Almanaques: medir o tempo, organizar o mundo

Usados durante séculos para orientar o tempo e o quotidiano, os almanaques combinam informação prática, observação astronómica e textos ilustrados, como demonstram dois exemplares da Biblioteca de Calouste Gulbenkian.
29 jan 2026 4 min
Obras da Biblioteca

Em português, a palavra Almanaque deriva da palavra árabe al-manākh. Um almanaque é uma publicação de periodicidade geralmente anual, contendo um calendário onde se assinalam as datas das principais efemérides astronómicas, como os solstícios e as fases lunares, e outros eventos e informações utilitárias. 

Sobre a invenção dos primeiros Almanaques encontram-se diferentes e curiosas versões. Segundo alguns autores, na sua origem parecem estar os chineses, enquanto outros consideram os povos oriundos do Crescente Fértil como os seus verdadeiros inventores. Outros ainda encontraram explicações bem mais interessantes.

Segundo o escritor brasileiro Machado de Assis (1839-1908), num conto escrito em 1890, foi o Tempo que inventou o Almanaque, porque o objeto da sua paixão, a jovem Esperança, não correspondia ao seu amor por causa da diferença de idades que os separava. Ao criar o Almanaque, queria o Tempo fazer com que a Esperança visse “palpavelmente ir-se-lhe a mocidade…” e se rendesse ao seu amor. Muitos almanaques depois, o Tempo conquistou finalmente a sua amada, que passou a colaborar com o esposo. A partir de então, diversos almanaques passaram a ser “entremeados e adornados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas” (“Como se inventaram os Almanaques”, 1890. In Contos na Imprensa – Fase 9 (1885- 1892). Consultado em 21/01/2026).

Por seu lado, na Grande enciclopédia portuguesa e brasileira lê-se que uma muito antiga lenda talmúdica conta que “o primeiro almanaque fora elaborado por dois filhos de Seth, deus egípcio do caos, da seca e da guerra, nas vésperas do Dilúvio.” Tendo previsto a intenção divina eles decidiram guardar, gravando em placas de granito e tijolo, o “Livro de Todo-o-Saber, que era, nada mais nada menos, que o nosso almanaque com a divisão do tempo, o nascimento do sol, as inconstâncias da Lua, a violência dos ventos e a previsão das tempestades” (Volume 2, página 23).

Qualquer que tenha sido a sua verdadeira origem, certo é que babilónios, egípcios, gregos e romanos utilizaram almanaques para melhor fazerem a organização do seu quotidiano.

Desde o início que os almanaques contêm informações práticas e diversificadas, sobretudo de carácter astrológico e astronómico. A invenção da imprensa permitiu a inclusão de outro tipo de informação, e ao longo do século XVIII o seu âmbito temático alargou-se e surgiram, por exemplo, receitas para doenças várias e outras mezinhas.

Durante o século XIX os almanaques diversificaram-se e especializaram-se de acordo com os interesses dos seus públicos: as populações rurais e os habitantes das cidades. A parte astrológica diminuiu e deu lugar a outro tipo de conteúdos, de carácter mais informativo, factual e literário.

No século XXI poucos são os almanaques que ainda sobrevivem à concorrência desse universo imenso de informação que é a Internet. Resiste quase só o velhinho Borda d’Água, mas já não se ouve nas ruas o pregão que o anunciava no final ou início de cada ano.

Entre os livros que Calouste Gulbenkian tinha na sua biblioteca particular contam-se dois almanaques: o Almanach du masque d’or, editado em Paris em 1922, e o Almanach Henri Boutet para o ano de 1893.

Página com ilustração de Edouard Halouze
Capa de “Almanach Henri Boutet”

O primeiro é um belo exemplar encadernado a seda amarela, de tiragem limitada a 525 exemplares, profusamente ilustrado por Edouard Halouze (1895-1958), pintor, ilustrador e decorador francês que ganhou notoriedade durante o período Déco. As suas ilustrações acompanham os pequenos textos que versam diversos aspetos da vida mundana parisiense.

“Almanach du masque d'or”
“Almanach du masque d'or”

Já o segundo, é inteiramente dedicado à mulher pelo seu autor, o ilustrador e gravador francês Henri Boutet (1851-1919), com ilustrações e pequenos poemas do jornalista e escritor Hippolyte Devillers (1850?-1907).

“Almanach Henri Boutet”
Páginas de “Almanach Henri Boutet”
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