História da Arte e da Arquitetura
Notas biobibliográficas para a construção historiográfica em Portugal
A história da arte e da arquitetura portuguesas constitui um capítulo inscrito de forma ainda incipiente na história da arte europeia. Se diversos artistas e arquitetos portugueses são já alvo de interesse e atenção a nível internacional, a verdade é que a produção artística nacional, sobretudo a anterior ao século XX, é ainda pouco conhecida além-fronteiras e o silêncio impera sobre as gerações de pintores e arquitetos que, de 1500 a 1800, forjaram a imagem do primeiro império global da história.
Desde o final do século XX registam-se, contudo, alguns avanços no sentido de amplificar o conhecimento da arte portuguesa em contexto internacional. Refira-se a edição de 1991 do Festival Europália, em que Portugal foi o país-tema, mostrando na Bélgica obras da arte portuguesa do período medieval à arte moderna e contemporânea, da exposição Modern art in Portugal, 1910-1940, mostrada no Schirn Kunsthalle, em Frankfurt em 1997, da exposição Exotica, patente no Kunsthistorisches Museum de Viena em 2000, de Encompassing the globe, exposição realizada em 2007 na Arthur M. Sackler Gallery, da Smithsonian Institution e na Freer Gallery of Art, em Washington D.C., e da exposição Luxury for export, mostrada no Isabella Stewart Gardner Museum, Pittsburgh, em 2008.
As recentes exposições Amadeo de Souza Cardoso, realizada no Grand Palais (abril-julho de 2016), e L’âge d’or de la renaissance portugaise, apresentada no Museu do Louvre (junho-outubro de 2022), juntamente com a 11.ª edição do Festival d’Histoire de l’Art realizada em Fontainebleau (junho de 2022), em que Portugal figurou como país convidado, vieram evidenciar a necessidade de promover estudos a nível internacional e de reforçar plataformas de colaboração a vários níveis para desenvolver o conhecimento da arte portuguesa. Refira-se a este propósito projetos como o Iberian Modernisms and the Primitivism Imaginary (IHA/NOVA FCSH, 2018) e o Laboratório Colaborativo: Dinâmicas Urbanas, Património, Artes. Seminário de Investigação, Ensino e Difusão, promovido pelo DINÂMIA’CET-Iscte, que congrega diversas instituições universitárias portuguesas, brasileiras e espanholas, iniciado em 2015.
Por outro lado, a aquisição, em 2023, da pintura quinhentista Ressurreição de Cristo atribuída a Garcia Fernandes (1514-1565) e Cristóvão de Figueiredo (?-1543), pelo Museu do Louvre, constitui uma prova evidente de que a arte nacional começa a ser reconhecida na sua singular identidade.
Um aspeto fundamental neste processo é a construção de um conjunto de recursos essenciais para uma análise crítica da história da arte e da arquitetura em Portugal. Ou seja, a elaboração de dispositivos que possibilitem uma visão de conjunto, através da reunião e organização temática de recursos produzidos no âmbito académico nacional, permitindo uma análise crítica e de largo espectro em torno da historiografia da arte portuguesa.
Abrangendo, numa primeira fase, obras escritas por autores portugueses e estrangeiros nascidos entre 1748 e 1900, pretende-se com este artigo contribuir para a compreensão do desenvolvimento da historiografia artística portuguesa, colocando-a em relação com outros países, nomeadamente, a Espanha, Inglaterra, França e Itália. A sua produção surge da colaboração entre a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e o IHA|NOVAFCSH, na sequência do Congresso Internacional da História da História da Arte e da Arquitetura em Espanha e Portugal nos séculos XIX e XX, realizado em janeiro de 2024, na Fundação Calouste Gulbenkian.
Através dos perfis de historiadores da arte e da arquitetura portugueses e dos que escolheram o país como campo dos seus estudos e das obras que produziram, esta recolha biobibliográfica pretende assim constituir-se como um instrumento de trabalho para a constituição da historiografia artística de Portugal.
Os perfis aqui reunidos foram elaborados por Lucas Neyroud Antunes, aluno de História da Arte da NOVA FCSH, a partir da consulta de várias fontes, entre as quais diversos trabalhos de investigação de mestrado e doutoramento que têm vindo a ser desenvolvidos em Portugal nas últimas décadas.
Assumindo-se como um trabalho em desenvolvimento, permitindo o seu crescimento com a introdução de nova informação, estas Notas Biobibliográficas pretendem constituir-se como uma espécie de primeira parte de um futuro dicionário de historiadores da arte e da arquitetura em Portugal, em acesso livre a partir do sítio web da Biblioteca de Arte, com versão em inglês, para maior alcance internacional.
O primeiro período em análise principia com o perfil de Cirilo Volkmar Machado, nascido em 1748, e termina no dealbar do século XX, com os historiadores que, nascidos nos últimos anos de Oitocentos, produzem as suas investigações e trabalhos ao longo do século seguinte. Progressivamente, serão introduzidos outros protagonistas da historiografia da arte e da arquitetura em Portugal, surgidos nas décadas seguintes.
“Se a história se faz fazendo-se, como não seria assim, também, da historiografia?...”
— José Augusto França em Ler História. N.º 4 (1988) (páginas 128-130)
1748-1900
A seguir à ocupação dos exércitos franceses, e fortemente influenciada pelas opções estilísticas e culturais do período napoleónico nos anos 1807-1815 (bem como de Espanha e do Sul de Itália), a Casa de Bragança retomou o governo de Portugal após o Congresso de Viena (1815). Das convulsões da revolução liberal de 1820 nasceu a Constituição de 1822, substituída em 1834, que ordenou a extinção das ordens religiosas, à semelhança, de resto, do que se passou noutros países europeus.
Com essa extinção, o riquíssimo património artístico das casas conventuais foi em grande parte recolhido no Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos, sediado no antigo Convento de São Francisco, em Lisboa. Já a conservação dos bens imóveis ficou sob a tutela do Ministério do Reino, através da Inspeção Geral de Obras Públicas, estabelecida em março de 1840. Com a criação das Academias de Belas Artes de Lisboa e do Porto, por decreto de Dona Maria I (1734-1816) de 25 de outubro de 1836, coube a estas instituições a salvaguarda dos bens artísticos dos conventos extintos.
Uma linha de continuidade com o passado é assim oferecida pela importação tardia do sistema académico europeu, entre o final do século XVIII e o início do século XIX: um processo que se concentra na criação de várias academias artísticas, mais ou menos formais, sempre sob proteção régia, algumas de vida breve.
Neste panorama e contexto, emergem a figura e a produção de Cirilo Volkmar Machado (1748-1823), pintor, mas também professor de pintura e historiador de arte, seguidor do italiano Vasari na elaboração dos relatos da vida dos artistas. As suas coleções de memórias e conversas sobre artistas e o seu tratado de arquitetura e pintura ligam-no à tradição académica italiana e à Academia Romana de São Lucas, cuja adesão em Portugal é um fenómeno tardio e que emerge cerca de dois séculos após a precursora obra de Giorgio Vasari.
A tradição biográfica é depois retomada pelo conde polaco Athanasius Raczynski (1788-1874), cujo interesse pela arte portuguesa se evidenciou através dos seus inúmeros estudos vertidos na incontornável obra Les arts en Portugal, publicada em 1846, e pela tradução para o francês do célebre tratado de Francisco de Holanda (1517-1584), Da pintura antiga, que teve uma 1.ª edição portuguesa comentada por Joaquim de Vasconcelos (1918). Através de uma série de reflexões endereçadas à Societé Artistique et Scientifique de Berlin (1846), Raczynski estabelece algumas seminais reflexões em torno da pintura portuguesa, em particular de Grão Vasco (1475-1542).
Outros nomes surgem ao longo deste período, portugueses, mas também investigadores estrangeiros, pois a história da arte portuguesa continua igualmente a suscitar interesse além-fronteiras. Pela relevância da sua produção historiográfica, ou pela sua ação em prol do estudo e do ensino da arte em Portugal, são aqui mencionados alguns destes pioneiros.
É o caso de Francisco de Borja Pedro Maria António de Sousa Holstein (1838-1878), o primeiro Marquês de Sousa e Holstein, que foi o autor de diversas notas acerca do estado do ensino das artes em Portugal, como Observações sobre o actual estado do ensino das Artes em Portugal, a organização dos Museus e o serviço dos Monumentos Históricos e da Arqueologia (1875). No papel de Vice Inspetor da Academia Nacional de Belas Artes de Lisboa, a sua ação foi crucial para a criação e aprovação, em 1865, do regulamento da atribuição de bolsas de estudo.
Em 1881, o South Kensington Museum (atual Victoria & Albert Museum) em Londres, apresentou a Special Loan Exhibition of Spanish and Portuguese Ornamental Arts, cuja organização e realização se deveram, em grande parte, ao britânico John Charles Robinson (1824-1913) conservador daquele museu. Esta foi a oportunidade para este estudioso fazer uma primeira síntese sobre a arte portuguesa, depois de ter publicado um artigo na The Fine Arts quarterly review, em 1866, sobre a pintura de Grão Vasco.
Já o arquiteto alemão Albrecht Haupt (1852-1932), professor na universidade de Hannover interessou-se especialmente pela arquitetura portuguesa do Renascimento, tendo realizado várias viagens de estudo em Portugal (1886-1888), desenhando e compilando informações que utilizou na sua tese de doutoramento, e apresentadas na obra Die Baukunst der Renaissance in Portugal (2 volumes, 1890-1895). A tradução deste trabalho A arquitectura do Renascimento em Portugal – com as ilustrações do autor – teve a introdução crítica e revisão do texto do historiador de arte Manuel Cardoso Mendes Atanásio (1827-1922). Albrecht Haupt foi também professor do arquiteto Raul Lino (1879-1974), aquando da sua formação na Alemanha.
Neste período, outro caso exemplar de um historiador estrangeiro que se evidenciou particularmente pelos estudos dedicados à arte portuguesa é o de Myron Malkiel-Jirmounsky (1890-1974). Este autor formalizou algumas das primeiras reflexões em torno da problemática identitária da arte portuguesa dos séculos XV e XVI. Em Problèmes des primitfs portugais (1941), Jirmounsky faz coincidir no mesmo plano questões tão diversas como o período de navegações, a expansão colonial e o florescimento económico, o extraordinário progresso das artes, a criação de uma elite social, e o desenvolvimento de um progresso inteiramente compatível com a ideia de «Renascença».
Nascido na década de 1840, Sousa Viterbo (1845-1910), jornalista, poeta e escritor, dedicou-se sobretudo à criação de repertórios de informação sobre as artes aplicadas, prosseguiu o tipo de investigação e a produção de dicionários e biografias artísticas, de que o mais importante é o Dicionário histórico e documental dos arquitectos, engenheiros e construtores portugueses, publicado pela Imprensa Nacional (1899-1922), com reedições já no século XX.
Joaquim de Vasconcelos (1849-1936) – que José Augusto França (1922-2021) considerou como o verdadeiro fundador da História da Arte em Portugal, enquanto disciplina com objeto e método definidos – veio apelar a uma tão necessária concertação entre a história da arte e um profundo conhecimento das relações internacionais, condição que considerava primordial para o entendimento daquilo que designava por “História das emigrações artísticas para a Península”. De entre os variados escritos que deixou, no domínio da história da arte portuguesa, podem destacar-se os sobre a pintura dos séculos XV e XVI, Grão Vasco e Francisco de Holanda, e sobre a arte românica nacional, ou a coleção, em 20 fascículos, sobre a arte religiosa em Portugal (1914-1915).
Outra das figuras marcantes deste período foi José de Figueiredo (1872-1937). Integrou o conselho consultivo responsável pelo parecer e projeto de lei para o património (1911), e foi diretor do Museu Nacional de Arte Antiga durante 26 anos, onde introduziu profundas mudanças na organização expositiva da coleção e criou uma secção de conservação e restauro. Ao longo da sua carreira, Figueiredo foi autor de um conjunto de textos onde colocou questões e formulações sobre a história da arte em Portugal, construindo um discurso de base historiográfica que contribuiu para o interesse do estudo da arte portuguesa. Entre esses textos destacam-se Portugal na Exposição de Paris (1901), O legado Valmor e a reforma dos serviços de Bellas-Artes (1901), Introdução a um ensino sobre a pintura quinhentista em Portugal (1921) e L’art portugais de l’époque de grandes découvertes au XX.ème siecle (1931).
Médico de formação, Reinaldo dos Santos (1880-1970) dividiu a sua carreira profissional com o estudo e investigação de temas da história da arte portuguesa, interesse reforçado pela relação com José de Figueiredo, com quem realizou viagens por várias cidades europeias, tomando conhecimento de coleções e obras de arte e arquitetura, tendo ambos descoberto em Espanha as designadas “Tapeçarias de Pastrana”, que celebram episódios da conquista das praças marroquinas de Arzila e Tânger pelas forças de Dom Afonso V (1471). Entre as muitas obras que escreveu, contam-se A arquitectura em Portugal (1929), Os primitivos portugueses (1940), A escultura em Portugal (2 volumes, 1949-1950) e Nuno Gonçalves (1955).
O início do percurso profissional de Ernesto Soares (1887-1966) – escrivão de direito em Mafra – não fazia prever o contributo importante que veio a dar à investigação de temas da história da arte portuguesa, nomeadamente, nas áreas da iconografia, da gravura e dos gravadores portugueses, entre os séculos XVIII e XIX. Entre as obras que escreveu destacam-se História da gravura artística em Portugal (2 volumes, 1940-1941), Evolução da gravura de madeira em Portugal, séculos XV a XIX (1951) e Dicionário de iconografia portuguesa, com Henrique de Campos Ferreira Lima (5 volumes, 1940-1960).
Vindo da área do direito, onde se formou na Universidade de Coimbra (1911), Virgílio Correia (1888-1944) doutorou-se em Letras na mesma universidade (1935), onde foi professor de História da Arte e de Estética e de Arqueologia. Ao longo da sua carreira, entre outros cargos, foi diretor do Museu Nacional de Machado de Castro e, como arqueólogo, participou na equipa de escavações que descobriu a cidade romana de Conímbriga. Deixou uma extensa lista de títulos sobre temas da arte em Portugal, como Etnografia artística (1916), Monumentos e esculturas (1919) e Sequeira em Roma (1923).
Escultor de formação artística, Diogo de Macedo (1889-1959) foi também crítico e historiador da arte, com diversos textos – livros, artigos e textos em catálogos – sobre aspetos da história da escultura portuguesa, como Em redor dos presépios portugueses (1940), A escultura portuguesa nos séculos XVII e XVIII (1945) e Machado de Castro (1958), e sobre os pintores oitocentistas presentes na coleção do Museu Nacional de Arte Contemporânea, que dirigiu entre 1944 e 1959.
Ainda desta geração nascida nos anos finais do século XIX devem ser mencionadas João Couto e Luís Reis Santos, cujas investigações e escritos contribuíram indiscutivelmente para a constituição de uma historiografia da arte e da arquitetura em Portugal.
Natural de Coimbra, onde se formou e começou a sua careira no âmbito dos museus, João Couto (1892-1968) está intimamente ligado ao Museu Nacional de Arte Antiga, onde começou como conservador-adjunto (1924) e de que foi diretor (1938-1967). João Couto começou nos anos de 1920 a escrever sobre temas da história da arte portuguesa e é longa a lista dos seus textos, dispersos na imprensa, e de livros sobre pedagogia, ourivesaria, miniatura, pintura, desenho, história da arte e restauro, como Pinturas quinhentistas do Sardoal (1939), A pintura flamenga em Évora no século XVI (1943), As exposições de arte e a museologia (1950) e Artes plásticas (1962).
O último historiador da arte deste período referenciado é Luís Reis Santos (1898-1967) que, não obstante não possuir formação académica específica, se distinguiu como especialista em história da arte portuguesa, com importantes investigações e trabalhos que contribuíram para a consolidação da história da pintura portuguesa e flamenga dos séculos XV e XVI. Autor de vasta bibliografia publicada – livros, catálogos de exposições e artigos para revistas nacionais e estrangeiras, como a Revue belge d’archéologie et d’histoire de l’art e a Burlington magazine – dela se destacam Paineis dos mestres de Ferreirim de igrejas e conventos de Évora (1950), Obras-primas da pintura flamenga dos séculos XV e XVI em Portugal (1953), com prefácio do historiador de arte alemão Max J. Friedländer na versão portuguesa e na tradução inglesa (1962), Painéis de Metsys em Portugal (1958) e Jan Quinten Massys (1964).
A este primeiro conjunto de autores que estiveram na génese da historiografia da arte e da arquitetura em Portugal, seguir-se-ão os que nasceram entre 1901 e 1950, havendo a intenção de continuar esta compilação de modo a integrar neste projeto todos os nomes de autores ativos durante o século XX e primeiras décadas do presente século.