“Notaram que tinham jeito para determinadas coisas e investiram nisso.”
“Eu não sabia a dimensão que isto tinha,” resume Francisco Santos relativamente ao fim de semana e ao novo programa Explora Talento. Este jovem de 15 anos, participante medalhado nas Olimpíadas nacionais de Física, junta a paixão pela Física à da viola de arco, que tem desenvolvido no Conservatório de Coimbra. Esta vontade, que lhe é tão natural, de explorar, em simultâneo, uma ciência dura e “uma forma muito pura de exprimir os sentimentos” foi o que o trouxe à Fundação Gulbenkian para este bootcamp de três dias.
Da Física à Filosofia, todos os alunos presentes na sala têm lugar de destaque no circuito das Olimpíadas portuguesas. Mas não é apenas o seu desempenho académico, nem a natureza competitiva, que os levou a ser escolhidos. Henrique Leitão, um dos membros da Comissão Científica do Programa, realçou a vontade dos jovens em estar aqui, já que “notaram que tinham jeito para determinadas coisas e investiram nisso”, o que constitui uma revelação das suas habilidades: “exploraram os vossos talentos. E é disso que se trata.”
Tivessem nascido noutro país, como os Estados Unidos da América, e poderiam ter sido identificados logo no 1.º ano, transferidos do ensino generalizado para escolas especializadas que funcionam como centros de talento, e estariam a ser desafiados por um programa mais exigente e aulas de nível universitário. “Todos vós estariam a ser mais desafiados do que estão neste momento,” disse Luís Plácido dos Santos, Diretor do Serviço de Educação e Ciência da Fundação. “É para isso que serve este programa.”
“Encontraram a vossa tribo”
Durante três dias, estes 20 jovens foram desafiados a sair da sua zona de conforto, a discutir pensamento crítico e ciência molecular, a encenar peças de teatro, a partilhar fórmulas matemáticas favoritas e a estudar artigos científicos. Em simultâneo, conheceram convidados especiais como José Maria Pimentel, do podcast 45 graus, o comentador político Miguel Morgado ou Maria Manuel Mota, diretora executiva do Gulbenkian Institute from Molecular Medicine, entre muitos outros.
Fruto do contacto e da colaboração que o bootcamp incentivou, o grupo descobriu pessoas com interesses e vivências diferentes dos seus, mas também afinidades entre mentes tão dispostas a ensinar como a aprender. Maria Manuel Mota comparou-os a esponjas novas que absorvem tudo o que é conhecimento. Já Pedro Tochas, antigo bolseiro Gulbenkian, partilhou com eles que se revia no momento em que, com a ajuda da Fundação, se encontrou numa escola de palhaços em Londres: “vocês encontraram a vossa tribo, como eu encontrei a minha.”
Inês Borges Correia, de Aveiro, confirma: “fiz amigos que parece que os conhecia há anos e só os conheço desde sexta-feira.”
Preparar os cidadãos de amanhã
Os convidados que vieram contar a história das suas vidas, responder a perguntas e partilhar aprendizagens, tinham perfis e mensagens diferentes, mas os jovens repararam rapidamente que havia temas comuns.
Sérgio Sousa Pinto, comentador político, apelou aos jovens para que não deixem de se interessar por temas fora da sua área. A filosofia, a literatura e a poesia, afinal de contas, são caminhos importantes para uma educação integral e para formar seres humanos com um sentido de empatia e responsabilidade cívica. Também Miguel Morgado insistiu na importância de acumular conhecimento: “A vida intelectual é uma mansão enorme, com divisões infinitas. Então construam essa casa antes de ir viajar, para depois poderem sempre lá voltar.”
Outros oradores ilustraram como a educação tradicional nem sempre é o caminho para uma carreira excecional. Exemplo disso é Pedro Tochas que trocou a Engenharia Química por uma Academia de Artes Circenses e agora viaja pelo mundo a fazer espetáculos. Ou Iva Barbosa, 1.ª solista na Orquestra Gulbenkian e professora na Academia de Música de Lisboa, que congelou as cadeiras do curso de Comunicação Social e se dedicou à música: “eu percebi que só era feliz a fazer aquela coisa.”
Gabriel Varela, de 14 anos, ficou a pensar nisso. O que achou mais interessante destes oradores, disse, foi ter visto que “a vida nem sempre é um caminho linear.”
Cada um dos bolseiros tem agora 1 500€ para investir no seu crescimento pessoal, formação académica ou outro tipo de formação.
Rafael Pinto, 16 anos, do Porto, que se apresentou ao grupo com o lema “o homem é um animal político”, já sabe que vai investir a bolsa em livros – “há obras que em Portugal não existem” e “manuais de interpretação”. Leonor Inês Branco de Castro, 15 anos, de Coimbra, vai procurar cursos de programação e cursos de Física na Universidade do Porto.
O programa Explora Talento, que decorre até julho de 2026, é mais do que o bootcamp e a bolsa. Além de procurar estimular intelectualmente estes jovens, e de os incentivar a explorar aquilo que Calouste Gulbenkian descreveu como sendo a tão essencial “formação geral, literária, científica”, o programa tem ainda um clube de leitura onde irão analisar Fahrenheit 451 e O Triunfo dos Porcos, duas obras relevantes para o mundo atual. Haverá também quatro workshops de Pensamento Crítico com José Maria Pimentel, que relembra como é importante parar para pensar e ter as ferramentas certas para perceber o que estamos a ver: este é “o grande desafio de um mundo online.”
As palavras, a branco sobre um fundo laranja, projetadas na sala onde se reuniram nestes dias, resumiam bem o grande desafio deste programa: “preparar os cidadãos de amanhã.”