Os leões contam as suas histórias, agora na Gulbenkian
“Tanto aperto a mão a um branco como o pescoço a um preto.” Quem o diz é Albano, o sogro, a meio do jantar em que conhece o namorado negro da filha. A cena é de Moamba, o episódio que abre a série “Novas Narrativas de Caça”, mas Luís Almeida ouviu a frase primeiro na vida real, aos dezanove anos, à mesa de casa de alguém. Levou anos a saber o que fazer com ela. “Lembrei-me desta história e pensei: o que é que passou na cabeça deste homem, para olhar na cara de alguém e dizer-lhe isto?” Em vez de devolver o golpe, perguntou-se o que havia de absurdo na situação e escreveu.
Moamba estreou na RTP Play a 14 de maio, junto com os outros seis episódios da série. Agora regressa à Gulbenkian – onde fez a antestreia – integrado no Jardim de Verão, evento que Almeida co-cura desde 2022 com Alexandra Oliveira Matos, sua sócia na produtora Many Takes. Ao longo de três fins de semana, cada episódio é exibido no Estúdio do CAM e seguido de uma conversa com atores, realizadores e convidados sobre os temas que levanta. É uma série que, como o próprio diz, procura o absurdo para aliviar o peso.
Leandro, o protagonista do Moamba, atravessa o jantar de família sem nunca baixar a cabeça. “Ele está sempre acima dos outros, porque na verdade é a única pessoa com alguma postura. Tipo: estou a observar-vos, vocês são todos doidos nesta mesa.” A violência está lá – dita, sentida, inegável – mas as personagens de Almeida não se deixam definir por ela, e a ferramenta para isso é quase sempre o riso. “Acho engraçado o absurdo da vida” e a comédia serve para apontar sem solenizar. Na antestreia da Gulbenkian viu o efeito funcionar em direto: as pessoas reconheciam de onde vinha cada piada e riam-se na mesma, porque há situações em que, conclui, só dá para rir. Que seja ele a fazê-lo, e não alguém a quem encomendaram uma história sobre racismo, justifica-se pelo próprio percurso: Almeida é editor de formação e chegou à realização por uma falta, mais do que por vocação. “Houve uma fase na minha vida em que eu não tinha nada para editar, ninguém me dava nada. Então comecei a realizar porque precisava de coisas para editar.” A câmara era o meio e isso deixou-o livre para escrever o que conhecia em vez de imaginar o que se esperava.
O cinema vinha de longe, por via de um primo mais velho que o levava à sala todas as semanas e lhe trazia cassetes e DVDs. “Sempre me fascinou imenso a sala de cinema, o negro, e durante aquelas duas horas eu vivia naquele mundinho.” A ambição, contudo, era modesta e passava, na altura, por tornar-se editor, cortar filmes para outros. A Many Takes nasceu do mesmo pragmatismo: a pandemia chegou, o trabalho parou, e criar a própria produtora foi a saída possível. Com Alexandra Oliveira Matos, o que era freelancing ganhou nome e estrutura. Do documental De Sol a Sol, sobre a cultura hip hop, ao documentário Filhos do Meio, sobre o hip hop de Almada, a produtora foi sempre alternando encomenda comercial – “precisamos todos de pôr comida na mesa” – com um propósito que Almeida enuncia sem rodeios: “É uma produtora de ficção que conta histórias negras e tenta dar oportunidade a realizadores, realizadoras e argumentistas que tenham essas histórias e que tenham vontade de as contar.”
“Novas Narrativas de Caça” é onde esse propósito se torna mais explícito e mais exigente. Almeida chegou a pensar numa série inteiramente escrita por si, e foi a honestidade que o demoveu: “A minha experiência por si só era muito curta para a quantidade de histórias possíveis que a comunidade afrodescendente representa.” A forma antológica resolve o problema da escala – sete universos, do Recursos Humanos ao distópico Sobrevivente, do Once You Go Black ao Codé – ao preço da profundidade que cada um poderia ter ganho com mais tempo. “As histórias ficam contidas ali naquele tempo”, reconhece, e não descarta episódios mais longos numa eventual segunda temporada. Para encontrar os autores, fez aquilo que quem diz não haver criadores negros nunca faz: foi à procura. “Está imensa gente por aí, é uma questão de realmente pesquisar.” Andou pelo Instagram, por curtas no YouTube, perguntou a amigos, e reuniu Gisela Casimiro, Lara Mesquita, Fábio Silva, Diogo Gazella Carvalho, Dércio Tomás Ferreira, Cláudia Semedo e Ana Lúcia Carvalho.
Que a série tenha chegado à televisão pública com apoio da iniciativa “Cinema pela Democracia” – ligada às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, através do ICA – deu-lhe a credibilidade para entrar num circuito que de outra forma se fecharia. “Conseguimos entrar no meio e dizer: temos a capacidade, conseguimos pensar projetos, estruturá-los, realizá-los e pô-los cá fora.” A liberdade que a RTP lhe deu, da escrita ao corte final, foi total. O risco que o preocupa é outro, e está dentro: “Pode haver uma vontade geral de evitar assuntos incómodos. E quando digo isto, falo do pensamento geral dos criadores, não de obras minhas em específico.” Por isso reivindica o direito a histórias negras que não vivam em permanente estado de exceção. “Há espaço para criarmos histórias negras em que é um romance entre duas pessoas negras e está tudo certo. Merecemos ver-nos de forma positiva, sem estarmos em constante batalha.” É também com essa convicção que assina a curadoria do ciclo na Gulbenkian: levar estas histórias a este espaço ganha sentido “neste período em que vivemos, onde a extrema-direita continua a ganhar importância e começamos a perceber os caminhos deste governo.”
O título da série vem do provérbio africano “até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.” Para Almeida, traduz-se numa distinção simples – “há uma diferença entre fazer sobre e fazer com” – que é, no fundo, o que a Many Takes existe para tornar real. A série surpreendeu-o na receção e confessa que ”não estava à espera que fosse tão bem recebida.” Mas a surpresa não mudou o método. “Eu trabalho um bocado assim. Não ponho muitas expectativas nas coisas: bora fazer, e o que vier, veio.”
A 12 de julho, quando o último episódio for exibido no Estúdio do CAM e a conversa se abrir à sala, a série terá percorrido o caminho inteiro – da RTP Play para a Gulbenkian, do ecrã para o encontro. O que é, afinal, a única coisa que Almeida sempre quis: “Não há nada que eu goste mais do que as pessoas verem as coisas, que não fiquem escondidas numa gaveta.”