A manutenção do Jardim Gulbenkian no outono
À semelhança do que acontece na primavera e no verão, a equipa de jardinagem continua a realizar o corte regular das gramíneas e dos relvados. Estes trabalhos prolongam-se até ao final do outono ou início do inverno, quando a descida das temperaturas leva muitas plantas a entrar em repouso vegetativo.
A rega, por sua vez, torna-se menos frequente graças à redução das temperaturas e ao aumento da precipitação. Também a monda deixa de ser tão recorrente, uma vez que as plantas invasoras abrandam o seu crescimento. Por isso, esta é uma época do ano em que os trabalhos de manutenção decorrem de forma mais tranquila quando comparados com as restantes estações.
Preparar o Jardim para as estações seguintes
O outono é uma altura privilegiada para a sementeira de relva e para a ressementeira de algumas gramíneas. Embora estas tarefas também possam ser realizadas na primavera, as temperaturas mais elevadas favorecem o desenvolvimento de fungos. Segundo o mestre-jardineiro António Graça, quando os termómetros se aproximam dos 30ºC, o risco aumenta, razão pela qual a equipa prefere aproveitar as condições mais amenas do outono.
Nesta altura do ano, algumas espécies continuam em crescimento, permitindo a realização de novas plantações. A exceção são as árvores e os arbustos de folha caduca, que se encontram já no final do seu ciclo vegetativo. Ainda assim, António Graça sublinha que o comportamento das plantas depende sobretudo das condições climatéricas: “Não temos exatamente um calendário porque o que manda é a temperatura. Temos tido anos em que ela permanece amena até dezembro.”
Apesar da desaceleração típica da época, o crescimento não pára completamente. “Ainda conseguimos ver as pontinhas verdes, que são os crescimentos do outono”, explica. Com o regresso das condições favoráveis, algumas plantas retomam o seu desenvolvimento e podem mesmo avançar para os percursos pedestres, tornando necessário controlar o crescimento das orlas.
O outono é também tempo de recolha de sementes. É o caso da piracanta (Pyracantha crenulata), que nesta época se cobre de bagas coloridas. As suas sementes são recolhidas, sujeitas a um período de frio e, posteriormente, semeadas no final do inverno ou no início da primavera.
As folhas do outono
Poucas imagens representam tão bem o outono como os tapetes de folhas douradas, amarelas e avermelhadas que se espalham pelos jardins e caminhos. É também nesta altura que se inicia a atividade de compostagem. No entanto, nem todas as folhas são recolhidas. Como explica António Graça: “Só recolhemos as folhas que estão nos pavimentos e sobre as herbáceas. As restantes permanecem junto das árvores e dos arbustos, onde desempenham um papel importante na manutenção dos micro-organismos do solo e ajudam a conservar a humidade.”
Nos dias mais frios e secos, espécies como os lódãos e as tílias adquirem tonalidades amarelas particularmente marcantes. Quando as folhas caem, os jardineiros optam muitas vezes por deixá-las no chão, criando um efeito natural de tapete dourado. Apenas são removidas quando o piso está húmido e escorregadio, por razões de segurança.
Uma das zonas onde este cenário pode ser observado é junto dos espelhos de água, cujo pavimento é revestido com bagacina dos Açores. Nesta área surgem frequentemente arbustos espontâneos, como loureiros e folhados que são transplantados para os viveiros nesta época do ano. Muitos destes exemplares resultam da ação das aves. Ao alimentarem-se dos frutos, dispersam as sementes já preparadas para germinar após a passagem pelo sistema digestivo. Estas são conhecidas como sementes de tegumento duro, uma vez que necessitam deste processo natural — ou da intervenção humana — para facilitar a germinação.
Limpeza e manutenção
Durante o outono, a equipa de jardinagem dedica-se também à limpeza das margens dos charcos, lagos e regatos, removendo a vegetação que secou e adquiriu tonalidades castanhas. Segundo António Graça, algumas espécies permanecem no local: “O pouco que fica são o lírio-amarelo-dos-pântanos (Iris pseudacorus) e o lírio (Iris unguicularis), os junco-agudo (Juncus acutus) e junco-curvado (Juncus inflexus), alguns miscantos (Miscanthus sinensis), os papiros (Cyperus papyrus) e os caniços (Phragmites australis). Tudo o resto tem de sair.”
Este trabalho é realizado de forma manual e seletiva, garantindo que as margens não ficam desprovidas de vegetação. Além disso, constitui uma preparação importante para as operações periódicas de lavagem e manutenção do grande lago, realizadas de dois em dois anos durante o inverno.
No lago da nova área do Jardim, a sul do Centro de Arte Moderna, a abordagem é ligeiramente diferente. A equipa aguarda que uma maior parte da vegetação complete o seu ciclo antes de iniciar a limpeza. “Esperamos que as plantas castanhas caiam mais um pouco. Se intervirmos demasiado cedo, podemos danificar espécies que ainda estão verdes ao caminhar até às que já secaram”, explica o mestre-jardineiro.
Enquanto os junco-agudo (Juncus acutus) e junco-curvado (Juncus inflexus) são particularmente resistentes e flexíveis, as folhas do lírio-amarelo-dos-pântanos (Iris pseudacorus), do lírio (Iris unguicularis), da tabua-estreita (Typha angustifolia) e da tabua-larga (Typha latifolia) partem-se com facilidade. António Graça recorda ainda que algumas plantas das margens, como os poejos (Mentha pulegium), não estão mortas: encontram-se simplesmente numa fase natural do seu ciclo, preparando-se para uma nova renovação quando regressarem as condições favoráveis ao crescimento.