A manutenção do Jardim Gulbenkian no inverno
No inverno, a maioria das plantas pára de crescer. E como crescem menos plantas, crescem menos infestantes. Contudo, o prado – localizado em frente ao Edifício Sede – continua a crescer… e muito! As gramíneas que aí se encontram são cortadas, no máximo, de 15 em 15 dias.
Apesar de nesta altura do ano as plantas crescerem menos, o trabalho no Jardim nunca pára. É um trabalho bastante dinâmico em que nem sempre se tem uma rotina, pois há situações urgentes que têm de se resolver de imediato.
É durante o inverno que se prepara o resto do ano. Aproveita-se para podar alguns arbustos mortos e limpar as margens dos lagos, nos quais as plantas também envelhecem. Nesta altura também devem ser feitas as plantações para aproveitar o ciclo natural das plantas, por exemplo, diz António Graça: “aproveitamos plantas espontâneas, provenientes do trabalho das aves e que nasceram numa zona do Jardim na qual não são prejudiciais, esperamos 2 a 3 anos para que se desenvolvam e depois mudamo-las de sítio. E é com estas temperaturas mais baixas que as mudamos, pois assim resistem mais ao stress de serem retiradas. Também podemos fazê-lo noutra altura do ano, desde que estejam envasadas, apesar desta ser a mais benéfica.” Disto é exemplo a nova área do Jardim, a sul do Centro de Arte Moderna, na qual a maioria das plantações foi realizada durante o verão.
Mas se plantarmos uma árvore durante o inverno, temos a Natureza a ajudar-nos pois na primavera irá começar a crescer, as raízes vão-se aprofundando e a árvore vai ter muito menos necessidade de ser regada quando chegar o verão. Será, portanto, mais autónoma nos meses de maior calor.
É certo que o inverno, para um jardineiro, é muito mais duro por causa da chuva e do frio. “Mas já não temos tido invernos tão rigorosos como antigamente, este ano não houve geada”. No entanto, pode acontecer chover muito e as plantas recentemente plantadas acabarem por morrer por asfixia radicular. Como é que isto acontece? “Quando fazemos uma cova, para uma árvore ou arbusto, se esta não estiver num local bem drenado vai funcionar como recipiente e acumula água”, explica António Graça, que acrescenta: “por essa razão, se sabemos que vai chover muito, já não vamos plantar árvores ou arbustos, mas vamos sim trabalhar em zonas cobertas e abrigadas, como floreiras.”
O Jardim tem também um sistema de rega, que durante o inverno é pouco utilizado. “Por exemplo, hoje, com a chuva, regamos apenas onde não choveu – nas varandas, em zonas debaixo das palas, etc. Este ano, a área nova do Jardim vai precisar um pouco mais de rega, mas à medida que o sistema radicular das novas plantas se desenvolve, já não vai ser tão necessária. No primeiro ano gasta-se sempre mais água.”
A poda e a fertilização no inverno
Em dias de muita chuva, as árvores de folha persistente retêm mais a água e os seus ramos podem ceder com o peso, obrigando a equipa de jardinagem a intervir e a podar ligeiramente, principalmente no exterior, quando afeta a circulação das pessoas. Portanto, os jardineiros podam apenas para correção, se houver crescimentos excessivos, problemas de coabitação entre os edifícios ou concorrência entre várias plantas. “Estamos perante um jardim naturalista, privilegia-se o porte livre, tão natural quanto possível. Podamos sim, mas muito menos e não com uma preocupação estética.” acrescenta António Graça.
Outra questão é o uso de fertilizante. No caso do Jardim Gulbenkian, que tem árvores, herbáceas e arbustos, é muito difícil fertilizar regularmente. O azoto, componente que faz parte dos fertilizantes, pode provocar crescimentos anormais nas árvores que depois ficam mais sujeitas a doenças. “Só aplicamos fertilizante quando é mesmo necessário. Por exemplo, os nossos relvados não são lineares, nem são como os de campos de futebol onde se colocam fertilizantes. Aqui não pode ser porque vão dar a orlas de arbustos ou árvores e não podemos estar, em função da relva, a criar crescimentos anormais de outras plantas. Temos sempre de gerir este equilíbrio”, explica o mestre-jardineiro.
Na nova área de jardim, a sul do CAM, o critério de plantação foi ligeiramente diferente, foram apenas plantadas espécies autóctones. Ainda assim há muitas plantas com flor: “temos lavandas, violetas, lírios, pervincas, pascoinhas, narcisos… Apesar de ser inverno, já temos muitas flores!”