Desmontar para Habitar, uma leitura da Coleção do CAM a partir do núcleo «Convite»
E se «desmontar um museu» fosse o passo necessário para torná-lo habitável? Ainda que não existam respostas, é a partir desse gesto – simultaneamente físico e simbólico – que se constrói a escolha de obras da Coleção do CAM realizada por Carlos Bunga no âmbito da exposição do artista no CAM.
Integrada no núcleo Convite, apresentado no Mezanino, esta seleção reúne obras da Coleção do CAM marcadas pela sua natureza efémera e elusiva. Longe de assumir uma lógica retrospetiva ou representativa do acervo, a escolha integra-se como extensão direta da exposição e opera num território onde curadoria e prática artística se confundem. O resultado é um conjunto de peças convocadas não para ilustrar uma ideia, mas para participar ativamente numa reflexão sobre casa, corpo, memória e instabilidade, assumida como processo e como final em aberto.
Neste enquadramento, e de acordo com Carlos Bunga, alguns trabalhos adquirem um carácter particularmente significativo, seja pela sua natureza própria, seja pelo modo como contribuem para o desenvolvimento do tema da exposição. Entre elas encontra-se Sala de desconstrução (1975), de Túlia Saldanha, bem como Lisbonne Été (1988), de Keiichi Tahara. Assume igualmente relevância Water Motor (1978), de Babette Mangolte, apresentada na exposição através de empréstimo e não pertencente à Coleção do CAM, tornando visível uma ideia de coleção entendida também a partir das suas ausências. No conjunto inscreve-se ainda Além-Tejo Vos-Tejo (Lisboa, 15 Maio 1979), de Wolf Vostell, cuja presença sublinha o modo como o núcleo articula diferentes práticas e temporalidades em torno de uma reflexão comum.
A seleção inclui trabalhos de artistas centrais da Coleção, convocados a partir de afinidades conceptuais que atravessam diferentes gerações e contextos artísticos. Mais do que propor uma leitura representativa do acervo, o conjunto articula práticas que abordam o espaço, o corpo e a materialidade como territórios instáveis, onde a presença se constrói frequentemente a partir do vestígio, da ausência e da transformação.
É nesse campo que se inscreve a obra de Lourdes Castro, cuja prática – conhecida por obras como séries de sombras, recortes e impressões, caixas e herbários – convoca a memória através do que não está plenamente presente. Trabalhos desse universo, integrados na Coleção do CAM, deslocam a presença para o domínio da projeção e do vestígio, dialogando com a dimensão elusiva que atravessa o núcleo Convite.
A relação entre corpo e espaço prolonga-se, por outras vias, no trabalho de Helena Almeida. Autora de obras que exploram a relação entre gesto, corpo e suporte, Almeida transformou a pintura num campo de ação, habitando a tela e o espaço expositivo como extensões do corpo. Conhecida tanto pelas telas tridimensionais da sua primeira fase como por obras fotográficas de caráter performativo, a sua prática introduz uma leitura do habitar como gesto ativo, em tensão permanente com os limites arquitetónicos.
A reflexão sobre o espaço enquanto construção mental e afetiva encontra outro desenvolvimento na obra de Maria Helena Vieira da Silva, referência da abstração europeia do pós-guerra. As suas composições, organizadas em redes e malhas, estruturam o campo pictórico como território de circulação e desorientação, exigindo um olhar atento e demorado. Trabalhos como A poesia está na rua I (1974), que existem em relação com contrapartes ausentes, reforçam essa ideia de espaço incompleto e em suspensão, em ressonância com a lógica de instabilidade que estrutura a exposição.
A materialidade assume um papel central nos trabalhos de Alberto Carneiro, conhecido por obras que articulam natureza, corpo e escultura a partir de uma reflexão sobre a árvore, a floresta e o gesto humano. Trabalhos desse universo, frequentemente associados ao uso da madeira e à ideia de floresta, introduzem uma dimensão orgânica que dialoga com a transitoriedade das estruturas propostas por Carlos Bunga.
A atenção à fisicalidade da forma prolonga-se na escultura de Alberto Chissano, conhecido por trabalhos em madeira que conjugam ancestralidade e modernidade. As suas peças, muitas vezes sem título, afirmam uma presença densa e expressiva, onde a superfície trabalhada transporta memória e corporeidade, reforçando a dimensão material e memorial do conjunto.
Em continuidade com estas preocupações, a obra de Carlos Nogueira introduz o objeto como estrutura relacional. Conhecido por obras que dialogam com o quotidiano e com o lugar – autor de trabalhos como Construção para lugar nenhum (2003) –, Nogueira constrói formas que interrogam a ideia de uso, abrigo e construção simbólica, aproximando-se da noção de espaço vivido que atravessa o núcleo Convite.
A dimensão ética do conjunto intensifica-se com a presença de Doris Salcedo, reconhecida por obras que abordam memória, violência e ausência. Trabalhos como Plegaria Muda (2008), que implicam a utilização de materiais orgânicos e processos de reconfiguração ao longo do tempo, deslocam a escultura para um território de luto ativo e de memória em construção, ampliando a leitura do habitar para além da esfera individual e confrontando o espaço doméstico com a experiência do trauma coletivo.
Por fim, a obra de Manuel Amado, que atravessa desenho, instalação e objeto, introduz uma reflexão persistente sobre o espaço doméstico e a memória. Conhecido por trabalhos que interrogam a casa enquanto construção simbólica e partilhada, o seu percurso reforça a leitura do habitar como experiência em permanente negociação.
Ao integrar obras da coleção num dispositivo concebido a partir da prática de um artista, o núcleo Convite introduz uma inflexão no modo como o acervo é apresentado e interpretado. Sem substituir os enquadramentos históricos ou curatoriais que estruturam a coleção, esta proposta evidencia a sua capacidade de dialogar com linguagens contemporâneas e de se deixar atravessar por leituras situadas. A Coleção mantém a sua densidade patrimonial, mas é convocada para um contexto que privilegia a relação, a proximidade e a experiência, reforçando a ideia do museu como espaço onde diferentes temporalidades e modos de pensar a arte podem coexistir sem se anularem.