“É preciso fomentar a inteligência local”
Como explica o que é a Redes da Maré?
A Redes da Maré é uma organização da sociedade civil com uma longa trajetória de atuação no conjunto de 15 favelas da Maré, no Rio de Janeiro, onde vivem cerca de 140 mil pessoas. Se fosse uma cidade, a Maré teria uma população maior do que 96% dos municípios brasileiros.
A Redes nasce dentro desse território, a partir da articulação de pessoas que nasceram ou cresceram ali. É o meu caso. Cheguei ainda criança à Nova Holanda, uma das favelas da Maré, marcada por muitas precariedades e pela quase ausência de serviços públicos. Cresci nesse contexto e, desde muito cedo, me envolvi nas lutas por direitos básicos, como acesso à água potável, energia elétrica e saneamento.
Durante as décadas de 1970 e 1980, essas lutas foram muito intensas. Acabei me envolvendo profundamente, cheguei a ser presidente da Associação de Moradores em 1984 e, mais tarde, já na universidade, começamos a refletir sobre a necessidade de ir além das organizações comunitárias tradicionais. Era preciso criar estruturas capazes de pensar mudanças mais profundas, não apenas reivindicações pontuais, mas processos que garantissem direitos a partir das políticas públicas, numa perspetiva cidadã e republicana. É desse movimento que a Redes da Maré surge.
Que tipo de atividades desenvolve, em que áreas?
A Redes nasce com o objetivo central de fomentar o protagonismo dos moradores e produzir conhecimento sobre a realidade das favelas. Existe muita ignorância, preconceito e estereótipo em relação a quem vive nesses territórios. Por isso, desde o início, investimos fortemente na produção de conhecimento, entendendo que ele não está apenas na universidade, é preciso fomentar essa inteligência local.
Um segundo aspeto fundamental é a participação comunitária. Quando criamos a Redes da Maré, queríamos ressaltar justamente a ideia de que existe uma inteligência local, um potencial, e que o que está estruturando a vida das pessoas é o processo de desigualdade no Brasil, o modo muito desigual como os recursos estão distribuídos na cidade, no país.
A terceira dimensão da Redes é a realização de projetos concretos, que possam demonstrar que é possível romper esse muro da desigualdade. O primeiro deles, por exemplo, foi voltado para identificar o quão desigual era o acesso à universidade. Uma boa parte das universidades é pública e gratuita, mas quem estuda lá são pessoas de classe média e ricas, que poderiam, em tese, pagar para estudar. E as pessoas pobres não conseguem frequentar a universidade, porquê? Porque têm uma educação elementar básica muito precária. Então, o nosso primeiro projeto foi justamente pensar como aumentar esse percentual de pessoas de origem popular, que é o meu caso, no acesso à universidade.
Todo o nosso trabalho na Redes da Maré está pensado e calcado numa ideia de incidência política e advocacy pelos direitos mais básicos da população. Não no sentido de assumir o papel do Estado, mas de o provocar e mostrar que é possível fazer, disputando narrativas e propondo políticas públicas baseadas na experiência concreta do território.
A Redes da Maré é composta por 15 favelas e mais de 140 mil habitantes, um território muito plural. Como se constrói uma ação coletiva num contexto tão diverso?
A diversidade da Maré é resultado da sua própria formação territorial. São 4,5 km e 47 mil domicílios. As pessoas que os ocupam vêm de diferentes lugares do Brasil. Uma boa parte da população é nordestina, tem uma população negra muito significativa, populações indígenas e, mais recentemente, também um grande número de pessoas migrantes de Angola. Para lidar com essa pluralidade, a produção de conhecimento é essencial, tudo precisa ser refletido e pensado. Criamos a Casa Preta da Maré, um espaço para justamente tentar olhar para essa dimensão territorial das etnias que compõem aquele território.
Nos projetos que desenvolvemos, buscamos responder a demandas concretas e diversas, o que faz com que a Redes tenha múltiplas ações. Quando pensamos cultura e arte, por exemplo, procuramos criar iniciativas que dialoguem com as diferentes experiências e desigualdades que coexistem naquele mesmo espaço.
A questão de gênero é um exemplo importante. As mulheres são mais de 51% da população da Maré e, em 39% dos domicílios, são as principais responsáveis financeiras das suas famílias. Ao mesmo tempo que têm um papel central nas lutas do território, estão submetidas a múltiplas violências. Por isso, criamos a Casa das Mulheres da Maré, com projetos específicos nas áreas de cultura, acesso à justiça e escolaridade. Então, é um pouco isso, a gente vai experimentando e tentando responder a demandas muito concretas.
A arte, a cultura e a educação têm um papel muito estruturante nas práticas da Redes da Maré. Como pode a arte participativa ser ferramenta de transformação social nas periferias urbanas?
A arte e a cultura são eixos estruturantes do nosso trabalho, assim como outros direitos básicos. No Rio de Janeiro, a maior parte dos equipamentos de arte e cultura está concentrada na zona sul da cidade, enquanto a periferia e a zona norte, que é onde as favelas da Maré estão, quase não tem equipamentos. A primeira luta, portanto, é essa muito básica pelo direito de acesso à arte e à cultura – temos, por exemplo, o Centro de Artes, na Maré, que está localizado na Nova Holanda, mas para existir como equipamento para todos os moradores da cidade.
Mas existe uma segunda dimensão, que talvez seja a mais importante. Assim como a educação, entendemos a arte como um elemento essencial para a emancipação e para a formação da subjetividade. Ela não é apenas algo para ser consumido, mas uma experiência fundamental para a existência humana, para lidar com as contradições, perspetivas e experiências de cada um e cada uma.
Em contextos marcados por negligência de direitos e violência, como as favelas, a arte e a cultura são ainda mais necessárias, no sentido de trabalhar uma dimensão subjetiva desses processos. A nossa luta é para que haja a valorização desse lugar da arte, não como um instrumento, mas para ser essência mesmo da experiência humana, um direito a que todo mundo deveria ter acesso.
Como funciona a participação interna e a tomada de decisões na Redes?
A estrutura de organização passa por uma direção geral, formada por pessoas que estão desde a origem da organização (como eu), e um Núcleo de Acompanhamento Institucional, com pessoas que acompanham mais diretamente os cinco eixos de atuação da Redes: Arte, Cultura, Memórias e Identidades; Direitos Urbanos e Socioambientais; Segurança Pública e Acesso à Justiça; Educação e Direito à Saúde.
Cada eixo tem dois coordenadores e cada projeto, dentro dos eixos, tem um coordenador. Além disso, a gente tem três equipamentos: a Casa das Mulheres da Maré, a Casa Preta da Maré e o Espaço Normal, que trabalha com a população em situação de rua e usuários de álcool e outras drogas.
Há também setores transversais — como financeiro, comunicação, jurídico, operacional e logística, monitoramento e avaliação— que dão suporte a todo esse ecossistema. As decisões são discutidas coletivamente em reuniões semanais de gestão, e existe ainda uma área específica de incidência política, de advocacy, que trabalha para fazer com que isso se transforme em política pública.
A Eliana acompanha a Redes desde a sua génese, em 1980. Como vê a evolução até hoje?
Eu acho que a gente, ao longo do tempo, foi realmente aprendendo como fazer esse trabalho acontecer. É um trabalho que tem na sua essência a criação, a criatividade e inventividade, e vejo que hoje é um projeto bem consolidado, com formação de novas lideranças, coerência política e clareza sobre o seu propósito.
É uma organização que mistura esse lado de um ativismo pelas lutas, que ainda são importantes, com um lado muito profissional, formativo, tentando fazer um questionamento, sempre baseado em dados e informação, buscando não apenas denunciar os problemas, mas superá-los. E hoje a gente já vê resultados muito importantes e significativos. Na educação, por exemplo, ajudamos, junto com as 15 associações de moradores da região, a consolidar 46 escolas de ensino fundamental e ampliamos significativamente o acesso de moradores das favelas da Maré à universidade — que passou de menos de 0,5% para quase 4%.
A mudança estrutural só vem no tempo, ela não é uma coisa rápida. Então, eu tenho essa felicidade, essa alegria de pensar que vamos construindo as coisas dentro do tempo delas, e com todas as intempéries políticas do país, a gente se mantém ali, coerente com o nosso propósito. Vejo muito resultado nas pessoas, no que a gente provoca, na maneira como as pessoas nos veem, no conhecimento que produzimos.
Para um habitante da favela, o que tem hoje que não tinha em 1980?
O acesso à educação e ao trabalho que vamos fazendo junto com as associações comunitárias (cada favela tem uma), estudando o que precisa ser feito para que os direitos sejam efetivados.
Por exemplo, a gente tem um problema sério em relação à segurança pública, que é um direito que não se materializou ainda para moradores de favela. Em 2009, começámos um trabalho para que os moradores começassem a reportar sobre a violência que sofriam, porque até 2009 não tínhamos registos disso. Com esse trabalho, que tem que ver com a minha tese de doutorado, o que a gente percebe é que os moradores começaram a se sentir seguros para vir trazendo essa demanda. Então, hoje, mais de cem pessoas por mês vêm relatar as violências que sofrem para podermos atuar de forma estruturante.
Então há uma relação de confiança entre as pessoas, de saber que existe um processo que dá resposta aos problemas?
Totalmente.
O que podemos esperar da sua intervenção no Isto é PARTIS & Art for Change 2026?
Vejo muitas afinidades entre a experiência da Redes da Maré e o trabalho que a Fundação vem desenvolvendo em comunidades periféricas, especialmente na articulação entre artistas reconhecidos e produções locais. Esse encontro entre diferentes saberes e territórios é algo que também praticamos há muito tempo.
A experiência que a Redes da Maré vem fazendo é muito radical, no sentido dessa escolha histórica por fomentar direitos muito básicos, trazer uma perspetiva cidadã para os processos no campo dos direitos humanos. A arte faz parte dessa visão de cidadania e de direitos humanos. Espero que minha participação seja um espaço de troca, a partir do que a gente tem de comum nessa construção de reconhecer um protagonismo e um processo de criação que é tão invisibilizado historicamente.