras abstratas. Os artistas excluídos acabariam por contestar a decisão e organizar, em forma de protesto, uma exposição alternativa, intitulada Obras recusadas na exposição da Fundação Calouste Gulbenkian: exposição de artes plásticas, que decorreu também na Sociedade Nacional de Belas Artes, logo no mês seguinte, de 21 a 30 de janeiro de 1958.

Na inauguração da Exposição, a 7 de dezembro, marcariam presença as mais altas figuras do Estado.

Com a atribuição de prémios visava-se apoiar os artistas a prosseguirem da melhor forma a sua carreira. Para o efeito constituiu-se um outro júri presidido por Reynaldo dos Santos, Presidente da Academia Nacional de Belas Artes, e composto por personalidades de mérito e créditos reconhecidos no meio. Para este fim, foi prevista uma verba de 350 contos. Dado que o júri decidiu não atribuir um dos primeiros prémios de Escultura, daquela dotação foram gastos apenas 315 contos.

Os artistas premiados, maioritariamente de carreira reconhecida, foram; Eduardo Viana (Grande Prémio de Pintura); Barata Feyo (Grande Prémio de Escultura); Dórdio Gomes (1.º Prémio de Pintura); Abel Manta (1.º Prémio de Pintura); António Duarte (1.º Prémio de Escultura); Bernardo Marques (Prémio de Aguarela); Júlio Resende (2.º Prémio de Pintura); Guilherme Camarinha (2.º Prémio de Pintura); Joaquim Correia (2.º Prémio de Escultura); Jorge Vieira (2.º Prémio de Escultura); Bernardo Marques (Prémio de Desenho); Santiago Areal (Prémio de Desenho); Júlio Pomar (Prémio de Gravura); Teresa Sousa (Prémio de Gravura). A Almada Negreiros foi atribuído o prémio Extraconcurso ou Prémio de Carreira, tendo Azeredo Perdigão, a este propósito, referido que “a obra exposta não merecia um prémio, mas Almada Negreiros é, sem dúvida, uma das figuras mais representativas da Arte em Portugal”.

No âmbito da exposição, decorreu também o concurso para a atribuição de bolsas a artistas. A Fundação não pretendia substituir-se ao Estado em matéria de assistência aos artistas. Era antes seu propósito assegurar a sua independência e liberdade. Perdigão defendia que “o artista, em primeiro lugar, necessita de ensino; e, depois, para o aperfeiçoamento das suas faculdades naturais e das técnicas adquiridas e ainda para o enriquecimento das suas fontes de inspiração, de contacto com os meios artísticos e culturais mais desenvolvidos, e, se possível, com os grandes mestres consagrados”.

O apoio a bolseiros vinha, na realidade, já sucedendo desde os primeiros meses da Fundação, na sequência dos pedidos que iam surgindo. Porém, não estavam ainda definidos os critérios que deveriam nortear esta atividade distributiva. Por ocasião da Exposição foi constituído um júri consultivo composto por personalidades relevantes do meio artístico e os seus membros convidados a dar o seu parecer quanto aos critérios a adotar na atribuição de bolsas.

Foram privilegiados os jovens artistas com dificuldades económicas, para permitir àqueles que frequentavam o ensino superior terminar os seus cursos e facilitar a outros o contacto com escolas no estrangeiro e com artistas consagrados. Destacam-se como países de destino França, Itália e Inglaterra, mas há também registo de uma bolsa para aperfeiçoamento na área da Escultura no Egito. Curiosamente, alguns dos jurados foram também premiados ou distinguidos. Um aparente conflito que traduz bem o limitado meio artístico português de então.

Na programação do evento foi também prevista a realização de três conferências: Bernard Dorival, conservador do Musée National d’Art Moderne (Paris), proferiu uma conferência intitulada “Espirit et signification de la peinture française contemporaine”; Roland Penrose, Presidente do Institute of Contemporary Arts (Londres), dissertou acerca das “Tendences actuelles dans l’art britanique” e Mário Dionísio, artista e crítico português, elaborou sobre o “Conflito e unidade da Arte Contemporânea”.

Por fim, no contexto da Exposição procedeu-se também à aquisição de obras de arte. Este tipo de aquisições havia já sido defendida, em outubro de 1956, por Azeredo Perdigão, junto do Conselho de Administração. Mas a proposta levantou dúvidas e gerou resistência por não serem claros os fundamentos para essas aquisições nem o destino a dar às obras. O Presidente argumenta com o incentivo que seria dado aos artistas e a possibilidade de as obras integrarem uma galeria ou núcleo de arte contemporânea no futuro Museu, para além do empréstimo a museus nacionais, fora dos grandes centros urbanos, de modo a valorizar as suas coleções. Propunha ainda que as aquisições ocorressem nas diversas exposições que fossem surgindo.

O Conselho de Administração acabaria, contudo, por opor-se e o projeto de compra de obras de arte seria adiado. Mais tarde Perdigão voltaria a insistir na importância da iniciativa como forma indispensável de estímulo aos artistas, mesmo que não se tratasse de obras de carácter excecional, e sublinha a utilidade de se cederem os trabalhos adquiridos a museus nacionais, para fins educativos. Entendia corresponder, assim, da melhor maneira ao fim estatutário estabelecido por Calouste Gulbenkian, a Arte. O Conselho de Administração terá por fim reconhecido o valor da argumentação do Presidente e deliberou a favor das aquisições, que se concretizariam, justamente, com a I Exposição de Artes Plásticas.

Foi então estabelecido que, no processo de aquisições, a primeira opção da compra seria dada a particulares ou a Museus e só depois a Fundação faria as suas escolhas. Para assessorar este processo de seleção foi designado um júri, com funções exclusivamente consultivas, do qual faziam parte: João Couto, Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, Diogo de Macedo, escultor e Diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea, Luís Dourdil, representante da Sociedade Nacional de Belas Artes, e Nuno Teotónio Pereira, reputado arquiteto. Com base nas suas recomendações e nas anotações dos membros do Conselho de Administração – Kevork Essayan, Pedro Teotónio Pereira, Azeredo Perdigão e o Duque de Palmela – foi feita a seleção final.

Foram adquiridas pela Fundação obras de Pintura a Marcelino Vespeira, Nuno de Siqueira, Maria Eugénia Fernandes Noronha, Manuel Bentes, Emmerico Nunes, Rui Filipe, Hansi Staël, Mário de Oliveira e obras de Desenho a Jorge Barradas, Santiago Areal e Milly Possoz. Na Gravura, obras de Gastão Seixas, José Júlio e Bartolomeu dos Santos. Finalmente, na Escultura, foram escolhidas obras de Fernando Fernandes, Lagoa Henriques e António Duarte. A peça deste último não fazia parte das recomendações do júri, mas Azeredo Perdigão e o Duque de Palmela decidiram pela sua compra. Foi posteriormente acrescentada uma escultura de Álvaro de Brée, depois deste ter aceitado a redução do valor da sua obra “Menina dos olhos tristes”.

Este conjunto de dezoito obras estabeleceu o início da coleção que, posteriormente, viria a ser a coleção do Centro de Arte Moderna e a aquisição de obras em exposições seria o método que a Fundação privilegiaria nos anos seguintes para o alargamento da sua coleção.

Em adição ao referido objetivo de apoiar o artista de forma direta, dotando-o de meios para prosseguir a criação independente, a aquisição de obras no contexto de exposições alcançava uma outra finalidade: fomentar o mercado de Arte que, ao tempo, era praticamente inexistente em Portugal, sendo, essencialmente, suportado pelo Estado e autarquias, o que limitava de forma significativa o processo criativo. O mecenato público promovia uma arte oficial e, como consequência, dificultava o desenvolvimento de novas correntes da arte contemporânea.

Parte das obras adquiridas era cedida, a título provisório ou definitivo, a museus, tal como preconizado por Azeredo Perdigão, e destinaram-se ainda algumas obras para a realização de exposições itinerantes pelo país. O propósito assumido era o de chegar a novos públicos, incluindo às gerações mais novas, promovendo a educação artística em todo o país.

Dir-se-ia que a resistência inicial do Conselho de Administração às aquisições de obras de arte viria a ser uma mais-valia, na medida em que fomentou a reflexão em torno do tema e culminou na definição de critérios e diretrizes que viriam a ser seguidos pela Fundação.

No prefácio do catálogo da exposição Azeredo Perdigão sublinha os pressupostos da iniciativa: “A fundação […] pretendeu contribuir para o desenvolvimento das artes em Portugal […] sem atender a escolas, fações ou correntes, e sem patrocinar, especialmente, umas em detrimento de outras”. E prossegue: “às fundações está reservado um grande papel em todas as tarefas que se destinem ao progresso da humanidade, e progredir é, em todos os tempos, fundamentalmente, criar renovando”.

Em carta dirigida a Teotónio Pereira a 26 de dezembro alude ao alcance da iniciativa: “Havia que fazer alguma coisa nova, que nos impusesse no campo das belas artes, que constituísse uma lição e que representasse, para os verdadeiros artistas, uma esperança. Lançámos mãos à obra com o maior entusiasmo e com os maiores sacrifícios; e hoje podemos dizer-lhe, sem orgulho, mas com plena satisfação, que triunfámos por completo. A Exposição foi um êxito total e pode dizer-se que nunca, em Portugal, se fez coisa que se assemelhasse”.

Série

Dos Arquivos

Momentos relevantes na história de Calouste Gulbenkian e da Fundação Gulbenkian em Portugal e no resto do mundo.
Saber mais

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.