«Esperança face ao colapso»

Como se pode continuar a imaginar esperança num mundo atravessado pelo colapso?

Jamil Parasol Osmar 21 jul 2026 6 min
Novas leituras
O curador Jamil Parasol Osmar conduz-nos numa viagem através da exposição online «Esperança face ao colapso», selecionando obras da Coleção do CAM para contar uma história. Não dá respostas fáceis, mas faz-nos sim pensar sobre como a esperança pode ser frágil e como podemos encontrar novas maneiras de renová-la.

Esperança Face ao Colapso é uma exposição online construída exclusivamente a partir de obras da Coleção do CAM. O projeto desenvolve-se como uma aventura textual, guiando-nos através de uma narrativa densamente intrincada, moldada pelas obras de Manuel Botelho, Doris Salcedo, Fernando Pereira, Nuno Calvet, Ângela Ferreira, Jorge Molder, Eduardo Nery, Filipa CésarHamish Fulton. Num mundo dominado pela ansiedade, instabilidade e esperança fraturada, esta experiência convida à reflexão sobre a morte, a liberdade, o isolamento e o vazio de sentido. Entre imagem e texto, beleza e colapso entrelaçam-se, oferecendo não respostas, mas um espaço onde a esperança é questionada, interrompida e, talvez, levada a renascer. 

Começamos em silêncio. O chão sob os nossos pés não é neutro. É um arquivo de violência organizada. Os resíduos do conflito são íntimos e não resolvidos. Com Manuel Botelho, não testemunhamos a guerra. Encarnamos o seu rescaldo psíquico. O medo persiste. O desespero adensa-se. A catástrofe torna-se pessoal. 

Do mesmo solo erguem-se anti-memórias de Doris Salcedo. Um cemitério dos não vistos e dos não nomeados, que chora os perdidos pela violência lenta da brutalidade quotidiana. As estruturas altas, semelhantes a caixões, erguem-se acima da terra, confrontando-nos com a verticalidade do luto. Estes não são lugares de descanso de soldados, mas lembretes de que a guerra não apenas mata. Ela desmascara, desfaz ilusões e expõe a morte aos desprevenidos, aos inocentes, aos que não escolheram. 

Enquanto aqui estamos, o nosso sentido de justiça pode facilmente quebrar-se. Como a figura de Cristo estendido nas mãos de Maria em porcelana de Botelho, ela pode rachar, sangrar, ser envolta em ideologia. A justiça torna-se um sacrifício ritualizado. O seu significado altera-se. As suas consequências permanecem. 

À nossa volta, a civilização, outrora viva e com ligação humana, decai em ruínas. A fotografia de Botelho mostra um amontoado de metal e betão que outrora foi um espaço de memória coerente, agora em fragmentos.  

No filme The man who wanted to collect Time, de Fernando Pereira, uma fábrica de farinha de peixe na Islândia, destruída pela natureza e preservada pela memória, torna-se um monumento vivo. As obras falam da futilidade da preservação perante a entropia. Se não forem destruídos pelo tempo, os seus restos existirão, mas o seu contexto será esquecido. 

Ao longo do caminho, um rio em forma de instalação- vídeo divide o percurso. Le Passeur de Filipa César projeta simultaneamente duas narrativas num ecrã suspenso no centro da sala. De um lado, imagens de um afluente do rio Minho. Do outro, testemunhos de quem ajudou outros a escapar a regimes políticos ou à guerra colonial. As vozes ecoam. Falam de risco, de cumplicidade, de coragem. A travessia torna-se metáfora. A esperança, aqui, não é triunfante. É frágil. A liberdade não é destino. É passagem.

Continuamos sem hesitação. E como na fotografia de Nuno Calvet, as superfícies iluminam-se. A escuridão dissipa-se. O caminho torna-se mais claro. Ao longe, uma instalação multimodal de Ângela Ferreira evoca um momento utópico e oferece música de um período de esperança ativa, inspirada na independência de Moçambique. Um lembrete das possibilidades. Um tempo em que a esperança não era abstrata. 

Mas, novamente, somos confrontados com a sua fragilidade. A música desvanece. A luz vacila. Como na fotografia de Eduardo Nery, a escuridão consome a luz quando esta tenta resistir. Fica um brilho ténue. Um vislumbre de esperança.  Tal como a justiça, a fotografia de Molder mostra-nos que a fé também é frágil. Alimentamo-la com orações. Algumas gritadas, outras silenciosas.

Continuamos em silêncio, numa paisagem árida e cinzenta, desprovida de vida. Avançamos como Hamish Fulton que caminhou e fotografou por Ladakh, entre montanhas e rios. Nesse percurso nós não procuramos escapar ao isolamento, mas sim os seus habitantes.

O isolamento é um espaço de luto. Em obras de Manuel Botelho, somos confrontados por figuras que procuram assinalar a fragilidade da nossa existência. Elas não têm direção. Não oferecem conforto. Apenas o lento desfiar do sentido. Existir e morrer tornam-se semelhantes. Como afundar sob uma superfície que nunca prometeu resgate. Vemos outros desaparecer. Alguns suavemente, outros violentamente. A ausência torna-se parte da arquitetura. E nós tornamo-nos parte da arquitetura dos outros. 

Enquanto ouvimos sussurros, olhos frios de esquecimento olham para nós. A morte não é metáfora. Não será um dia. É todos os dias. Como nas fotos Face Lavée d’oubli de Jorge Molder, os nossos rostos serão lavados e esquecidos, independentemente da identidade que escolhemos carregar.

No caminho, tropeçamos em edifícios, na vastidão do isolamento. Capturados por Nuno Calvet, eles estão habitados. Gastos. Persistentes. Entre eles, estendem-se roupas. Cortinas de renda, toalhas, vestuário. São rituais. Memórias. Provas de que alguém esteve aqui. De que alguém está aqui. Estes vestígios domésticos tornam-se marcadores sagrados, como bandeiras de oração ao vento, ligando o mundano ao transcendente. 

Não somos nada. Mas somos inteiros. Mesmo sem rostos, a presença humana é inconfundível. Na forma como o tecido apanha a luz. Como as varandas se inclinam, como se escutassem. Como a arquitetura guarda histórias sem as contar. É um retrato da existência coletiva. Da sobrevivência. Da repetição. Da dignidade silenciosa da vida quotidiana. 

Não estamos sós. 

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Nesta rubrica, artistas, curadores, historiadores e investigadores convidados refletem sobre a Coleção do CAM, explorando diferentes perspetivas e criando relações por vezes inesperadas. Partindo de uma obra, de um artista ou de uma temática específica, estes textos propõem novas formas de ver e pensar a Coleção à luz do contexto histórico atual.
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