A manutenção do Jardim Gulbenkian no verão

Com a chegada do verão, a principal preocupação do mestre-jardineiro e da sua equipa é, sobretudo, garantir que a água chegue a todas as plantas que dela necessitam.
04 ago 2025 6 min
A manutenção do Jardim Gulbenkian

O sistema de rega

É ainda durante a primavera que se volta a introduzir lentamente a rega, para preparar a chegada das temperaturas mais altas. Apesar de ser um sistema automático, este não é infalível, sendo sempre necessária a ação do jardineiro. Em alguns locais o vento predomina e a rega é desviada, noutros as plantas crescem e tapam os difusores e, inclusive, alguns dos emissores são vandalizados. “Tudo isto impossibilita uma rega homogénea”, explica o mestre-jardineiro António Graça, “é sempre precisa uma rega complementar, não generalizada, mas pontual.”

Por norma, as plantas no seu estado adulto já não precisam de muita água e sozinhas são autossuficientes. Mas, no caso do Jardim Gulbenkian, que tem cobertura do solo, as plantas do subcoberto muitas vezes têm o sistema radicular mais fraco.

Qual é a melhor altura do dia para regar? “A maioria das plantas – árvores, herbáceas e arbustos – devem ser  regadas durante a noite porque vamos ter todo o período noturno sem insolação e, desta maneira, poupamos água”, acrescenta António Graça. No entanto, no caso dos relvados é diferente: é preferível regar ao amanhecer porque quanto menos tempo a relva estiver com as folhas molhadas melhor, uma vez que com a humidade os fungos têm melhores condições para proliferarem. Assim, o sol nasce e a água evapora.

Rega manual dos terraços © Ricardo Oliveira Alves

Existem ainda outras exceções. Por vezes, a equipa tem de regar à hora de maior calor em áreas específicas, como nos terraços da Fundação, que têm cerca de 12 cm de solo. “Nesses terraços, quando a temperatura atinge quase os 40ºC, temos de baixar a temperatura do solo, para não perdermos as plantas”, refere o mestre-jardineiro.

É evidente que, se durante o dia uma planta estiver com sede, os jardineiros não esperam pelo anoitecer e agem de imediato. “Aliás, nos dias e nas horas de maior calor percorro o Jardim todo para ver onde há necessidade de água”, conta António Graça, “de manhã, com a humidade noturna e com a temperatura baixa, as plantas parecem estar todas bem. Passado umas horas, destacam-se as que têm sede.”

Como identificar uma planta com sede? “Nota-se se estiverem murchas. A relva tende a enrolar a folha e a ficar com um tom cinzento. Quando caminhamos sobre um relvado que tem sede, ao pisarmos fica com a marca do nosso pé.” O mestre-jardineiro salienta que é necessária uma vigilância ainda maior durante o verão pois o stress de uma planta por falta de água é causador de doenças. Uma planta murcha está, normalmente, vulnerável a pragas e doenças!

Cuidados de verão

Iniciada durante a primavera, a monda (remoção de plantas indesejadas) acontece também ao longo verão, visto que as plantas continuam a crescer. E o que fazer com as plantas que se retiram? “Aquelas que não produzem sementes, aproveitamos para compostagem. As que têm sementes e se reproduzem mais facilmente, deitamos fora – não as queremos propagar mais.”

A poda é também outra atividade desta estação, que, na verdade, acompanha a manutenção do Jardim durante todo o ano, seguindo sempre o conceito de um jardim naturalista sem podas severas. Nesta altura do ano, existe um controlo das orlas arbustivas, quer no interior do Jardim, quer no exterior da Fundação. Habitualmente, as plantas de folha caduca são podadas no seu repouso vegetativo, durante o inverno. Mas também se podem podar durante o seu crescimento na primavera, pois têm a capacidade de regenerar melhor a ferida do corte. Apesar deste fator, a poda deve fazer-se durante o período de dormência quando não há fluxo de seiva, isto é, no fim do inverno e com a chegada da primavera.

Para deixarmos a planta com um aspeto natural, como a devemos podar? “Por norma, podamos um ramo junto à inserção de um outro ramo para se manter o aspeto natural. Devemos podar desta maneira para que a seiva passe e para não haver uma rebentação epicórmica”. António Graça explica: “Ou seja, se não podarmos junto a um raminho (tira seiva), ficamos com um coto ou talão que depois vai emitir vários rebentos. Mas, claro, depende sempre da planta em questão.”

A nova área do Jardim, a sul do Centro de Arte Moderna, tem um menor controlo de crescimento porque ainda está na sua infância. Contudo, os jardineiros mondam e sacham o terreno e enquanto as plantas aí colocadas não crescem, há espaço para as espontâneas se integrarem. Disto é exemplo a lobularia maritima: “apareceu cá espontânea, já a propagámos mas estamos ainda a ver onde a colocamos. Vê-se muito nas arribas junto ao mar, tem um longo período de floração e não é muito exigente em água. Já a ipomoea, outra planta espontânea, não vai ficar cá pois é muito vigorosa e vai crescendo, devagarinho, até quase aos 20 metros de altura!”

Lobularia maritima © Antónia Alves
Ipomoea © Antónia Alves

Uma planta que nos relembra sempre em que altura do ano estamos é o acanto. Esta planta produz muitas sementes e, por isso, propaga-se facilmente em zonas ensombradas e do subcoberto. No verão começam a ficar castanhos, sendo necessário proceder à remoção dos seus escapes florais e folhas. Este é mais um dos trabalhos típicos desta estação do ano.

Acantos, já acastanhados © Paula Côrte-Real

Para além dos acantos, os jardineiros também se encarregam de retirar os rebentos radiculares dos choupos, para que não cresçam tantos no Jardim. “Por exemplo, temos zonas com hera plantada onde por vezes aparecem esses rebentos. Mas não nos interessa que cresça aqui um choupo.” No entanto, a equipa seleciona os choupos bem formados e, no inverno, (para evitar o stress de serem retirados) são transplantados para outro lugar para se tornarem árvores.

Rebento de choupo, junto da hera © Antónia Alves
Série

A manutenção do Jardim Gulbenkian

Apesar do seu aspeto natural, o Jardim Gulbenkian exige uma manutenção cuidadosa e um conhecimento profundo dos ciclos das plantas e animais que o povoam. Há mais de 30 anos, o mestre-jardineiro António Graça coordena a equipa que garante esse equilíbrio, estação após estação. Ao longo do ano, vamos acompanhá-lo e revelar o trabalho invisível que preserva este jardim.
Saber mais

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.