Agora, a cultura pára em Mem Martins

Nove meses depois de abrir portas, o Ponto Kultural tornou-se um espaço de criação e proximidade na Linha de Sintra, onde artistas e comunidade se encontram para mudar o olhar sobre o território, com o apoio da Fundação Gulbenkian.
30 jan 2026 9 min

Estamos em Algueirão‑Mem Martins, no fim de uma tarde tempestuosa de janeiro, a poucas horas da apresentação pública de “Entre Fios e Memórias”, o projeto têxtil de Catarina Teixeira, vencedora da segunda bolsa de criação artística do Ponto Kultural. Somos recebidos com descontração pelos membros da equipa – estão presentes seis dos oito elementos do coletivo –, e sentamo-nos em roda para conversar sobre o balanço de nove meses de projeto. “É um bebé gordinho e saudável”, brinca Diogo “gazella” Carvalho, artista multidisciplinar e curador do espaço. “Somos muitas cabeças e todos têm vontade de fazer coisas boas e melhores”.

O Ponto Kultural inaugurou ao público em maio de 2025, mas a sua história não começou o ano passado: remonta antes a 2018, com o coletivo Unidigrazz, que durante oito anos trabalhou sem recursos, sem espaço e sem reconhecimento institucional. “O coletivo sempre sentiu esta necessidade de que o trabalho artístico, para ser valorizado, precisava de uma estrutura”, explica Rodrigo Faria, gestor do projeto.  Desde 2021, tinham “na gaveta” a ideia de fazer um “Hub Criativo”.

Quatro anos depois, com o apoio da Gulbenkian, da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal de Sintra, “voltámos a pegar nessa ideia e iniciámos este Ponto Kultural, que é uma casa de criação, de investigação e de experimentação artística, aqui em Algueirão-Mem Martins, mas que serve toda a linha de Sintra, todo o município e aqueles que nos são vizinhos”. 

A equipa (incompleta) do Ponto Kultural. Da esquerda para a direita: Rita Campiã, Rodrigo Faria, Hugo Barros, João Tristany, Nuno Trigueiros e Diogo "gazella" Carvalho © Ricardo Lopes

O território como matéria-prima

Rodrigo Faria sublinha que o Ponto Kultural veio dar resposta a uma necessidade que não é só do coletivo, “mas de todos os artistas, todos os coletivos e todo o território; um desafio a que sentimos que o município ou as instituições que já existiam não estavam a responder”.

A programação do espaço inclui um programa trimestral de bolsas e residências, pensado para dar tempo, acompanhamento e contexto aos artistas. “As bolsas são um apoio financeiro e de mentoria para candidaturas individuais; as residências têm de ser coletivas”, explica Nuno Trigueiros, artista e curador. “Todas têm de ter uma ligação ao território e à comunidade.”

Carolina Maya, a primeira artista selecionada para o programa de bolsas, descreve o processo como uma oportunidade de crescimento e exploração. “Foi o primeiro trabalho que fiz fora da faculdade. Aqui pude experimentar à vontade, com outras escalas e materiais, como artista emergente e não artista-estudante”.  

Natural de Moçambique e a morar em Queluz, Carolina não conhecia bem Mem Martins. “Tive imenso tempo onde só passeava e falava com as pessoas”, conta. “A Academia, pelo menos em Belas Artes, ainda é muito branca, e o meu trabalho é muito sobre a minha negritude, sobre a diáspora. Estar aqui e receber feedback do público ajudou‑me imenso: tinha pessoas negras e da diáspora que me aconselhavam de uma maneira que fazia sentido para mim.”

Também Catarina Teixeira partiu do território, mas de um lugar de familiaridade. “Disseram‑me para ir andar por Mem Martins. Eu pensei: ‘mas eu cresci aqui, vivo aqui, eu conheço isto’. Afinal, não”, diz. “Comecei a reparar em pequenas coisas, em sítios por onde passo todos os dias, mas com outros olhos.”

Desses fragmentos — janelas, sombras, linhas — nasceram estudos têxteis que a tiraram da sua zona de conforto, e que hoje expõe e apresenta, com algum nervosismo. “Sempre trabalhei o orgânico, com tapeçaria e tear. Aqui quis fazer algo mais geométrico, mais urbano, que é um grande desafio para mim. Foi um processo de autoconhecimento.”

Da esquerda para a direita, os artistas Juno, Carolina Maya e Catarina Teixeira © Ricardo Lopes

Um espaço agregador, de referência

Além das residências e bolsas, o Ponto Kultural promove também outros eventos como exposições, conversas, workshops e ativações com associações parceiras (performances, concertos ou DJ Sets). O primeiro ano do projeto, para Diogo “gazella”, foi surpreendente: “Tem corrido bem. Em pouco tempo, alguns artistas já veem o espaço como referência.” Hugo Barros, diretor de Fotografia e Vídeo, recorda a sensação de ver o espaço pronto, no dia da inauguração ao público: “Cheguei aqui numa altura em que isto não tinha nada, a única sala que funcionava era o escritório. Fui eu que inaugurei o espaço com uma exposição, e foi engraçado perceber que um espaço assim podia ser uma galeria (e é)”.

Para Rodrigo, o momento mais marcante aconteceu no dia da inauguração da exposição de Germes Gang. “Pela experiência que tenho nas exposições, as pessoas chegam, veem, ficam um bocado e vão embora. Mas chegou a um ponto em que já eram nove e meia da noite, e percebi que as pessoas já não estavam cá por causa da exposição. Senti que aí o projeto estava a fazer sentido para os artistas, para a comunidade, e que o objetivo do projeto estava a começar a ser cumprido – isto não é só um espaço para apresentar, mas para agregar”.

Juno (nome artístico de João Centeno) sempre viveu na Linha de Sintra, e mora agora bem perto do Ponto Kultural, a “trinta segundos” do infantário onde cresceu. O coletivo ajudou-o a organizar a apresentação do seu primeiro álbum. “Estava um bocado a meter os pés pelas mãos, falei com o Rodrigo e pedi-lhe ajuda e ele disponibilizou-se logo para fazer tudo”. Acabaram por organizar uma “listening party” — um momento íntimo, sentado, onde ouviu e comentou o disco com o público. “Foi muito bonito”, recorda.

“Eu gosto muito de ter este tipo de espaços culturais ao pé de casa, porque sou uma pessoa interessada nas artes e na cultura, mesmo da que não pratico. É incrível que isto aconteça aqui. Sempre que posso, passo cá a ver quem está, as exposições e assim”. Juno, Carolina e Catarina, de áreas artísticas diferentes, não se conheciam antes do Ponto Kultural. 

Um projeto para tapar buracos – literal e figurativamente

O Ponto Kultural está inserido na freguesia mais populosa de Portugal (cerca de 70 mil habitantes), onde durante décadas não existiu qualquer equipamento cultural de longa duração. “É estranho como não há investimento cultural num sítio onde vivem tantas pessoas”, diz Rodrigo.

Esse é um dos desafios com que o coletivo se tem deparado: “A falta de espaços afastou as pessoas da cultura, e temos tentado perceber como é que podemos comunicar e aproximar pessoas que estão completamente distantes”. Isto, acrescenta Diogo, para “sem forçar nada, ir percebendo como a programação pode encaixar com as pessoas daqui. Com a ideia de, pouco a pouco, esse acesso (vir a exposições, workshops, etc.) se tornar cada vez mais um hábito”.

Outro dos grandes desafios do projeto recai sobre as “condições estruturais”. O espaço não tem as condições ideais, explicam: enquanto falamos, ouve-se a chuva a cair para dentro de baldes na sala que serve de ateliê.

O apoio da Fundação Calouste Gulbenkian foi essencial para dar o pontapé de saída e “tirar o projeto do papel”, mas falta ainda reconhecimento das instituições para dar sustentabilidade e estrutura ao projeto. “Para a autarquia local, há uma dificuldade em perceber o potencial deste tipo de trabalho e dar-lhe visibilidade”, desabafa Rodrigo. “As autarquias acham que estes trabalhos são pontuais, que nós estamos numa fase da nossa vida, ‘e quando se cansarem vão-se embora’. Mas, se formos a ver, o coletivo já existe desde 2018. O salto que queremos dar para a profissionalização deste trabalho precisa também de uma credencial, de uma credibilidade institucional, que demora”.

“Sintra não é só serra”

O coletivo está a preparar uma visão estratégica até 2030: ampliar o espaço, profissionalizar a equipa, criar salas adicionais, manter programação independente e continuar a aproximar escolas, artistas e moradores. “Queremos que o Ponto Kultural seja cada vez mais um equipamento para que as pessoas que queiram ser artistas possam vir aprender e encontrar referências, sem terem de ir para Lisboa”, diz João Tristany (Tristany Mundu).

“Eu cresci a ouvir que Mem Martins é um dormitório, que não acontece nada aqui”, comenta Catarina Teixeira. “Haver estes espaços de arte, de cultura, em que as pessoas podem juntar-se e aprender e conhecerem-se umas às outras, acho que é mesmo super importante. Sintra não é só serra”.

Para Carolina, “o Ponto Kultural é um sítio para apostar”. “Isto pode ser enorme daqui a cinco anos, e continuar a ser um ponto de encontro, um sítio de cultura, de arte, de convivência, de comunidade”. Juno concorda: “gosto de acreditar que cultura gera cultura. Eu comecei a fazer música porque alguém me inspirou a fazer música. Quanto mais capacitarmos as pessoas de qualquer comunidade a fazer arte, mais arte vai ser feita. É uma bola de neve”.

Entretanto, as portas abrem e o público começa a chegar. Vêm familiares e amigos de Catarina, mas também pessoas desconhecidas, como uma vizinha que “viu o evento no Instagram” e enfrentou a chuva em nome da curiosidade. Assim, o Ponto Kultural vai cumprindo aquilo que se propôs ser: um lugar onde a arte acontece, agregando pessoas e construindo comunidade.

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