Pequenos passos que mudam vidas

No Centro de Estudo Gulbenkian do Zambujal, os alunos aumentam as notas, mas também a concentração, a disciplina, o método, a motivação e a visão de um futuro melhor.
27 abr 2026 8 min

Entra um miúdo. Minutos depois entra um segundo e logo a seguir um terceiro. É hora de explicação, no Centro de Estudo Gulbenkian.

À porta, Ana Paula coordena as chegadas, distribui indicações, gere pequenos detalhes que fazem o sistema funcionar: “a Lara já está na sala. Vai lá ter”; “a Ângela ainda não chegou, mas podes esperar lá em baixo”; vai buscar “um quente, um frio e um sem”, referindo-se ao leite que cada um prefere pôr nos cereais, ao lanche.

Assistente social, funcionária da Cooperativa Cooperactiva, onde funciona o Centro, de que é gestora, Ana Paula Silva conhece cada aluno. Fala com as mães, à chegada, e liga-lhes quando é preciso recordar que “amanhã é dia de explicação”. Sabe da evolução das notas e o estado de espírito de cada um. Gere horários num quadro cheio de post-its, “senão era impossível” – e a presença dos 23 alunos, articula professores e mentores, faz a ponte com a escola e com a Fundação Gulbenkian, promotora do projeto. E ainda trata, além dos lanches, das outras atividades que vão surgindo – uma ida ao Jump Yard com os mais novos, um concerto no Grande Auditório da Gulbenkian, uma visita ao CAM com os mais velhos, durante a pausa letiva da Páscoa, a visita de alunos de Física do Instituto Superior Técnico e o que mais surgir.

Só com post-its, de várias cores, se consegue gerir a máquina por trás do Centro de Estudo Gulbenkian do Bairro do Zambujal © Márcia Lessa

Naquela quarta-feira, teve de improvisar. Os mentores, todos bolseiros Gulbenkian, todos estudantes universitários, cancelaram em cima da hora. A faculdade mudou-lhes os horários. Augusto nunca foi a nenhuma sessão com os mentores, mas Tiago incentiva-o: “Tens de ir. É mesmo fixe. Conversam contigo, dão-te conselhos”. Falam de escolhas, de possibilidades, de futuro. Partilham experiências, transmitem motivação, explica ao amigo que, no 9.º ano, ainda não sabe o que fazer no ano letivo que se avizinha. A maioria dos miúdos do Bairro é encaminhado para o ensino profissional, conta Ana Paula. Mas nem todos. Tiago sabe que quer ir para Artes, mas Augusto ainda hesita – “sempre quis ir para contabilista ou advogado. Mas agora já não sei.”

O “agora” é o momento em que terá de decidir. Mas é também o contexto – desde que frequenta o centro de estudo.

“Com trabalho duro chego lá”

Sem sessão de mentoria, Augusto passou pela sala onde alunos do núcleo de Física do Instituto Superior Técnico (IST) faziam experiências com os alunos. A visita surgiu por acaso, num encontro, na Fundação Calouste Gulbenkian: Pedro, mentor no Centro de Estudodo Bairro Padre Cruz e aluno de Física no IST, propôs a Ana Paula, gestora do Centro do Zambujal, que futuros físicos pudessem fazer experiências com os mais novos, cativando-os para aquela área do saber. Ana Paula não perdeu a oportunidade.

Muito atento à experiência sobre eletromagnetismo, Augusto não parou de fazer perguntas sobre plasma, volts e amperes, átomos, energia e fusão nuclear. Ninguém diria que luta para ter positiva a matemática. “No ano passado tive 10 sobre 100. No último teste tive 40. E no que fiz hoje já tenho positiva de certeza!”, diz, orgulhoso. Olha para Tiago, que acabou todas as fichas de inglês muito antes dos colegas, e justifica-se: “Acho que sou mais lento, mas com trabalho duro chego lá!” Augusto quer aproveitar a oportunidade que lhe deram, quer ir mais longe do que os pais, que não estudaram. E, sobretudo, quer “ser um exemplo para os irmãos mais novos”.

Na sala, Lara Azeitona – a jovem engenheira aeroespacial que, enquanto acaba a tese, no Técnico, dá explicações a quatro turmas – incentiva-o e tira-lhe todas as dúvidas. Ali, não há vergonha de fazer perguntas. As explicações têm apenas três alunos, geralmente com o mesmo nível de conhecimento. E quando o nível não é o mesmo, todos se ajudam. Tiago ajuda Augusto em Inglês. Não teve a disciplina durante vários anos, na escola, mas a música e os filmes deram-lhe traquejo suficiente para não descer dos “90 e tal por cento”. Nas outras disciplinas anda nos 80%. A Matemática e a Português, onde Tiago tem mais dificuldade, tem vindo a melhorar bastante as notas e quer “aumentar bem mais”.

Deixar de ser invisível

Os Centros de Estudo Gulbenkian nasceram no fim de 2025 em três bairros emblemáticos da Grande Lisboa – Bairro Padre Cruz, Bairro do Zambujal e Vale da Amoreira –, onde as taxas de insucesso e de abandono escolar ultrapassam a média nacional. Em muitos casos, às fragilidades socioeconómicas das famílias juntam-se dificuldades no acompanhamento escolar dos filhos, no apoio às aprendizagens e aos trabalhos de casa.

Os centros pretendem contrariar esta realidade, oferecendo explicações a grupos de três alunos, com professores de Português, Matemática e Inglês; mentoria; e atividades culturais e de descoberta, fora do bairro. Por outras palavras, os centros procuram garantir apoio especializado, acompanhamento personalizado e estímulo à ambição académica, mostrando que, também nesses territórios, há potencial a ser explorado.

O centro do Zambujal tem 23 alunos, do 4.º ao 12.º ano de escolaridade, todos do Agrupamento de Escolas Almeida Garrett, todos moradores no Bairro. O projeto não existe, segundo Ana Paula Silva, para “colmatar as dificuldades das escolas [onde a falta de professores é apenas um exemplo], mas para potenciar os alunos que, apesar das dificuldades, podem ser alunos de mérito.”  Existe, explica, para os alunos “invisíveis” passarem a ser reconhecidos, para aqueles que nem são abrangidos nem por medidas adicionais de apoio ao estudo na escola por não estarem em condições de reprovação, nem são captados por programas de promoção do mérito.

Ana Paula está atenta: ao aluno do 4º ano que lhe pediu para ir todos os dias, ao outro que só precisa de um empurrão para continuar a estudar, atenta a Maiara e Inês, que frequentam o ensino profissional e precisam de uma ajuda extra para entrar na faculdade. Maiara nunca teve Filosofia e, em oito meses, tem de estudar a matéria de dois anos para entrar em Direito; Inês, por seu lado, investe nas Matemáticas Aplicadas às Ciências Sociais para se candidatar a Psicologia.

Prognósticos? Só no fim do ano

Nicole, uma aluna de “suficientes”, já só tem 4 e 5, assinala Ana Paula. “E ainda discute as notas!” A mãe, Tânia, está muito contente com o resultado. E espera que o futuro seja mais risonho para Nicole do que foi com ela. Tânia começou Contabilidade, mas “questões financeiras” obrigaram-na a deixar a licenciatura. Agora, aos 35, voltou a estagiar, o que é bem melhor do que estar no desemprego, onde foi parar “depois de ter tido um bebé”, conta. Esperança é o ar que se respira, no centro.

António Mota trouxe cenouras e rabanetes. “O ‘stor’ viciou-me em cenouras!”, diz Nicole, antes de abrir o caderno de Matemática. O quadro está dividido em dois: em baixo, volumes para Nicole; em cima, expressões numéricas para o Diego. Kevin ficou em casa, doente…

António candidatou-se a dar estas aulas porque gostou do projeto. Conhecia o bairro e já tinha estado ligado à Orquestra Geração, projeto da Câmara da Amadora apoiado desde a primeira hora pela Fundação Gulbenkian. Dá aulas num colégio privado e os desafios são diferentes: não é só o barulho e a atenção em sala de aula; “aqui, as crianças querem estar e estão bem. Sente-se a disponibilidade, o agradecimento. O retorno emocional é muito maior.” Poucos meses passados, os resultados já são evidentes na atitude, na forma de apresentar as contas, no material que já trazem para a explicação. E “Nicole, por exemplo, está a ter ‘muito bons’ seguidos!”

Apesar das reservas em apresentar resultados, sente-se que Ana Paula já coleciona vitórias: nas notas de Nicole; no aluno do 6.º ano que “tinha tudo negativas e está, quatro meses depois, com quase tudo positivas”; naquele que passou a ser aluno de mérito (“a mãe até pôs no Instagram!”), em Délcio, que estava hesitante e acabou por se inscrever nos exames nacionais.

Ana Paula Silva, gestora do Centro de Estudos Gulbenkian, coleciona vitórias © Márcia Lessa

É na escola que obtém estes resultados. Mas é no centro, esse espaço tranquilo e seguro, onde podem fazer todo o tipo de perguntas, as vezes que forem necessárias, onde os explicadores não faltam, onde é possível personalizar o ensino e criar relação, que se vivem as vitórias diárias e se perspetiva um futuro onde as oportunidades sejam iguais para todas as crianças e jovens, independentemente do seu contexto.

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.