“Amo as destruições pela procura”
Marcelino Vespeira e a Fundação Calouste Gulbenkian
O primeiro contacto de Marcelino Vespeira com a Fundação Calouste Gulbenkian ocorreu em janeiro de 1957, quando este se dirige ao seu presidente, José de Azeredo Perdigão, também responsável pelo pelouro das Artes, solicitando uma bolsa de estudo em Pintura.
Com apenas 31 anos apresenta já um curriculum significativo como pintor, com participação em exposições em Portugal, Inglaterra, Brasil, Moçambique e na Suíça e ilustrações em livros, jornais e revistas. Não obstante, na carta que dirige a Azeredo Perdigão refere que precisaria “para melhor aproveitamento das suas possibilidades artísticas e desenvolvimento das suas qualidades técnicas de se ocupar exclusivamente de trabalhos de pintura”, sem depender dos trabalhos gráficos para lhe garantirem o sustento.
Essa dedicação plena, acredita, só se tornaria possível com “o auxílio da Fundação Gulbenkian que, por várias maneiras, tem manifestado o propósito de proteger e fomentar todas as actividades artísticas”. Apesar do pedido vir acompanhado de uma carta de recomendação do escultor Diogo de Macedo, então diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea, a bolsa não é concedida, com o argumento de não haver ainda uma política definida para a concessão de apoios no domínio das Artes.
A oportunidade viria, contudo, a surgir ainda nesse ano de 1957, quando a Fundação organiza a sua primeira grande iniciativa no domínio das Artes, a I Exposição de Artes Plásticas, que se realizaria em dezembro na Sociedade Nacional de Belas Artes, para a qual convida os artistas a apresentar candidatura nas categorias de Pintura, Escultura, Desenho e Gravura. Para além de estimular a criação artística, a exposição tinha também o propósito de distinguir os participantes e premiar os trabalhos que se destacassem pela sua qualidade e mérito artístico.
Vespeira apresenta então a sua candidatura, com as obras Óleo 104, e 5 inéditas – Óleo 105, Guitarrada, e 3 desenhos da série Ritmo –, tendo sido admitido nas categorias de Pintura e Desenho. Deste lote, apenas um desenho é excluído pelo Júri para a Admissão de Obras. Não foi, porém, premiado no concurso promovido no âmbito da exposição. Ainda assim beneficiou de outras oportunidades proporcionadas aos participantes na Exposição, designadamente do acesso a fundos constituídos pelo Conselho de Administração para apoiar os artistas participantes, quer através da concessão de bolsas de estudo, quer da aquisição de obras.
É neste contexto que, no início de 1958, a sua obra Óleo 105 (1957) é adquirida para a embrionária coleção de Arte moderna e contemporânea da Fundação e é também, finalmente, concedida ao artista a desejada bolsa destinada ao estudo e aperfeiçoamento em Pintura durante 8 meses, dos quais 5 em Portugal e os restantes 3 no estrangeiro. É ainda atribuída uma bolsa adicional à sua mulher, a pintora Albertina Mântua, para o acompanhar.
Vespeira usufrui da bolsa em Portugal entre agosto e dezembro de 1958. No relatório enviado à Fundação, em janeiro de 1959, agradece os recursos disponibilizados: “o material adquirido correspondeu às minhas exigências oficinais, para que os trabalhos tenham a qualidade que toda a obra artística deve ter para ser considerada válida. Tive o prazer de pintar em tela e não sentir a falta duma cor, no momento em que o quadro a desejava”. E conclui: “quanto ao aproveitamento artístico – os óleos e as têmperas que executei neste período – falam melhor do que todas as palavras que possa escrever”.
Enquanto decorre a bolsa, é convidado pelo Grupo Pró-Évora a integrar a Missão Internacional de Arte – uma iniciativa sugerida pelo pintor Júlio Resende e realizada em Évora, com o propósito de “reunir artistas plásticos de várias nacionalidades durante um período determinado para, em contacto pessoal e artístico, elaborarem trabalhos de inspiração local com destino a uma exposição de encerramento”.
Para a sua concretização contribuiu a “Fundação Calouste Gulbenkian, cujo substancial e generoso subsídio deu seguras possibilidades de realização”, como sublinha António Bartolomeu Gromicho, presidente do Grupo Pró-Évora. Vespeira viria a considerar esta iniciativa essencial para o desenvolvimento da sua atividade artística.
Findo o período de bolsa em Portugal, o artista solicita a sua prorrogação. Maria José de Mendonça, responsável pelo Serviço de Belas Artes e Museu, é designada para a validar, tendo em conta o trabalho realizado pelo bolseiro.
Escreve no seu parecer: “Vespeira é um jovem artista honesto e com talento; conviria a Fundação dar-lhe esta oportunidade de realizar o que ele deseja – encontrar um caminho e formar a sua personalidade”. E ainda: “o que me foi dado a examinar dos trabalhos a óleo, têmpera e gouache mostra, conforme já o tinha verificado nas exposições da [Sociedade Nacional de Belas Artes] e da Missão de Évora, um progresso nítido na estrutura da composição e no enriquecimento da cor”. Conclui recomendando que “a Fundação desse essa oportunidade ao artista que a merece plenamente”.
A bolsa, na sua vertente nacional, é prorrogada por mais seis meses, entre março e setembro de 1959.
Inicia, posteriormente, a bolsa no estrangeiro, tendo em vista a “observação das obras dos Mestres da pintura antiga e moderna, em museus, em exposições, em eventuais visitas a ateliers e centros artísticos” em importantes centros culturais da Europa: Madrid, Toledo e Barcelona, em Espanha; Roma, Orvieto, Perúgia, Assis, Arezzo, Florença, Siena, Veneza, Pádua, Verona, Mântua e Milão, em Itália; Berna e Basileia, na Suíça; Amesterdão, Harlém, Haia e Roterdão, nos Países Baixos; Antuérpia, Bruxelas, Bruges e Gante, na Bélgica; e Paris, em França.
Vespeira faz o balanço da sua evolução artística no relatório de bolseiro que envia à Fundação em fevereiro de 1960: “No período de 11 meses (5 e depois mais 6 meses) que me foram dados, para trabalhar aqui em Lisboa – a minha pintura ganhou maior dimensão e o gosto e trabalho oficinal foram ampliados. Apesar de ter de recorrer a ganhar dinheiro em trabalhos gráficos, todo o tempo que me foi possível – foi dedicado a cumprir a minha responsabilidade como bolseiro. E assim, realizando-me mais como pintor, afastei-me mais dos meus habituais trabalhos gráficos (…) Tenho mais quadros em casa e o desejo de pintar e realizar-me como pintor tornou-se mais sentido e grave”, conclui.
A propósito da bolsa no estrangeiro, Vespeira faz uma reflexão interessante sobre o impacto da viagem na sua atividade artística: “Hoje, tenho a consciência plena do que já sentia: – esta viagem ou outras semelhantes já deviam ter sido feitas há alguns anos. Só agora, nos foi possível com a bolsa que nos foi concedida. Foi maravilhosa e estamos muito gratos à benemérita Fundação Gulbenkian, mas reconheço que já tenho 34 anos e o sentimento de angústia pelo que poderia ter feito, é agora – mais grave. Os olhos cultivar-se-iam mais cedo, diante das maravilhas, só agora vistas – e o sentido actuante que essas visões têm, teriam sido mais oportunas e benéficas. Teria mais capacidade de recepção, embora menos de apreciação. Faria mais asneiras, mas hoje seria com certeza – mais livre”.
E conclui: “Felizmente que as mãos tinham saudades dos pinceis e comecei a pintar e destruir. Amo as destruições pela procura”.
A Fundação viria ainda a adquirir ao artista as obras Óleo 130 (1960) e Óleo 131 (1960), realizadas no período pós bolsa.
A relação com a Fundação consolida-se nesse ano, quando, a convite de Madalena de Azeredo Perdigão, diretora do Serviço de Música e mentora dos Festivais Gulbenkian de Música, é chamado a criar o cartaz do IV Festival Gulbenkian de Música, com a orientação do pintor Bernardo Marques, diretor gráfico da Colóquio: revista de artes e letras e “consultor da Fundação em matéria de artes gráficas”.
O êxito da peça gráfica marca o início de uma colaboração regular entre Vespeira e a Gulbenkian, especialmente com o Serviço de Música. Entre 1960 e 1967, o artista é responsável pela imagem gráfica dos Festivais Gulbenkian de Música, da 4.ª à 11.ª edição.
O grafismo desenvolvido neste período revela influências modernistas e, sobretudo, da Optical Art (Op Art), caracterizada pela criação de ilusões óticas através de padrões geométricos, contrastes fortes e efeitos visuais que remetem a sensações de movimento ou profundidade. As peças gráficas concebidas para o 10.º e 11.º Festival constituem os exemplos mais representativos dessa abordagem.
Ainda no contexto dos Festivais, é responsável pelo grafismo dos materiais das exposições Evocação de Beethoven (1960) e Jean-Philippe Rameau (1965).
Cartazes, catálogos, brochuras e folhetos exibem um design marcante e de forte impacto visual, tendo sido produzidos em parceria com gráficas de referência, como a Litografia de Portugal e a Neogravura, fundamentais em todo o processo de composição e impressão.
No final de 1961 participa na II Exposição de Artes Plásticas, concorrendo na categoria de Pintura com 3 obras inéditas: Prometheu (Óleo 154), Gira-Sol (Óleo 160) e Gira-Lua (Óleo 161).
As obras são apresentadas nas modernas instalações da Feira Internacional de Lisboa, onde permanecem expostas até janeiro de 1962. Vespeira ficaria, mais uma vez, excluído do lote de artistas premiados. Desta vez a Fundação Gulbenkian não adquire nenhum dos seus trabalhos. Mas, em janeiro de 1962, Artur Nobre de Gusmão propõe, com sucesso, a Azeredo Perdigão a aquisição da obra Óleo 170 (1961), que considera “solidamente construída e capaz de bem representar o pintor em futuras exposições itinerantes que a Fundação Calouste Gulbenkian venha a organizar”.
Paralelamente, assume, a convite de José de Azeredo Perdigão, por sugestão de Reinaldo dos Santos, Hernâni Cidade e António da Costa Isidoro, a direção gráfica da Colóquio: revista de artes e letras, sucedendo a Bernardo Marques, entretanto falecido. Entre finais de 1962 e finais de 1966, o artista encarrega-se do design gráfico de vinte edições da publicação (do n.º 21 ao n.º 41). Renova a identidade visual da revista, modernizando o seu design, sem comprometer, contudo, a linha editorial estabelecida por Bernardo Marques.
Uma nova oportunidade surgiria ainda em junho de 1964, quando integra a comitiva dos artistas portugueses convidados pela Fundação a visitar a exposição 54-64: Painting & Sculpture of a Decade, patente na Tate Gallery, em Londres, com o objetivo de oferecer aos participantes uma visão abrangente dos mais recentes desenvolvimentos e tendências da Arte contemporânea internacional, com particular destaque para a pintura e a escultura.
Em finais de 1965, o artista é convidado a assumir a direção gráfica da monografia Instrumentos musicais populares portugueses, do etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira, a editar pela Fundação, desafio que acumulará com a direção gráfica da revista Colóquio e dos Festivais Gulbenkian de Música.
No ano seguinte, com um percurso já reconhecido, é designado representante da Sociedade Nacional de Belas Artes na comissão de seleção das obras para a exposição Bernardo Marques. Obras de 1950 a 1960.
Ainda em 1966, tem lugar a iniciativa A Week of Culture and Art in Baghdad – a Semana Cultural de Bagdade –, organizada pela Fundação na capital iraquiana, no contexto da inauguração do complexo desportivo do Estádio Al-Sha’ab (“do Povo”), estrutura doada pela Fundação ao Iraque.
Vespeira é convidado pelos Serviços de Belas Artes e do Médio Oriente a conceber a maquete do cartaz e da brochura do concerto de música, o que fará numa abordagem estética claramente Op Art, em linha com a que desenvolvia, nesta época, para os Festivais Gulbenkian de Música.
Sobre esta maquete escreve Carlos Wallenstein, do Serviço de Belas Artes, a Robert Gulbenkian, administrador com o pelouro dos assuntos do Médio Oriente: “[Vespeira] terá encontrado uma boa solução para o difícil problema daquele cartaz, que exigia alusões a coisas tão diversas como o estádio e o museu e, ainda, às actividades culturais em curso. Ele fez uma composição que pela forma lembra um estádio; pelas cores qualquer coisa ligada à Arte oriental; pelo estilo uma chamada à Arte contemporânea. Para quem não quiser descobrir no desenho estas ligações, o cartaz funciona perfeitamente como tal e, uma vez colocado, é difícil não vê-lo.”
Em finais de 1966 abandona a direção gráfica da Colóquio, na sequência de divergências com a direção artística e literária da revista. Tal não interrompe a sua relação com a Fundação.
Ainda em 1969 recebe uma última encomenda gráfica do Serviço de Música para um cartaz promocional para o Grupo Gulbenkian de Bailado, mais tarde Ballet Gulbenkian. A expressão estética do cartaz evidencia, uma vez mais, a influência da Op Art, que caracteriza a sua produção gráfica neste período.
Anos mais tarde, Vespeira veio a conceber uma versão adaptada desta proposta para integrar a brochura dos espetáculos da Temporada de 1975 daquele agrupamento artístico.
Em fevereiro de 1980, a constituição de uma Comissão de Compras para a seleção e aquisição de obras para a coleção do Centro de Arte Moderna (CAM) marca uma nova fase de aquisições de obras a Vespeira.
Na primeira reunião para decisão sobre as aquisições, realizada a 14 de março de 1980, José Sommer Ribeiro, diretor do Serviço de Exposições e Museografia, apresenta uma lista de obras que Marcelino Vespeira se dispunha a vender, apresentadas em janeiro desse ano na mostra Acta Médica Portuguesa. Cinco Exposições Individuais de Cargaleiro, Cruzeiro Seixas, Nikias, Pomar, Vespeira, na qual o artista participara com 32 colagens e uma serigrafia.
A Comissão de Compras decide adquirir as “6 colagens, cujo conjunto se intitula Família Azulejamor, que documentam uma nova fase criativa, depois de muitos anos sem ter pintado”. O conjunto, realizado em 1978, inclui: Azulejamor Avô José Vespeira, Azulejamor Avó Margarida, Azulejamor Avô Marcelino, Azulejamor Avó Conceição, Azulejamor Pai e Azulejamor Mãe.
Posteriormente, o artista acabaria por doar à Fundação um exemplar da sua única serigrafia patente na mostra – Luzúbrica (1979).
Em meados de 1982, Vespeira propõe à Gulbenkian a compra de algumas das suas obras mais relevantes, algumas das quais haviam integrado a exposição Os anos 40 na Arte portuguesa, organizada pela Fundação nos inícios desse ano. A proposta incluía os óleos Apertado pela fome (1945) e Simumis (1949), um desenho a tinta-da-china sem título (1951), a escultura O Menino Imperativo (1952), o guache Ex-Voto-Maria (1979) e o conjunto de nove desenhos a lápis de cera Musagrafia nove (1980).
A Comissão de Compras emite parecer favorável à aquisição, destacando a importância “destas obras fundamentais quer do neo-realismo, como é o caso do Apertado pela fome, quer do surrealismo – Simumis e Menino Imperativo (manequim)”.
Azeredo Perdigão autoriza a compra do lote, com exceção do conjunto Musagrafia nove, que só viria a ser adquirido mais tarde, em meados de 1984. Nesta altura, é ainda incorporada na coleção de arte do Centro de Arte Moderna a serigrafia Abrilimagem (1980).
No verão de 1986, Vespeira participa na III Exposição de Artes Plásticas, naquela que será a sua última interação significativa com a Fundação Calouste Gulbenkian. É admitido na categoria de Pintura com o óleo Signa Moiramar, concebido nesse ano, e submete também Aparecer Vulvar, de 1984, à categoria de Desenho que, porém, é recusado pelo Júri de Admissão e Premiação. Nesta, como nas edições anteriores, não foi premiado.
Ao longo de quase três décadas, Marcelino Vespeira construiu uma relação profunda e multifacetada com a Fundação, marcada por momentos de apoio institucional, colaboração artística e reconhecimento.
Seja como bolseiro, artista plástico ou gráfico, Vespeira deixou uma marca singular na história da Fundação, que soube valorizar o seu trabalho – visível na diversidade de colaborações artísticas e na integração das suas obras na coleção de arte do Centro de Arte Moderna. Esta relação duradoura testemunha não apenas a versatilidade do artista, mas também o papel da Fundação como agente dinamizador da criação artística em Portugal.