A escolha do lugar

Alguns testemunhos sobre o processo de seleção e aquisição do terreno onde se edificaram os edifícios e jardins da Fundação Calouste Gulbenkian e onde hoje se ergue o Centro de Arte Moderna e um novo jardim virado a Sul.
Margarida Ribeiro Rosa 18 jun 2026 7 min
Dos Arquivos

Após a morte de Calouste Gulbenkian, a 20 julho de 1955, as múltiplas tarefas decorrentes da execução testamentária, a necessidade de dar sequência às responsabilidades assumidas por Gulbenkian na área dos negócios e da filantropia e os estudos requeridos pelo planeamento da futura instituição, obrigaram ao arrendamento de um espaço provisório para o funcionamento da ainda embrionária Fundação Calouste Gulbenkian.

O 1.º andar do n.º 23 da rua de Rua de São Nicolau, o mesmo prédio onde Azeredo Perdigão tinha escritório, converteu-se assim na sua primeira morada.

A notícia do estabelecimento da Fundação em Lisboa, com base no legado e herança de Gulbenkian, causou profunda impressão em Portugal e no estrangeiro.

Antevendo o impacto da nova estrutura na vida da cidade e do país, vários proprietários ou seus representantes fazem chegar às mãos de Azeredo Perdigão propostas de venda de casas e terrenos.

Uma delas, por exemplo, de Ezequiel dos Santos Lima, em representação de um amigo, propõe, logo no início de 1956, “uma boa moradia, com salas bonitas, bem expostas, optimas garages [sic], amplo jardim e um sítio muito central (…), junto à Avenida da Liberdade, com saída para ali”. Na recusa desta proposta, Azeredo Perdigão refere encarar antes a hipótese de “um grande terreno onde possamos construir um edifício inteiramente novo”.

Outras ofertas chegam e são igualmente recusadas. E em junho de 1956, os trustees irão assegurar por três meses a opção de arrendamento do Palácio Palmela no Lumiar, pertencente à Marquesa de Tancos, aluguer esse que também não se veio a concretizar.

A 18 de julho deste ano são finalmente aprovados os estatutos e constituída a Fundação Calouste Gulbenkian pelo Decreto-Lei N.° 40690. Como recordaria mais tarde Perdigão no primeiro Relatório do Presidente – “Para tanto fomos forçados a passar à acção logo no primeiro período da existência da instituição, quando mal se começava ainda a articular a sua estrutura”.

Ciente da importância e da premência da escolha de um lugar adequado para instalação da recém-criada instituição, em carta dirigida aos trustees a 1 de outubro de 1956, refere a necessidade de se preparar um estudo preliminar para o lugar da sede, não só para orientar a apresentação de propostas de venda de terrenos à Fundação, mas também para o trabalho prévio à adjudicação da proposta final, a sua supervisão e execução.

Aponta a urgência de se criar um pequeno gabinete de estudo com a incumbência específica de proceder a essa tarefa e avança ter já convidado o engenheiro Luís Nolasco de Guimarães Lobato para elaborar um memorando que estabelecesse as bases para a construção da sede da Fundação, o qual apresenta aos trustees para que estes possam aferir da competência do seu autor.

Guimarães Lobato era, à altura, o engenheiro chefe do Gabinete de Estudos da Câmara Municipal de Lisboa, encarregue dos planos de desenvolvimento futuro da cidade, já em fase de conclusão; antes tinha estado à frente do projeto do metropolitano de Lisboa, recentemente concluído.

Apresentava-se, portanto, disponível para aceitar o convite de Perdigão. Foi assim designado para chefiar o gabinete de estudo – embrião do futuro Serviço de Projetos e Obras (1956-11-01 a 1992-07-28) – que definiria os critérios para a escolha do local de estabelecimento da Fundação que se pretendia amplo para acolher uma nova construção, com vocação pública e que constituísse um polo dinamizador da cidade.

A 1 de setembro de 1956, o advogado Adolfo Bravo, representando o Conde Vilalva, escreve a Azeredo Perdigão: “(…) sabendo que a Fundação Gulbenkian procura um terreno em Lisboa para edificar a sua sede, suponho que conviria o Parque de Santa Gertrudes (onde está a feira popular que de lá sairá em 1 de Outubro) que possue enorme area e muitas árvores (…)”.

A propriedade, também chamada Parque Vilalva, junta-se a outras quatro candidatas a acolher a Fundação: dois terrenos do Matadouro e dois talhões militares. Após a exclusão de duas destas áreas, por dificuldades administrativas e de prometida ocupação dos espaços por entidades públicas, chegou-se a uma última seleção: o antigo matadouro, junto à Fontes Pereira de Melo, o Parque Vilalva à Palhavã e o então quartel de Artilharia Um, junto às Amoreiras.

Chamado a pronunciar-se, Guimarães Lobato assina um detalhado memorando sobre a localização das instalações da sede e museu da Fundação, que apresenta a 13 de janeiro de 1957 e que complementa com fotos aéreas e esbocetos dos três locais. Nele conclui: “Todas as condições técnicas dos pontos de vista urbanístico e de museologia pendem a favor da localização do museu e sede da Fundação Calouste Gulbenkian no terreno do Parque Vilalva”. Para este parecer contribuiu a proximidade da Cidade Universitária e dos transportes, entre eles a já projetada estação de metropolitano de Palhavã, que inauguraria em 1959.

Em março de 1957 já decorrem as negociações entre a Fundação, a Câmara Municipal e o advogado da Família Vilalva. Do Parque de Santa Gertrudes seria destacada uma parte para a Fundação e a remanescente manter-se-ia na posse do vendedor. O preço pedido é de 28.000 contos, para 70.000 m2 de terreno.

Azeredo Perdigão consegue negociar. A 16 de abril comunica a Pedro Teotónio Pereira: “Dou-lhe a grande notícia de que acabo de ajustar com o Conde Vilalva a compra de toda a parte disponível do Parque Palhavã (…) com uma área (…) de 70.000 m2, pelo preço de 20.000 contos”.

A 30 de abril de 1957 é assinada, nos Paços do Concelho da cidade de Lisboa, a escritura pública de venda do terreno do Parque de Santa Gertrudes, celebrada entre o Conde de Vilalva e sua mulher e, em representação da Fundação, os três trustees: Azeredo Perdigão, Kevork Essayan e Domingos de Sousa e Holstein Beck.

Presente ao ato esteve igualmente o Presidente da Câmara de Lisboa, o tenente-coronel Salvação Barreto, em virtude de direitos de impedimento da Câmara Municipal sobre as áreas e em sinal do alto interesse nacional e municipal de que se revestia a obra prosseguida pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Ao terreno adquirido foram acrescentados, por compra, 4.883 m2 em 1967 e outros dois lotes de 64 m2 e 875,50 m2 já em 1980. A 14 de outubro de 2005 a Fundação Calouste Gulbenkian adquiriu à viúva do Conde de Vilalva o terreno do Parque de Santa Gertrudes ainda em sua propriedade, comprometendo-se, entre outras contrapartidas, a conceder à proprietária o direito de usufruto do imóvel e a atribuir o prémio Vasco Maria Eugénio de Almeida, que distingue a melhor ação de recuperação do património nacional.

Em julho de 2017, com a morte da Condessa de Vilalva, Maria Teresa Eugénio de Almeida, a Fundação Calouste Gulbenkian toma posse do terreno do Parque de Santa Gertrudes, adquirido em 2005, e renomeia também nessa ocasião o prestigiado galardão de património então instituído como Prémio Gulbenkian Património Maria Tereza e Vasco Vilalva.

No novo recinto, com área de cerca de 2 hectares, situa-se agora um jardim projetado pelo arquiteto paisagista Vladimir Djurovic e o edifício do CAM (Centro de Arte Moderna) redesenhado pelo arquiteto Kengo Kuma. Ambos os espaços foram inaugurados, em setembro de 2024. O atual terreno da Fundação Calouste Gulbenkian cobre hoje uma área de cerca de 7.5 hectares.

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Momentos relevantes na história de Calouste Gulbenkian e da Fundação Gulbenkian em Portugal e no resto do mundo.
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