“A gente tem de ficar abraçadinhos, Brasil e Portugal”

Adriana Calcanhotto integrou a programação paralela da exposição "Complexo Brasil", na Fundação Gulbenkian, com dois espetáculos que cruzam música, poesia e reflexão sobre a herança colonial e os laços entre Brasil e Portugal.
29 dez 2025 8 min

O título desta exposição parte da ideia de que “o Brasil é complexo, não é uno”. O que mais a interpela nessa leitura?

“Complexo” é uma palavra que tem muitos significados, muitas possibilidades, assim como é, na exposição, essa ideia, vamos dizer, indígena, ou quântica na verdade, de que o tempo se desenrola com tudo ao mesmo tempo, passado, presente e futuro. E essa palavra é interessante também porque os complexos, as favelas, o Complexo do Alemão, estão embutidos aí dentro desse nome, achei muito interessante.

Depois de ter visitado a exposição, houve alguma obra ou alguma parte que a tenha tocado mais?

A exposição vai-se desenrolando sobre realidades do Brasil. É difícil escolher uma coisa porque elas todas estão muito relacionadas. O que eu acho muito interessante são os artistas negros e indígenas, como o Gê Viana, Denilson Baniwa… estão meio que resolvendo algumas questões do modernismo, questões propostas por Oswaldo de Andrade também. Denilson Baniwa, na minha impressão, é o artista que comeu Oswaldo de Andrade. Sou muito fã da obra dele, achei que a obra escolhida é incrível.

Há também um olhar muito aguçado dos curadores, que é colocar a geometria que vem da arte indígena, da cultura indígena, de diferentes povos, numa esquina com os neoconcretos, com a geometria, de novo, de um outro ponto de vista. Literalmente faz essa esquina da geometria, que foi das coisas que mais me impressionaram.

Adriana Calcanhotto junto da obra "The Call of the Wild / Yawareté tapuya" (2023), de Denilson Baniwa © Ricardo Lopes

Qual o processo que levou às duas apresentações criadas a partir da exposição (aula-show “Complexo B” e conversa musical “Brasília”)?

Para o primeiro espetáculo (“Complexo B”), com o José Miguel Wisnik e o João Camareiro, o Zé Miguel, no primeiro momento que falou comigo do que gostaria de fazer, disse assim: não é nada que a gente já não venha fazendo. E durante o próprio espetáculo fiquei pensando como os poemas que eu musiquei, de poetas portugueses/portuguesas, é o resultado de um trabalho de muito tempo. O que foi feito para aqui foi organizar um repertório, a gente se encontrou, se falou muitas vezes sobre isso. Ele é o curador da exposição, e tudo o que escolheu realmente está muito ligado a esse ponto de vista.

A conversa de sábado foi sobre a ideia de Brasília. Eu e o professor Nuno Grande já demos algumas vezes essa aula na Universidade do Porto, na Universidade de Coimbra, na FLIP, no Brasil (com o Guilherme Wisnik). E é interessante porque vão se dando os acontecimentos e a gente vai tendo de colocar mais imagens de Brasília como uma ágora do Brasil, vamos dizer assim, que expõe, sem filtros, a beleza e as mazelas, a coisa do Brasil dos contrastes, tudo ao mesmo tempo. Então Brasília é uma coisa meio que sem fim.

A Adriana também deu voz a um texto de Clarice Lispector, sobre Brasília, na exposição.

Esse texto da Clarice é um texto muito impressionante, em alguns momentos é premonitório. Tem um olhar muito aguçado dela, de uma ideia de futuro, de uma urgência. Porque Brasília foi pensada como se não tivesse população ali, naquele lugar do Cerrado escolhido para ser Brasília, mas tinha povos Xavante, tinha quilombos[1]. E aí a ideia era levar para um lugar que não está povoado – que não é verdade – uma cidade inventada, uma coisa magnífica, como um esforço de invenção, de arquitetos. Mas aquele pedaço ali não estava despovoado. Então podemos ver nesse filme que Brasília tenta uma coisa para mudar o sistema, uma ideia no Brasil, mas na verdade reproduz.

Os candangos, que são as pessoas que constroem Brasília, nem sequer têm direito de estar presentes na inauguração de Brasília. Na inauguração estão os políticos, o presidente, todo mundo de cartola, e os candangos estão do lado de fora, numa periferia, porque eles dormem lá. Não há essa ideia de juntar, de parceria. Tiram o Quilombo, tiram o Xavante, botam uma cidade moderna, e os candangos são excluídos, vão trabalhar e voltar para o norte, para o nordeste, porque Brasília é dura.

Hoje fala-se muito de revisitar criticamente a história colonial. Como artista, como lida com essa herança? Qual o papel que a música pode desempenhar aqui?

A música vem tendo um papel super importante nessa invenção, nessa construção do Brasil. Acho que faz todo o sentido isso. Sob esse olhar do anticolonial, essa coisa interessante da exposição, que é descobrir um encobrimento. Não é descobrir um descobrimento, é descobrir um encobrimento. Eu gosto muito disso.

E a música é uma trilha disso. Você vai vendo as influências e a música negra, como aquela parte da exposição que é a música de samba de terreiro e a do João Gilberto sendo a mesma coisa: a gente sabe que são, mas o jeito de colocar é muito potente. São ideias que a gente que pensa o Brasil conhece, mas apresentadas desse modo, é tocante.

A Adriana tem uma relação longa e profunda com Portugal, inclusive foi embaixadora da Língua Portuguesa da Universidade de Coimbra. É uma relação que ainda está viva, que nutre de alguma maneira?

Sim, esse ano mesmo estive em Coimbra, cada vez é mais profunda, cada vez que eu volto é uma coisa, é um tijolinho a mais na construção da minha relação com Portugal.

Acho que é por essa relação que eu fui convidada, escolhida pelo Zé Miguel para apresentar um pouco do meu trabalho. Como as canções que estão no repertório da primeira noite, a canção que eu fiz para Coimbra [“Corre o Munda”], estando no Brasil com saudades de Coimbra, no inverso de um poema que é tão emblemático para nós, que é a Canção do Exílio. E para apresentar aquilo que faço há muitos anos: poesia portuguesa musicada por uma brasileira.

A "esquina da geometria" é uma das partes que mais impressionaram a artista, na exposição "Complexo Brasil" © Ricardo Lopes

Tem um público bastante fiel cá. O que é que lhe traz de diferente em relação ao brasileiro?

Tem talvez uma diferença: eu penso que em Portugal a relação é mais ainda com a palavra de língua portuguesa, com os poemas. Tem essa conexão desde que eu vim aqui a primeira vez, e a partir daí, todas as vezes que voltei – que já perdi a conta –, sempre sou apresentada a algum poeta, algum poema, alguma obra… Há sempre alguma poesia portuguesa que eu descubro, que me encanta, que me provoca.

O português tem uma relação mais forte com a letra e menos com a parte musical, da melodia?

É, no sentido grego da canção, da melodia ser uma coisa para guardar aquele poema, para que ele siga em frente, para que ele seja transmitido na cultura oral. Era assim que era na Grécia, era assim com os Trovadores e é assim no Brasil.

E essa é uma coisa muito sinteticamente explicada pelo José Miguel Wisnik. As aulas que eu dou em Coimbra, esse pensamento da alta poesia veiculada pela música, é uma coisa que vem de um pensamento já muito elaborado dele. Muito pensado, portanto, já muito simples na explicação, muito lapidado nesse conceito.

A morar no Rio de Janeiro, Adriana Calcanhotto mantém uma relação profunda com Portugal © Ricardo Lopes

Em relação ao futuro, como é que vê que a relação entre estes dois países, Brasil e Portugal, pode evoluir?

Eu acho que a gente tem de continuar se conhecendo, se descobrindo, se desencobrindo mutuamente. Raramente eu vi o Brasil bem e Portugal bem. Quando um está bem, o outro está mal… é bem diverso. São as ondas de imigração, as ondas de emigração. Às vezes os dois povos estão em lua de mel, às vezes há conflitos xenófobos. E isso tem a ver com essas coisas no mundo. A extrema-direita no Brasil, agora temos extrema-direita em Portugal. São movimentos do mundo. Eu acho que a gente tem de ficar abraçadinhos, Brasil e Portugal.

E iniciativas como esta exposição podem ajudar nesse processo?

Muito. Eu acho muito importante esta exposição da Gulbenkian ser vista pelos portugueses e pelo mundo todo, mas sobretudo… É muito importante que os brasileiros vejam. As pessoas têm saído comovidas, os monitores aqui contam histórias interessantes da reação das pessoas.

É uma espécie de tentativa de reparação?

É uma constatação, com muitas camadas de sentido. Nessa coisa de que o tempo corre, os tempos correm ao mesmo tempo. Essa coisa indígena de que você pode sonhar, pode lembrar do futuro, é uma coisa que a gente, a gente branca, a gente ocidental, não consegue conceber. Mas acho que o jeito com que tudo está exposto toca muito nessa possibilidade.


[1] Quilombos no Brasil são comunidades formadas por descendentes de africanos escravizados que fugiram, simbolizando resistência à escravidão e preservação cultural, com milhares de comunidades ativas hoje, notavelmente na Bahia e Maranhão. O povo Xavante é um povo indígena do Brasil Central, conhecido pela sua forte cultura, organização social  e resiliência.

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