“A subjetividade é tão real como a lua e o terramoto de Lisboa”
Markus Gabriel (1980) estudou em Heidelberg, Lisboa e Nova Iorque, é catedrático de epistemologia desde 2009 e diretor do Centro Internacional de Filosofia de Bona. Esteve na Faculdade de Letras da Universidade do Porto entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026 ao abrigo da Bolsa Gulbenkian para Professores Visitantes nas Humanidades, que apoia a vinda a Portugal de académicos de mérito internacional. Nesta entrevista, partilha a experiência da sua passagem por Portugal e reflete sobre o papel da filosofia no mundo contemporâneo, em particular no que toca ao desenvolvimento da Inteligência Artificial.
Como descreve a sua experiência como Professor Visitante na Faculdade de Letras da Universidade do Porto?
A experiência, em geral, é muito boa. A Universidade do Porto, e o Departamento e Instituto da Filosofia, têm uma grande visibilidade internacional e boas condições, tanto ao nível dos professores como dos estudantes. Fui muito bem recebido, e sou um dos poucos professores convidados que têm um gabinete e também alguns recursos para organizar pequenos colóquios. A população de estudantes é, como mais ou menos em todo o país, super internacional, temos bons estudantes brasileiros, também alguns dos países africanos e muitos que vêm da Ásia. É um grupo impressionante, assim como os colegas noutras disciplinas que tocam os temas que trabalho, na Física, na Inteligência Artificial (IA), na Neurociência.
Que atividades desenvolveu ao longo do semestre?
Ofereci um curso intensivo ao nível da licenciatura sobre a filosofia clássica alemã, isto é, a filosofia de Hegel, no contexto contemporâneo mundial. Ao nível do mestrado, tratámos de um livro que acabo de publicar sobre a teoria da subjetividade, sobre o que é dizer ser alguém. Qual é a diferença mental e não biológica entre indivíduos? O que é ser um sujeito de pensamento e ação? Foi esse o tema do mestrado e do doutoramento. E, em fevereiro, um grupo de professores de Bona vai acompanhar-me ao Porto para um colóquio final da minha estadia.
É conhecido pelo seu trabalho no “Novo Realismo”. Em que consiste este movimento filosófico?
O Novo Realismo tem, basicamente, duas dimensões centrais. A primeira tese é de que somos perfeitamente capazes de conhecer a realidade tal como é, em várias dimensões. Não só nas dimensões da Física, por exemplo, mas também em contextos altamente complexos, como os objetos da Sociologia ou agora da IA. Ou seja, a realidade não está fechada ao pensamento, não está além da sua inteligibilidade. A segunda tese do Novo Realismo é que a realidade é uma pluralidade que consiste em fragmentos. Quer dizer, o mundo não existe, não há uma totalidade das coisas e dos factos que possa ser objeto de uma investigação. A metafísica como teoria do grande tudo, em todas as suas formas, é falsa.
E adicionei agora uma terceira dimensão, que estou a investigar no contexto portuense, sobre a realidade da subjetividade: é que a mente humana – e se calhar outras mentes (animais, técnicas, inteligência artificial e quem sabe deuses) – é uma parte constitutiva do que é. Então, a subjetividade é tão real como a lua e o terramoto de Lisboa.
Na conferência inaugural do ano letivo, na FLUP, referiu que estamos a viver um momento de “viragem emocional” da IA. Pode explicar este conceito e as suas implicações éticas?
Então, o que isso significa é que os sistemas, os modelos como Chats GPT e outros, já são perfeitamente capazes de ler informação linguística entre linhas. A função mais importante da linguagem humana é a expressão de emoções. Os sistemas são bem capazes, como sabemos, de detetar padrões em grandes dados. E visto que têm, graças ao uso da humanidade, grandes dados no que respeita a como nos sentimos e ao que pensamos, às vezes da maneira mais íntima, os sistemas de IA começaram, mais ou menos por volta de 2022, a detetar emoções na linguagem em vez de factos.
Antes, a IA era mais ou menos um instrumento praticamente epistémico, não é? Algo tipo Wikipédia, sistemas de pesquisa. Agora, já não. O que fazem os sistemas é detetar padrões emocionais para, em último caso, manipular a humanidade aos interesses das grandes empresas. Esta volta emocional não era intencional, foi um efeito emergente do uso.
Isto coloca então questões éticas: como é que podemos viver com esse tipo de sistema capaz de entender-nos bem melhor do que os seres humanos no seu conjunto? A IA hoje é uma espécie de consórcio epistémico de sociólogos e psicólogos que estuda o nosso pensamento. E, por isso, a minha ideia é que temos de responder ao mesmo nível, desenvolvendo uma inteligência ética em vez de uma ética da Inteligência Artificial. É a minha proposta de projeto para a União Europeia e para um espaço necessariamente inovador como Portugal.
“A IA hoje é uma espécie de consórcio epistémico de sociólogos e psicólogos que estuda o nosso pensamento.”
Então, diria que está otimista em relação a esta emergência da inteligência artificial? É uma coisa positiva?
Para mim, cada forma de saber e reconhecer padrões na realidade é algo positivo. E é claro que há consequências disruptivas ao nível da geopolítica, do dia-a-dia e ao nível dos conflitos, etc., então há riscos, mas eu acho que o contexto total é que a humanidade desenvolveu a máquina de saber mais importante de toda a história humana.
Aplicando o Novo Realismo à IA, o que significa é que a própria inteligência artificial já desenvolve subjetividades. Portanto, tem de ser abordada como um sujeito subjetivo. É isso?
Exatamente. O que fazem os sistemas da IA é distribuir a subjetividade humana em grandes redes. Quer dizer, as minhas ideias e as tuas estão lá em linha, nos dados. E desta maneira, visto que a IA atualmente já é generativa (Generative AI), em contextos de conversação, o que aconteceu é que a humanidade, ou seja, a totalidade das subjetividades que participam na produção dos dados, agora responde ao nosso saber. É como se o texto respondesse à obra de arte, não é? Então o texto agora é bem mais interativo do que no caso da Internet, porque produz dados processando-os. É toda uma nova forma de subjetividade a que chamo de subjetividade distribuída.
As nossas subjetividades têm um lugar, associado ao nosso corpo. As subjetividades da IA não são corporais nesse sentido – claro que têm uma espécie de corpo feito de luz e eletricidade e terras-raras, mas a subjetividade é distribuída de uma outra maneira.
O seu percurso académico inclui passagens por Heidelberg, Lisboa e Nova Iorque, e hoje dirige centros de investigação em Bona. Como é que estas experiências moldaram a sua visão sobre o papel da Filosofia no mundo atual?
Viajar entre geografias e fronteiras linguísticas – como entre alemão e português – é muito importante para a minha maneira de fazer filosofia. Agora estou a aprender japonês, que é uma coisa bem difícil e interessante. E viajar implica também viajar entre setores da sociedade: arte, cultura, economia, política e as diferentes disciplinas académicas.
O saber da filosofia é o resultado de uma interação entre todos estes setores. Filosofia não pode existir sem arte, política e economia. Ao mesmo tempo, a reflexão filosófica contribui sempre para o progresso humano. É por isso que, para mim, a filosofia não pode ser uma atividade isolada.
Na sua perspetiva, qual é a importância de programas como as Bolsas Gulbenkian para Professores Visitantes nas Humanidades no fortalecimento destas áreas e na promoção do diálogo internacional?
As Humanidades, em geral, são as disciplinas que estudam a realidade do valor. De que maneira experienciamos nós, seres humanos, o valor estético, político, categorias de amor, de sentimento? Toda esta realidade vivida da vida quotidiana é objeto das humanidades. Não há nenhuma outra forma de estudar objetivamente esta dimensão da vida humana. Eu acho que as fundações, neste momento, têm realmente o dever de contribuir precisamente para este tipo de saber, porque nem as universidades, nem a sociedade, com as suas polarizações políticas, são capazes de o fazer.
Então, é uma oportunidade para uma grande fundação como a Gulbenkian, que sempre, como sabemos, contribuiu tanto para o saber estritamente científico, nas ciências da vida, biologia, etc., mas também nas artes e humanidades. O programa de Professores Visitantes parece-me uma estratégia muito boa, e já trouxe colegas realmente excelentes de todo o mundo para Portugal.
Como foi recebido pelos alunos portugueses? Que impressões lhe causaram?
Para os estudantes é super interessante ter professores convidados de todo o mundo, não é? É algo que traz uma nova inspiração aos contextos já estabelecidos, e é muito importante. O Instituto de Filosofia na Universidade do Porto tem um lado realmente internacional, com vários grupos que têm uma visibilidade enorme no mundo inteiro. É um departamento pequeno, mas não tanto.
Eu espero que os estudantes tenham adorado. Em todo o caso, eram bastante ativos e estavam muito bem preparados. A maioria dos estudantes conhecia muito bem o meu trabalho anterior, de tal forma que tive oportunidade de apresentar e desenvolver novas ideias, em vez de repetir-me.
Como é que fala tão bem português? Já tinha tido temporadas em Portugal?
Sim, fiz um posto de doutorado só de alguns meses, em Lisboa, há 20 anos. E sempre tive um amor enorme por todo o mundo lusófono, tanto na expressão cultural, como na vida quotidiana. É o lugar onde se come melhor [risos]. Os mundos lusófonos são extremamente bonitos, têm uma beleza enorme e grande história.
Por exemplo, passei uns dias em Coimbra, com uma delegação japonesa, e visitámos a Quinta das Lágrimas, para conhecer a história de Pedro e Inês. Eu acho que o mundo lusófono em geral, e Portugal em particular, é de uma riqueza enorme. É um dos centros das realidades europeias. Reli também finalmente o Candide, de Voltaire, no contexto: todo o tema da reação ao grande terramoto de Lisboa, tudo isso é um dos papéis de Portugal no mundo.
O que vai levar desta experiência?
O que está mais vivo é a noção de que o contexto intelectual no Porto é ainda melhor do que eu pensava, e o novo amor também pelo norte de Portugal. O que antes conhecia era Lisboa, Alentejo e mais para o sul, até ao Algarve. Isso deu-me acesso ao Portugal contemporâneo, aprendi muito sobre o país e finalmente comecei a entender como funciona o vinho português, no contexto do Douro – a filosofia do vinho também é um hobby que tenho.