Bolseiros Gulbenkian rumam ao futuro numa viagem em U

A geração mais digital e informada de sempre, mas também a mais hiperprotegida e ansiosa, é o elemento central desta iniciativa da Fundação Gulbenkian. Num mundo em crise é preciso dotar os jovens, – os futuros líderes –, de ferramentas que esvaziem o balão da pressão, estimulem o pensamento crítico e incentivem práticas sustentáveis.
21 abr 2026 11 min

Chegam de várias regiões e universidades do país. Estudam em áreas distintas mas têm um objetivo comum: aprender a liderar. Do percurso de vida – ainda curto – destes 40 bolseiros Gulbenkian de Mérito e Novos Talentos fazem parte sucessos e conquistas, mas também inseguranças e angústias. Estão aqui porque querem “sair da bolha” e rumar ao futuro, ao momento em que a sociedade os chamará a intervir. Partindo de um U, os formadores Vasco e Susana vão guiá-los.

Os estudos estão “ok” mas Beatriz, 22 anos, dá voz a uma preocupação partilhada por este grupo heterogéneo de jovens. “Não tivemos uma infância a 100%, com tanta informação numa era digital, a inocência acabou por desaparecer um pouco e preocupa-me termos de lidar com um futuro incerto, em decadência. (…) Sou muito racional, por isso vim à descoberta, em busca de encontrar em mim, e no outro, aquilo que não consigo encontrar sozinha”.

“Rumo a uma Liderança Integral” dá nome a esta iniciativa e o mote é “semear a vertente da liderança em rede”. “Tudo o que produzimos e geramos tem a ver com quem somos,” mas é importante não esquecer que “não estamos sozinhos no mundo”. A frase é dos formadores Vasco Gaspar e Susana Carvalho, facilitadores oficiais do Presencing Institute, que nesta viagem de dois dias vão dar a estes jovens ferramentas úteis para “poderem controlar a epidemia de ansiedade que os está a paralisar, terem mais controlo sobre as suas vidas e uma ideia de futuro”.  

“O foco deve ser no interior, no quem, porque fazem o que fazem, nos valores humanistas que a Gulbenkian promove, em contribuir para uma sociedade melhor, e como criar condições para que estes jovens se liguem a valores que já estão lá dentro.”

— Vasco

E para que passem a ser um todo, são convidados a circular pela sala e a olharem uns para os outros. Há muitos sorrisos tímidos e outros tantos atropelos inesperados. Ajuda a “quebrar o gelo” e a, quem sabe, fazer uma nova amizade. Segue-se outro desafio: uma curta conversa a dois, que terminará com uma característica pessoal do outro escrita numa etiqueta e colada nas costas do parceiro. Esta foi a dinâmica de que Mara, 23 anos, mais gostou. Derrubou a barreira da timidez inicial e mostrou que é mais simples do que parece “escrever algo sobre alguém”.

“Rumo a uma Liderança Integral”, na Fundação Gulbenkian © Francisco Gomes

Sincronizado o grupo, este é agora “o mundo que importa”. O ponto de partida desta viagem é um vídeo com uma mensagem impactante de uma jovem argentina. Chama-se Violeta Lacroze e num testemunho com a voz embargada, recuperado de uma conferência em Estocolmo, conta como conseguiu em plena pandemia de Covid-19 afastar-se da “anestesia provocada pelo ruído digital” e da pressão dos algoritmos, e reconectar-se com pessoas reais, e como isso a ajudou a encontrar-se e a dar um sentido à vida.

Ninguém ficou indiferente à história. Era esse o objetivo. Mostrar-lhes que não estão sozinhos, que muitos outros jovens têm as mesmas inquietações. 

Uma viagem sem pré-conceitos  

Já com o grupo mais relaxado e participativo, é lançada a âncora: a Teoria U. Pelo caminho, e “sem pré-conceitos”, farão três paragens que podem, de alguma forma, traduzir-se no passado, presente e futuro. Vasco explica como, a seu tempo, cada uma delas será importante. A ideia é que quando forem uma “comunidade unida pelo sentimento de pertença”, juntos partam em busca de respostas aos desafios do presente e que, em conjunto, projetem caminhos futuros para uma sociedade “mais empática e sustentável”. 

“Rumo a uma Liderança Integral”, na Fundação Gulbenkian © Francisco Gomes

O espaço será uma sala com vista privilegiada para o jardim da Gulbenkian. As cadeiras estão dispostas (precisamente) em U para que todos se vejam. Aqui estarão sempre à vontade para “libertar a mente das preocupações”, do stress do mundo lá fora e focarem-se no “Eu, sem julgamentos”. Podem descalçar-se, ficar sentados nas cadeiras ou no chão. O que importa é que cada um esteja “onde se sente confortável”. O Vasco pede que formem grupos de três e que, à vez, se ouçam num exercício de mindfulness.

“Para ser um verdadeiro líder é preciso saber ouvir, ver pelos olhos dos outros, emergir no mundo dos outros. (...) Não estamos sozinhos no mundo.”

— Susana

Com os olhos fechados ou não, ao som do compositor islandês, Ólafur Arnalds, (que voltará a fazer-se ouvir ao longo destes dias) os bolseiros são convidados a trazer mentalmente para a sala “pessoas importantes nas suas vidas”. A música “Lag Fyrir Ömmu”- um tributo à avó do músico – transporta uma carga que para alguns é pesada e triste. Eram também essas emoções menos boas que o Vasco e a Susana queriam ir buscar. É importante que aprendam “a usá-las de forma sábia”. Como? Recorrendo às “poderosas pilhas de resiliência”, a chave para abrir portas às “capacidades mais importantes” de cada um. É o que fazem num passeio – pelo jardim da Gulbenkian – com uma companhia à escolha. Continuam a ser desconhecidos mas já são capazes de partilhar momentos de superação.

“Num mundo tão impessoal, não nos aprofundamos nas histórias, e ao conhecer as pessoas percebemos que temos muitas coisas em comum. Estou grata à Gulbenkian por esta oportunidade de nos ajudar a conhecer pessoas que nos enriquecem.”

— Mariana

Ao almoço, alguns já têm lugar marcado junto a companheiros de jornada, outros ainda se sentam aleatoriamente, mas estão mais disponíveis para dois dedos de conversa. O refeitório, no 3.º piso da Gulbenkian, vai ficando a cada refeição mais barulhento e, à mesa, por opção dos próprios, nunca há telemóveis.

Com o estômago composto, vamos falar com o corpo. A expressão causa estranheza, mas o Vasco e a Susana exemplificam o que se pretende e deixam à vontade “quem não se sentir disposto a fazê-lo”. A ideia é “respeitar o espaço do outro” e “comunicar por gestos,” mas – e esta é a parte peculiar – a “olhar para o chão”, de olhos postos na alcatifa amarela da sala. “Todas as emoções são bem-vindas” e “não há formas erradas”. 

“Rumo a uma Liderança Integral”, na Fundação Gulbenkian © Francisco Gomes

Depois da mente e corpo relaxados, pela primeira e única vez nesta viagem, o grupo vai dividir-se e “entrar num mundo novo”. Só há dois caminhos: o do diálogo (um World Café) ou o corpo social (designado pelo curioso termo Stuck). São mais os bolseiros que optam pelo primeiro e ficam com a Susana. Doze jovens aceitam o desafio do Vasco e saem desta sala rumo “ao laboratório onde forças internas e externas” os vão libertar. Noutra sala, sem janelas para o exterior, vão aprender a usar o corpo como uma escultura que transmite emoções. Divididos em três grupos, todos os membros devem compor a escultura. Se no início da atividade a distância dominava, no final, o toque tornou-se natural. 

A geração que se sente “encurralada” e “perdida” 

O dia está a caminho do fim, mas antes um mapa revelará o muito que, aqui chegados, ainda há por descobrir sobre os sonhos e ambições desta geração. “É uma ferramenta que vos ajuda a verem como veem o que se passa nas vossas vidas”, diz o Vasco, mostrando alguns exemplos. São estranhos, mas, no fim, tudo fará sentido. 

“Rumo a uma Liderança Integral”, na Fundação Gulbenkian © Francisco Gomes

A ideia é que coloquem os objetos que quiserem sobre uma cartolina A4 preta com um círculo desenhado no meio, o “mundo atual”. Cada objeto representa algo ou algum momento. O primeiro, e o mais importante, a ser colocado – “em qualquer lugar, dentro ou fora do círculo” -, representa a geração. Depois, cada elemento do grupo vai acrescentando outros objetos e assim vão representando “as forças, tensões, bloqueios e relações” do mundo de todos e de cada um.

É interessante perceber como a mesma geração é representada por objetos tão diferentes. Um laço vermelho que se “sente encurralado”; um feijão que expressa “a semente do futuro”, uma espécie de diamante que “representa o nosso valor”, uma estrela “perdida” e, por isso, intencionalmente colocada no meio do círculo, e uma cartolina com purpurinas douradas, o único objeto que ficou de fora do círculo porque “ainda não entrámos a sério no mundo”.

“Gostava que nos dessem mais graciosidade porque é a nossa primeira vez a viver e estamos a fazê-lo num mundo, que se para as pessoas que estão aqui há mais tempo está a ser difícil de acompanhar, imagine-se para nós.”

— Mara

O desafio seguinte é reconstruí-lo pensando no futuro, com “alavancas de potencial”, o que gostariam de mudar ou melhorar. Objetos saem e outros entram para projetar um futuro melhor: com “consciência social” e “confiança”, a “tecnologia como força do bem” e “mudando a perspetiva dos mais velhos”.

“Rumo a uma Liderança Integral”, na Fundação Gulbenkian © Francisco Gomes

O grupo não parece (mesmo) o mesmo. Está muito mais coeso e interligado. Quem chega está acompanhado e não sobram lugares vagos a separar bolseiros. O tempo lá fora está mais soalheiro, o vento continua forte. E aqui, na sala, “como estamos”? Vasco quer começar por aí, pela “meteorologia da mente”, e, “com tranquilidade, retomar a ação”.

Para que o microfone não funcione como inibidor, Susana decide trocá-lo por um pequeno “pau falante”. Quer que partilhem as “intenções mais profundas”, que “ouçam o coração”, acrescenta Vasco, porque “o verdadeiro líder é alguém que segue o coração”. Se no início desta iniciativa da Gulbenkian, os jovens bolseiros diziam estar em busca de “conhecimento”, “novas aprendizagens”, de controlar “inseguranças”, agora, na reta final desta jornada, falam em “gratidão”, “confiança”, “novas conexões” e em “não ter medo de falhar”. Estamos oficialmente a meio do U, onde “o líder é capaz de sentir o que está a emergir”, e vamos partir.

“Rumo a uma Liderança Integral”, na Fundação Gulbenkian © Francisco Gomes

Usando o corpo, sentados, de pé, onde e como quiserem, o desafio é viajarem até ao futuro e, através do “Eu do Presente”, darem um “conselho ao Eu do Futuro”. A partilha volta a ganhar espaço e o que se ouve confirma conquistas: “experimentar”, “há pessoas que acreditam em mim”, “incertezas são espaços para crescer” e “bloqueios portas que se abrem”, “há mais possibilidades do que os meus olhos veem” e “vários futuros”.

Um vídeo com um título sugestivo – “Constrói uma vida, não um currículo” – dá por concluída a viagem. Nele são partilhadas histórias de pessoas brilhantes, como estes 40 bolseiros Gulbenkian, que em algum momento ouviram um “não” e como esse “não” os levou a seguirem as suas convicções e a “arriscar”. Esta é, precisamente, a mensagem que a Susana e o Vasco quiseram transmitir a esta geração, “tornando-a resiliente e capaz de mudar o jogo”. Até porque o futuro está já aí!

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