“A democracia da cultura é como a sustentabilidade, só acontece à escala local”
Fala-se muito, nestes encontros, sobre o ajuste de expectativas, do sonho à realidade. Olhando para trás, para o primeiro ano do ATOS, o que vos surpreendeu mais e que tiveram de ir ajustando?
Narcisa Costa (NC): Não sei se falaria propriamente de uma adaptação — foi sobretudo um crescimento. Foi começar naquele primeiro ano de 2023, em que fizemos um mapeamento pelo território todo, e depois decidimos continuar a trabalhar esta temática de forma mais aprofundada, em 2024 com seis municípios, e, a partir de 2025, com quatro. Não havia uma ideia inicial fechada e pronta a implementar, foi um percurso que foi sendo construído, que tinha por base esta vontade de pôr e ver em prática exemplos de democracia cultural, da participação cívica e do envolvimento das populações nas linhas orientadoras da cultura dos seus territórios.
Começamos por levar artistas e coletivos que foram trabalhar nos diferentes territórios com quem lá estava; depois passamos para uma fase onde o trabalho com os artistas foi feito de forma mais continuada no tempo, com os agentes locais a ter uma ação mais forte, e, ao mesmo tempo, desenvolvemos este outro aspeto da reflexão, da conversa, de trazer esta temática da participação e da democracia cultural para a mesa de trabalho, de encontro das pessoas. E, depois, num passo a seguir, colocámos a tónica na vontade da sociedade civil. Ou seja, foi um caminho que se foi aproximando gradualmente destas iniciativas lideradas pelos cidadãos, dentro dos seus territórios.
Luís Sousa Ferreira (LSF): Foi um caminho de dimensão, de ajuste de escala, mas também de profundidade. Primeiro tivemos um trabalho superficial, no bom sentido da palavra, ou seja, de criar uma superfície alargada, de pele, sobre o país. E, depois, percebemos que as nossas questões não estavam aí. Não era a participação artística que era o problema, porque aí os projetos corriam sempre bem. Era o antes e o depois.
Era perceber porque é que, mesmo quando as pessoas se envolvem, gostam e querem mais, as coisas não continuam. Porque é que há essa “ressaca” de que se fala tantas vezes. Que condições faltam? Que estrutura precisa de existir para que a participação não se esgote naquele momento? E então, a cada ano, desenhávamos um novo desafio para tentarmos ter uma nova resposta, neste passo a passo. Sendo que neste último ano necessitámos de nos focar, porque sentimos que uma abordagem mais abrangente não iria resultar.
Porquê trabalhar com estes quatro municípios em particular (Loulé, Lamego, São João da Madeira e Funchal)?
LSF: Inicialmente selecionámos seis, tentando garantir uma representação das diferentes regiões (continentais e autónomas). Foram municípios que, no primeiro contacto, estavam interessados em aprofundar mais estas práticas, e que também tinham realidades muito diferentes. Porque, efetivamente, trabalhar num município que só tem uma freguesia, como São João da Madeira, é muito diferente das necessidades e questões do Funchal, por ser insular, mas também uma das maiores cidades do país, ou de Lamego, que tem um território muito mais rural, mais disperso e envelhecido.
Essa diversidade foi importante para percebermos que não existem soluções únicas. As necessidades são diferentes e, por isso, as respostas também têm de o ser.
Porque é tão importante este trabalho com municípios?
LSF: Porque a democracia da cultura é como a sustentabilidade, só acontece à escala local. O Estado central, e entidades como o Teatro Nacional D. Maria II ou a Fundação Gulbenkian, podem ser instigadores, promover programas, circulação, pensamento, mas é ao nível dos municípios que se consegue criar condições concretas para as práticas acontecerem. É aí que se trabalha com as comunidades, com os cidadãos. Aquela frase que eu estou sempre a citar do Zeca Afonso: ele dizia que a revolução cultural não era ir tocar a sua música a todo lado, mas ir a todo lado e ouvir a música de lá.
Nós nunca quisemos ir para os territórios numa lógica de substituição, procuramos sempre as estruturas culturais locais como parceiros mais óbvios, ou seja, os teatros, as casas de cultura e afins. O que tem sido interessante é exatamente essa relação entre diferentes escalas.
NC: E este trabalho implica também um movimento nosso de nos afastarmos do centro da ação. Porque, no primeiro ano, acho que é muito difícil sair desse lugar. Chegamos com dois nomes como o Teatro Nacional e a Gulbenkian a um território, e a primeira reação é: este é o projeto do Teatro Nacional e da Gulbenkian. Mas ao longo do tempo fomos trabalhando para que o projeto fosse cada vez mais apropriado por quem está no território. A ideia é apoiar, criar condições, disponibilizar ferramentas, mas que sejam os agentes locais a liderar.
O Luís referiu, numa das conversas, que as instituições culturais são “um mal necessário”, e que idealmente não existiriam. Podem explicar melhor esta ideia?
LSF: Há aqui uma provocação, não é? [risos] As instituições são importantes para tornar as coisas mais sustentáveis e perenes, mas a cultura tem outros tempos, e ela deve ser uma relação entre nós e a nossa comunidade, nós e o mundo, nós e a paisagem. O Hip-Hop não surgiu porque houve uma candidatura de uma instituição a pedir propostas, as coisas surgem porque as pessoas estão juntas, encontram-se, porque há um problema e tem de se criar soluções para ele.
As instituições muitas vezes interferem nessa lógica orgânica das coisas e, ao invés de serem um recurso, passam a ser um fim em si mesmas. Uma coisa é sermos como as instituições desportivas que têm de trabalhar para o alto rendimento e performance dos atletas; outra coisa é acharmos que só há atividade física se existir uma instituição a mediar essa atividade. A atividade física pode acontecer no jardim, num parque, na estrada, na rua. Há uma hiper-institucionalização da cultura que medeia, codifica, prioriza, cria estratos, o que também contribui para o afastamento de muita gente das práticas culturais.
Como é óbvio, as instituições têm de existir, e ainda bem que existem. Acho que têm é de perceber onde devem existir, onde devem focar o seu trabalho e como se devem relacionar com a sociedade, nunca em substituição.
NC: E isso liga-se à dificuldade que ainda temos em sentir a cultura como um direito. Parece que ainda procuramos validação nestas estruturas que ocupam o nosso imaginário, quando pensamos em cultura, e não como um direito nosso enquanto ser humano.
O que é, então, a Plataforma de Participação Cultural, que esperam que surja deste processo?
NC: A Plataforma da Participação Cultural pretende ser uma ferramenta de relação entre o poder local e a comunidade, para a participação dessa comunidade nas suas atividades e dinâmicas culturais. Não será igual em todos os territórios, porque cada uma vai responder às características específicas do seu contexto. Pode ter uma dimensão digital, mas também física – muito provavelmente, pelo que temos percebido, terá um formato misto.
Por um lado, pode disponibilizar informação muito prática: como organizar uma iniciativa em espaço público, que licenças são necessárias para apresentar um espetáculo, ou que recursos e espaços existem no município e podem ser utilizados. Esta sistematização da informação pode ser, já em si, uma importante ajuda, porque muitas vezes as pessoas não sabem por onde começar nem o que é preciso para organizar atividades culturais. Por outro lado, a plataforma irá também ajudar o município a colocar a participação no centro da sua estratégia cultural. Escutar as pessoas, as suas vontades, e contribuir para que possam ter mais agência e autonomia nas dinâmicas culturais.
LSF: Eu diria que é, acima de tudo, um espaço de redução de barreiras à participação. Participar não é fácil. Ter uma ideia e propor à comunidade é cada vez mais difícil. Vivemos num contexto muito individualista, qualquer entrave que exista funciona como um desincentivo. Se conseguirmos tornar mais claras as regras, os processos, os acessos, já estamos a facilitar. Mas a plataforma pode ir além disso: pode ser também um espaço de estímulo, de desafio, de propostas. Não apenas esclarecer, mas incentivar.
Olhando para o futuro, que impacto esperam que estas plataformas tenham?
LSF: A nível local, gostaria muito que, no mais imediato, tudo aquilo que foi levantado nestes anos tivesse alguma continuidade, ou seja, as pessoas estão despertas, criaram os fóruns, fizeram as formações, participaram nos projetos, e então esta plataforma poderá ser um espaço agregador e continuar a alimentar esta relação.
Além disso, outra coisa que é essencial é a criação de cena artística local, conseguir apoiar os artistas independentes, as associações, os coletivos que estão a surgir, para que eles sintam que estão num território onde as coisas acontecem, tão estimulante como um grande centro como Lisboa, o Porto ou outra capital da Europa. Isso seria fantástico como ponto de partida.
NC: E a nível mais amplo, gostávamos de criar exemplos concretos, porque quando falamos sobre democracia da cultura continua a ser uma ideia muito abstrata para a maior parte das pessoas. Se conseguirmos mostrar como é que esta ideia se coloca em prática, com casos reais, isso pode ajudar outros municípios, artistas e comunidades a seguir caminhos semelhantes.
Depois, acho que esta prática da participação é uma coisa que temos de exercitar mais. As pessoas precisam de perceber e sentir que a opinião de cada uma pode ter impacto, que pode contribuir para mudanças concretas, e que não precisam sempre das instituições para se organizarem.
Este processo também transformou a forma como trabalham dentro das instituições?
LSF: Muito. Este ATOS revolucionou a forma de trabalhar internamente no Teatro Nacional D. Maria II, o papel de cada um, os responsáveis por projeto, as regras de comunicação, esta lógica do vago e do incerto, do que vai ser feito em parceria com as entidades e com os participantes e de que só no final é que se sabe o que será apresentado. Tudo isto traz uma nova forma de trabalhar e de pensar a cultura dentro da instituição que tem sido revolucionária e desafiante.
As coisas muito organizadas e estabelecidas também não geram novidade e, se sentimos que há necessidades, que os números da ação cultural no país são péssimos, então temos de fazer alguma coisa diferente. Ver instituições tão grandes e pesadas a reinventarem-se e a tentarem novas formas de fazer as coisas, só por si já é uma mensagem muito positiva.
NC: E, no caso da Fundação, é importante poder correr riscos e poder fazer uma coisa que ainda não foi feita, que não sabemos exatamente o que vai ser. Todo este ATOS não foi levar para o território uma ideia que queríamos pôr em prática; foi escutar, perceber e ir adaptando, portanto só sabemos o resultado depois de acontecer. Acho que isso é o caminho para realmente construir algo novo e evoluir nesta relação da cultura com as pessoas.
O que é que fica destes encontros?
LSF: A rede. Era um desejo que todos tinham, estavam sempre a perguntar “Então, e os outros, o que estão a fazer, como é que estão?”. É importante criar esta interdependência, não só entre os técnicos de cada município, mas também entre os artistas, promover relações, procurar afinidades e desafios complementares.
NC: Este ano escolhemos um projeto por município que vai circular, vai realizar-se num dos outros municípios da rede, exatamente para fortalecer as ligações entre os municípios, e entre os agentes culturais. Neste encontro percebeu-se que essa dinâmica já está a gerar novos contactos e possíveis colaborações, com alguns municípios a mostrarem interesse em acolher outros projetos para além daquele que foi inicialmente selecionado. Portanto, acho que o nosso papel é mesmo colocar isto em movimento e criar as condições para estes encontros e dinâmicas acontecerem.
Sobre o ATOS
O ATOS é um programa criado em 2023 pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Teatro Nacional D. Maria II que visa estimular a participação cívica e artística das comunidades, reforçando o impacto das iniciativas de cultura democrática. Desenvolvido em parceria com municípios e estruturas artísticas, o programa percorre o país promovendo práticas artísticas participativas, reflexão sobre democracia cultural, formação e mentoria para agentes locais, contribuindo para a produção de conhecimento e para o desenvolvimento de políticas culturais mais sustentáveis e descentralizadas.