“Não tinha noção de que as notícias falsas eram tão falsas!”
“Eles não nos ouvem!”, queixavam-se os alunos que no ano passado frequentavam a aula de Filosofia do 11.ºB da Escola Secundária Almeida Garret – Vila Nova de Gaia, referindo-se genericamente aos decisores políticos. A professora, Maria Carlos, não perdeu a oportunidade e numa das aulas seguintes dividiu a turma a meio: de um lado, metade dos alunos simularia ser um conjunto de políticos prontos a ouvir; do outro, eleitores prontos a fazer perguntas, dar sugestões ou simplesmente apontar o dedo. No meio, haveria espaço para um debate alargado sobre todo o tipo de temas abordados.
Em pouco mais de nada, o feitiço virava-se contra o feiticeiro. Os alunos não tardaram a aperceber-se que não tinham assim tantas perguntas a fazer, talvez por falta de acompanhamento da atualidade. Também se aperceberam da falta de argumentos, de ambos os lados, para realizar um debate sério sobre assuntos mais quentes, como é o caso da imigração. Mariana e Leonor não gostaram de ouvir certas coisas de alguns colegas, nem de perceber que o que estava a ser dito não tinha qualquer “evidência que suportasse as suas opiniões”, e desta vez decidiram fazer mais do que encolher os ombros e seguir em frente.
Nem de propósito, Mariana tinha sido alertada, por uma prima que trabalha no Parlamento Europeu, sobre a existência de um concurso que era capaz de lhe interessar. Falava do Pinóquio na Escola, promovido pelo Polígrafo, com o apoio da Fundação Gulbenkian. Tratava-se de uma iniciativa que desafiava jovens do ensino secundário a criar conteúdos originais de combate à desinformação. Tinha o apoio da Direção-Geral da Educação, Representação da Comissão Europeia em Portugal, Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal e Agência Nacional Erasmus+ Juventude / Desporto e Corpo Europeu de Solidariedade e o prémio era uma viagem a Bruxelas. Mariana e Leonor não hesitaram. Falaram com a professora de Filosofia e, mesmo com exames nacionais à vista, lançaram-se no combate à desinformação.
O esforço valeu a pena?
O trabalho Imigração, problema ou oportunidade?, de Mariana e Leonor, foi um dos sete selecionados, de entre os 47 participantes. O prémio calhava bem. Mariana não conhecia Bruxelas e aquela era uma das hipóteses para prosseguir os estudos universitários.
Na viagem à capital belga, equipas vencedoras – dois alunos do secundário, acompanhados de uma professora, provenientes dos quatro cantos do país – viram de tudo: levantaram voo com militares espanhóis que combatem fogos florestais e prepararam-se para um terramoto, duas experiências proporcionadas por um sofisticado sistema de realidade virtual existente no Centro de exposições “Experience Europe”. A “viagem” virtual de que Carolina, antiga aluna do Externato Marista de Lisboa, gostou mais foi ver e ouvir a história de um rapaz do Quénia, que conseguiu estudar graças a um dos programas de cooperação da Comissão Europeia. “Não sabia que a União Europeia trabalhava nesses sítios!”, contou, entusiasmada com a descoberta.
Durante a viagem, estes “embaixadores da desinformação” também ouviram elementos da Comissão Europeia discorrer sobre o funcionamento das instituições, sobre política de migração (o tema com maior expressão nos trabalhos vencedores), sobre inovação, informação e desinformação. Foi-lhes explicada a diferença entre informação falsa e desinformação, entre migrantes e refugiados. E tiveram oportunidade de, equipa a equipa, apresentarem os seus trabalhos e receberem feedback.
Os alunos de Braga, por exemplo, tinham analisado um folheto com “narrativa extremista e informação falsa, que incitava ao ódio contra imigrantes”. Ouviram, do serviço de porta-voz da Comissão, que uma estratégia de desinformação geralmente recorre a temas que geram controvérsia e que muitos são explorados pela parte emotiva. A estratégia certa, perceberam, é ser proativo na passagem de informação, sobretudo quando se trata de temas controversos.
Ouviram ainda que a exposição prolongada deste tipo de narrativas nas redes sociais é perigosa, porque os jovens não se questionam e porque as redes sociais não estão sujeitas a um código deontológico, como acontece com a comunicação social. Daí a importância de questionar, de procurar mais informação, de ter argumentos sólidos e fundamentados. Daí a importância da literacia mediática, que é a base da iniciativa Pinóquio na Escola. E antes de prosseguirem a visita, ouviram que “este tipo de ações é uma salvaguarda da democracia, que é de todos. Vocês são os guardiães da democracia.”
As várias facetas da informação
Além das aprendizagens de todas as palestras a que assistiram, viajar com equipas de outras partes do país foi útil em termos de confronto com a diferença. E em termos de (des)informação, há muitas diferenças entre todos: a realidade é diferente para quem vive num centro urbano ou no interior, tal como é diferente se se é jovem ou mais velho… Maria e Francisca, residentes na Madeira, estão a hora e meia de avião do território continental, mas é da equipa de Lousada que se ouve falar mais de distância: “estamos tão perto do Porto e tão longe de tudo…” As alunas de Serpa garantem que a desinformação circula menos no interior, mas em Braga foi amplamente divulgado um folheto com narrativa extremista e falsa, que serviu de base ao trabalho dos alunos.
Há quem sinta que no interior se está menos preparado para lidar com desinformação. E parece haver consenso sobre o facto de a idade fazer a diferença, em termos de consumo de informação: numa discussão de grupo, discutia-se que se os jovens recebem mais informação, também são mais influenciáveis, mais ingénuos, e o facto de consumirem informação mais rapidamente inibe um pensamento mais aprofundado sobre as coisas.
Depois desta experiência, têm ideias claras sobre o que fazer. “Não tinha noção de que as notícias falsas eram tão falsas!”, conta Carolina. “Às vezes é o contrário do que dizem!” Agora, tanto Carolina como os restantes alunos sabem como o evitar e combater a desinformação. Vão passar a mensagem a outros alunos. Mariana e Leonor, em Gaia, já têm uma apresentação feita para mostrar na sua escola. Todos estão convencidos a “usar mais o espírito crítico, a não tomar, à partida, a informação como verdadeira.” A experiência do Pinóquio na Escola, contam, “vai ser um guia para o futuro; inspira-nos a ser pessoas que queiram tornar o mundo um lugar melhor”.
A segunda edição do Pinóquio na Escola já está em curso, com várias novidades (uma delas é ter sido alargado a alunos do 3.º ciclo de escolaridade).