A manutenção do Jardim Gulbenkian na primavera

A primavera é uma altura de esplendor em qualquer jardim. As plantas estão em crescimento acelerado, as flores atraem aves e insetos e todo o Jardim parece vibrar de vida e alegria!
28 jul 2025 6 min
A manutenção do Jardim Gulbenkian

É durante esta estação do ano que as plantas iniciam o seu ciclo de crescimento. Crescem as que fazem parte do elenco do Jardim, mas crescem também as invasoras e as que cá vêm parar com o vento. “É, evidentemente, uma altura do ano com mais trabalho”, salienta o mestre-jardineiro António Graça, “nunca temos tempos mortos, mas este período obriga-nos a gerir prioridades porque temos zonas plantadas, como as das herbáceas, nas quais algumas plantas não têm a capacidade nem o vigor para competir com as que cá vão aparecendo.”

Sachar e mondar

Por ser uma estação do ano com mais crescimento de plantas, a equipa de jardinagem encarrega-se essencialmente de tarefas como a sacha e a monda do terreno. Ambas as técnicas são utilizadas para eliminar as infestantes e retirar as plantas que estão a mais, para limpar e preparar o terreno para cultivo e para melhorar o desenvolvimento da vegetação. “Mas nem tudo é mondado”, revela António Graça, “aceitamos algumas espontâneas que têm valor para nós!”

Todo o solo que nos últimos meses foi ficando compactado superficialmente terá de ser sachado e esta tarefa é muito importante para que a água da rega possa penetrar no solo. “Durante este inverno fomos fustigados por chuvas intensas e o solo compactou”, conta, “e agora as zonas com declive devem ser sachadas.” Disto é exemplo a nova área do Jardim, a sul do Centro de Arte Moderna, que terá de ser sachada em grande parte. No entanto, é essencial não só sachar zonas de declive, mas também zonas com solos argilosos. A argila tende a retrair e acaba por abrir frechas e, consequentemente, a água que está no solo evapora. 

Jardineiro a mondar © Paula Côrte-Real
Jardineiro a sachar © Antónia Alves

Além destes trabalhos de manutenção, acresce agora um novo: o controlo da lagarta dos buxos. “Apareceu em 2024 e quando a detetámos fizemos o tratamento no local onde apareceu e resultou bem. Mas, passado pouco tempo, tivemos outro ataque violento que ia dizimando todos os buxos aqui no Jardim!”, conta António Graça. Atualmente está, aparentemente, controlada. Aparece no princípio da primavera, em meados de abril, até ao final de setembro. Quando são jovens as borboletas depositam os ovos nas árvores e nos arbustos perto dos buxos e à medida que se desenvolvem vão diretamente para lá e desfolham todos estes arbustos em menos de 3 dias.

Buxos desfolhados pela lagarta © Paula Côrte-Real

Relvados e gramíneas

Durante a primavera, a equipa de jardinagem volta a realizar o corte regular das gramíneas e dos relvados. Os relvados necessitam de cortes regulares para crescerem de forma saudável e as gramíneas, por sua vez, não devem ter um corte superior a 1/3 do seu tamanho porque senão as plantas retraem-se e deixam de crescer. 

© Ricardo Oliveira Alves

Com o elevar da temperatura e da luz solar, a equipa também aproveita para fazer as sementeiras dos relvados e para recuperar aqueles que são mais pisoteados. Existem variedades de relva que se dão melhor à sombra e outras ao sol. São normalmente as variedades de folha fina que toleram mais o ensombramento, mas que toleram menos o pisoteio do público. Os campos de futebol, por exemplo, têm relva com folha mais larga.

Nos primeiros meses, depois de ser semeado, o relvado fica em quarentena. A semente da relva é monocotiledónea e cresce apenas com uma folhinha, por isso é necessário promover a sua propagação (afilhamento) através de passagem de rolo, para que se vá adensando. No entanto, na primavera, as temperaturas começam a aumentar e os relvados novos desenvolvem um fungo que rapidamente os pode dizimar. Em função disso, é necessário semear antes das ondas de calor e colocar uma manta branca a tapá-los – chama-se manta térmica e aquece os relvados a mais 3ºC ao nível do solo. Todavia, a manta é principalmente útil, neste caso, para evitar que os pombos comam as sementes! “Colocamos a manta até a germinação ocorrer e depois mais uma semana. Utilizamos a manta para nos protegermos”, explica António Graça. Apesar de a manta ser permeável e não cortar a luz solar, “devemos estar muito atentos porque assim que a germinação ocorrer temos de destapar logo o relvado para que o fungo não apareça.”

As flores da primavera

Ainda que o inverno seja uma altura propícia para as plantações, a primavera também o é. Na verdade, pode-se plantar ao longo de todo o ano, mas não se terá a mesma reação da planta: se se plantar durante a primavera, a planta terá todo o seu ciclo de crescimento até ao verão, mas se for plantada em pleno verão ela vai retrair-se com o calor e vai crescer pouco e apenas durante o outono. Por esse motivo, os jardineiros aproveitam a primavera para completar todas as plantações e para expandir, calmamente, os viveiros. 

Durante esta altura, as flores que crescem no prado já começam a ser visíveis. Podemos observar as margaridas (bellis perennis), introduzidas, e a bellis sylvestris, anual e espontânea, bem como a menta, o dente-de-leão e o morango-silvestre. Os acantos com flor também começam a aparecer. A maioria são espontâneos e facilmente propagados porque produzem muitas sementes e gostam bastante de sombra, assim como as pervincas. 

Infelizmente, algumas plantas com flor não sobrevivem muito tempo, ou porque são colhidas por visitantes ou porque são pisadas. Os jardineiros têm sempre esta enorme tarefa de sensibilizar o público para respeitar o Jardim. Todos gostam mais de o ver florido e as borboletas e as abelhas também agradecem!

Em todo o Jardim, e sobretudo na área nova onde foram plantadas muitas espécies aromáticas, podemos sentir o cheiro de muitas flores. Uma delas é a tília, cujas flores têm um cheiro doce e suave, e o incenseiro, com um cheiro doce mais intenso. Também podemos ver e cheirar os vários tomilhos, o poejo, as alfazemas, o alecrim ou a santolina!

Série

A manutenção do Jardim Gulbenkian

Apesar do seu aspeto natural, o Jardim Gulbenkian exige uma manutenção cuidadosa e um conhecimento profundo dos ciclos das plantas e animais que o povoam. Há mais de 30 anos, o mestre-jardineiro António Graça coordena a equipa que garante esse equilíbrio, estação após estação. Ao longo do ano, vamos acompanhá-lo e revelar o trabalho invisível que preserva este jardim.
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