A educação de Mikaël

O único neto de Calouste Gulbenkian

A correspondência familiar existente nos Arquivos Gulbenkian revela-nos o contexto da infância de Mikaël e os sobressaltos que levaram o seu avô, Calouste, a assumir o controlo da educação do rapaz.
25 set 2025 12 min
Dos Arquivos

Calouste Gulbenkian tinha 58 anos quando, a 7 de maio de 1927, nasceu, em Londres, o seu único neto, Mikaël, filho de sua filha Rita e de Kevork Essayan.

Nubar, o seu filho mais velho, residia também em Londres. Tinha então 31 anos e estava separado da sua primeira mulher, Herminia Feijóo. Não tinha descendência e mantinha uma relação com Doré Plowden, uma artista de music-hall que viria a ser a sua segunda mulher e de quem se viria também a divorciar. A relação de Calouste com o filho estava longe de ser pacífica. Nevarte, a mulher de Calouste, repartia a sua vida entre Londres e Paris.

Mikaël passou os seus 3 primeiros anos de vida em Londres na residência da família em Hyde Park Gardens. Calouste, que, entretanto, comprara e recuperara o 51 da Avenue d’Iéna e a quem interessava a colaboração do genro, persuadira a jovem família a reunir-se a ele em Paris, o que sucede em 1930. O neto de Calouste acompanha os pais, que se estabelecem na Rue Émile Menier.

Ao contrário de Kevork, trabalhador diligente, a adaptação de Rita à capital francesa não foi tranquila. O estilo de vida agitado e mundano que apreciava foi-se tornando cada vez mais boémio, repercutindo-se no ambiente familiar.

A infância de Mikaël, amiúde atravessada pela ausência da mãe, causou a todos os familiares fortes inquietações.  A situação agrava-se quando Rita conhece um miniaturista russo emigrado, Paul Mak – a quem Calouste terá comprado uma miniatura em 1932 –, que se converterá numa companhia, aos olhos de Nevarte, inconvenientemente assídua. Preservar a estabilidade do neto e eximi-lo à instabilidade de Rita tornam-se, para a avó de Mikaël, uma prioridade.

Miss Rae, a nanny do pequeno, assume então um papel importante ao acompanhá-lo, por largas temporadas, durante as estadias em hotéis ou casas de famílias conhecidas. Calouste, que obteria sem dúvida informações sobre o neto através de Nevarte, recebia-as também através de Miss Rae, que lhe escrevia dando conta do quotidiano do rapaz, dos seus progressos e das despesas efetuadas.

É graças a esta correspondência que sabemos que, antes mesmo de completar 7 anos, Calouste fez chegar a seu neto, no Hotel Savoy, em Fontainebleau, um livro sobre Napoleão e que Mikaël escreveu ao avô, em grandes letras infantis, uma pequena carta onde percebemos que terá também recebido uma fotografia de um iate, talvez aquele em que Gulbenkian viajara para o Egito, no início de 1934.

Nevarte partilha com Nubar a sua preocupação sobre as atitudes de Rita, cuja amizade com Mak perduraria ainda em 1937, repudiando as consequências nefastas que provocavam no ambiente em que ia crescendo o seu neto.

As evidências de instabilidade conjugal que se adensavam na Rue Émile Menier, faziam temer a iminência de um divórcio entre Rita e Kevork – que afinal acabou por nunca se verificar – e deram à avó materna o pretexto para retirar Mikaël da escola, e da alçada de Rita, e trazê-lo para a sua residência na Avenue d’Iéna.

Para tentar restabelecer a relação com a filha e controlar a situação, Calouste chegou a alugar-lhe um apartamento no 63 da Rue Lauriston e a atribuir-lhe uma mesada reforçada sob determinadas condições.

O contacto do pequeno Mikaël com a mãe resumia-se a uma carta que os avós o autorizavam a escrever uma vez por semana. Mas enquanto a influência de Paul Mak persistiu, mãe e filho permaneceram afastados. Calouste moveu todas as suas influências para tentar conseguir a expulsão do indesejado amigo de Rita e esta, por seu turno, empenhou-se em mover as suas, mas em sentido contrário. A situação apazigua-se quando Mak acaba por se estabelecer em Bruxelas.

Entretanto, também Rita ia mantendo correspondência com o seu irmão Nubar. Aborda a questão da educação do seu filho e defende a opção por um colégio inglês – claramente preferida a uma educação em França – tendo em conta os benefícios que daí decorreriam, caso Mikaël viesse a trabalhar em Inglaterra.

Nubar parece atuar como charneira entre a mãe e a irmã sem o conhecimento daquela. A perspetiva do pequeno prosseguir os estudos em Inglaterra prefigura-se como uma solução consensual, ao mesmo tempo que permitia mantê-lo ao abrigo da instabilidade familiar.

A pedido de Nevarte, Nubar visita Orley Farm School, uma escola preparatória inglesa para alunos que pretendiam vir a frequentar Harrow School. As apreciações colhidas, e transmitidas por Nubar, confirmaram ser esta a melhor opção e reunir o consenso de todos.

Em setembro de 1937, Nevarte incumbe Miss Rae de acompanhar Mikaël à nova escola, preferindo a sua companhia à do seu pai ou tio, por acreditar ser mais reconfortante uma presença maternal que, então, Rita não podia providenciar.

É arrendado um quarto em Harrow-on-the-Hill de modo a que Miss Rae pudesse estar perto do seu pupilo e proporcionar-lhe um lugar de acolhimento, fora do colégio, aos domingos. Ocasionalmente Mikaël era visitado por Kevork, seu pai, e pelo seu tio.

No final de 1938, a relação entre Rita e Kevork parece pacificar-se. Ambos passam o Natal com Nubar, em Londres, mas Mikaël está ainda fora da alçada da mãe e a sua educação confiada ao colégio de Orley Farm. Revelou-se então um ótimo aluno e aí permaneceu até ao ano seguinte, antes da sua partida para Harrow.

O ano de 1939, porém, traz novas preocupações. Nubar, ressentido pela falta de autonomia financeira e após vários atritos com o pai, entra em rota de colisão com este, levantando-lhe um processo nos tribunais londrinos. A relação e a confiança entre os dois ficam gravemente comprometidas, o que provavelmente contribuiu para que a atenção de Calouste se concentrasse empenhadamente na educação do seu único neto.

Um novo contratempo, ainda maior, surge em setembro desse ano, quando o Reino Unido declara guerra à Alemanha e se envolve no conflito mundial.

A família Gulbenkian é atingida fortemente pelos estilhaços da guerra e fica dispersa entre Londres, Paris, Vichy e depois Lisboa. Rita e Kevork mantiveram-se em Paris, garantindo a proteção dos interesses familiares. Nubar permaneceu em Londres e Mikaël em Harrow School, onde, entretanto, havia ingressado.

Calouste, na qualidade de membro da delegação diplomática persa, vira-se obrigado a acompanhar o governo francês viajando para Vichy, acompanhado por Nevarte. Só quando a Pérsia cessa relações diplomáticas com a França é que os diplomatas iranianos abandonam Vichy. Calouste desloca-se então para Lisboa, aonde chega em abril de 1942, instalando-se no Hotel Aviz.

Mikaël, que estivera praticamente entregue às emotivas decisões da avó materna, à companhia de Miss Rae, aos palpites e a algumas visitas do tio Nubar, viu-se, durante a guerra, praticamente isolado da família e entregue à responsabilidade de Harrow School. O familiar mais próximo era o tio, cuja influência, mercê do seu temperamento excêntrico e conflituoso, era, a todos os títulos, indesejada por Calouste. À distância, porém, todos procuravam interferir, desarticuladamente, opinando sobre a sua conduta, estudos e ocupações de tempos livres.

Será a partir de Lisboa que Calouste, observador e atento, giza a estratégia para acompanhar o crescimento e educação do seu neto. Passa a escrever-lhe frequentemente e exige-lhe informações também com regularidade. Nas suas cartas, Calouste revela-se atencioso, afetivo e desenvolve longamente temas que considera fundamentais à formação da sua personalidade e do seu carácter.

Para que não restassem dúvidas comunica a todos os que interagem com Mikaël, após reunião do conselho familiar, a decisão de manter sob a sua exclusiva responsabilidade a educação do rapaz.

A teia de comando estabelecida por Gulbenkian é blindada. Tem como primeiro interlocutor, naturalmente, Mikaël, com quem, entretanto, já assegurara um canal fluido de correspondência, não obstante os constrangimentos das comunicações em tempo de guerra.

Na apertada malha de controlo, para além do próprio Calouste, vários personagens acompanham o pequeno e são eles próprios controlados por outros. Todos reportam a Calouste, que assim verifica as informações recebidas pelos vários intervenientes, de modo a obter diferentes leituras para as mesmas situações ou apreciações. É com base nestes relatos que dirige e afina as suas orientações ao neto, que, não raras vezes, pontua com observações sobre os comportamentos e atitudes que considerava desviantes na formação do seu carácter.

A pessoa fisicamente mais próxima de Mikaël era Miss Mends, antiga funcionária dos escritórios de Londres e eficiente ex-governanta da casa de Nubar em Londres, que substituíra, entretanto, Miss Rae no posto de acompanhante de Mikaël.

A Miss Mends competia zelar pelo rapaz. Era  orientada, desde logo, por Calouste, a quem reportava regularmente; por Mr. Drysdale, contabilista dos escritórios de Calouste, em Londres, a quem entregava detalhados relatórios das despesas tidas com Mikaël e relatava episódios da vida de ambos em Harrow; por Mr. Hacobian, responsável daqueles escritórios e representante de Calouste em Londres; por Nubar – não obstante o seu posterior afastamento da educação do sobrinho – e por Nevarte e Kevork, com os quais se correspondia de vez em quando. Miss Mends deveria ainda manter contacto com o diretor de residência de Mikaël, em Harrow School, Mr. Bowlby.

Mr. Hacobian reportava igualmente a Calouste e era um homem da sua total confiança, tanto nos assuntos de negócios como no plano familiar. Geria os comportamentos e os exageros de Nubar, mediando a relação entre pai e filho, e intervinha nas situações em que era requerida mais autoridade junto de Miss Mends, de Mikaël e também junto de Harrow School. Em todo o conjunto desta correspondência é a única pessoa a quem Calouste pede conselho, em função dos quais até ajusta, voluntariamente, as suas ações.

R. W. Moore, reitor do colégio de Harrow, é provavelmente o único a quem Calouste se vê obrigado a vergar a sua vontade, principalmente no que diz respeito às interferências nas escolhas literárias de Mikaël. É também o único que ousa refrear o tom das exigentes cartas de Calouste ao neto, afirmando que o rapaz necessitava de mais estímulos e menos correções.

Rita entra em cena apenas em 1944, quando a aproximação do final da guerra lhe permite viajar para Inglaterra e reunir-se ao filho. Assume, finalmente, um papel relevante na sua educação e na mediação entre as opções deste e os avós.

Tanto quanto possível, Calouste cede-lhe o lugar no que respeita à educação de Mikaël. Aprecia verdadeiramente as cartas que ela lhe faz chegar, onde detalhadamente lhe dá conta das “suas impressões maternais”. Chega mesmo a confessar a Mikaël: “Os conselhos da sua mãe ser-lhe-ão preciosos“ e refere-lhe a comunhão de opiniões, com a sua mãe, no que respeita à orientação dos seus estudos.

Em 1945 Calouste escreve a Mikaël “gostaria muito que [a sua mãe] prolongasse a sua estadia [em Londres] a fim de estar perto de si no início desta sua nova vida”. Apesar de devolver a Rita o controlo da educação de Mikaël, mesmo depois da guerra, Calouste nunca deixou de se corresponder com o seu neto, nem de se preocupar com as suas escolhas curriculares e com o seu futuro.

Em 1948, Mikaël, já com 21 anos, entra na Universidade, em Oxford. O avô escreve-lhe ainda e assinala essa nova etapa da sua vida. Reconhece-lhe a emancipação, mas não resiste a afirmar o tanto que ainda tem para lhe dizer. Sublinha, uma vez mais, o quanto gostaria de lhe inculcar os seus princípios, aqueles que herdara do seu pai, a quem deve – afirma – “ser aquilo que é”. Prossegue a carta recomendando-lhe uma vida de trabalho, sóbria, independente e digna, que contrapõe à futilidade e ao vazio.

Mikaël tornou-se advogado, com a concordância do avô que, porém, sempre lamentou a ausência de uma componente científica na sua formação.

A correspondência entre os dois manteve-se sem interrupção. De longe, Calouste seguiu-o sempre. Nunca deixou de o aconselhar, de lhe apontar caminhos, de lhe transmitir os seus valores. As cartas por ambos trocadas, e publicadas na obra A educação do Delfim. Cartas de Calouste Gulbenkian a seu Neto, replicam e perpetuam esse legado.

Série

Dos Arquivos

Momentos relevantes na história de Calouste Gulbenkian e da Fundação Gulbenkian em Portugal e no resto do mundo.
Saber mais

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.