Escutar Através da Matéria
Conheci o trabalho de Jacob Kirkegaard através das suas gravações em Chernobyl, sintonizando-me com a presença inaudível da radiação, as temporalidades dilatadas dos espaços abandonados e a capacidade do som de revelar o que resiste à visibilidade. Na altura, a minha própria investigação começava a desenvolver-se em torno do som, do lugar e da perceção: como a escuta molda a nossa compreensão do mundo e como o som funciona como uma estrutura sempre presente, muitas vezes inconsciente, que informa a perceção, o comportamento e a resposta emocional.
Anos mais tarde, encontrámo-nos em Valparaíso, Chile, em 2019, durante o Festival Tsonami. Aquilo que era conhecido como um evento de arte sonora transformou-se em algo distinto: um espaço coletivo de reflexão em plena agitação social. A cidade encontrava-se em convulsão, e o festival tornou-se um lugar para pensar o papel da escuta em tempos de crise, não apenas como prática artística, mas como forma de nos posicionarmos em relação ao mundo.
Neste contexto, o silêncio revelou-se não como ausência, mas como uma condição densa e instável, marcada pela repressão, pelo medo e pelo cansaço, mas também carregada de potencial e resistência. O ruído, por sua vez, tornou-se uma forma de rutura: uma maneira de tornar audíveis as tensões, de reivindicar presença e de romper o silêncio imposto. Foi a partir destas premissas que trabalhámos em conjunto, respondendo à urgência do contexto.
Este encontro marcou uma convergência entre a minha prática curatorial e a abordagem artística de Jacob. Desde o início dos anos 2000, o seu trabalho tem-se dedicado a ambientes de difícil acesso, remotos ou em grande medida invisíveis: zonas radioativas, gelo em fusão, infraestruturas fronteiriças ou sistemas de resíduos, entre outros. Através do uso de microfones de contacto e sensores de vibração, Jacob revela as qualidades sonoras latentes dos materiais e dos espaços, permitindo-lhes não apenas ressoar, mas também articular as suas próprias condições e produzir significado.
Esta conversa decorre no contexto de Testimonium, apresentado no CAM. Nesta obra, Kirkegaard segue as trajetórias sonoras dos sistemas globais de resíduos, rastreando as suas vidas materiais e acústicas através de múltiplas geografias, desde locais de deposição e reciclagem até economias informais de recuperação. Através de um processo atento de escuta e gravação, revela as dimensões sonoras ocultas dos materiais em transformação, trazendo para primeiro plano processos que normalmente permanecem fora da perceção quotidiana. O que emerge não é apenas uma reflexão sobre o lixo, mas uma meditação mais profunda sobre acumulação, circulação e obliteração.
Testimonium convida-nos a confrontar as infraestruturas que sustentam a vida contemporânea, permanecendo em grande medida invisíveis, expondo a contínua «vida após a morte» daquilo que descartamos.
Este diálogo explora a escuta como gesto ético, as interseções entre arte sonora e consciência ecológica e o potencial da prática artística para criar espaços de atenção, reflexão e transformação.
Raquel Castro: Jacob, o teu trabalho tem estado profundamente enraizado numa escuta atenta do mundo. Para começar, como vês a escuta a funcionar em relação a crises, sejam elas ecológicas ou sociais? Pode fomentar empatia, ou até ajudar-nos a responder de forma diferente ao mundo que nos rodeia?
Jacob Kirkegaard: Essa é uma grande questão. Não acredito que a escuta possa impedir fenómenos como as alterações climáticas. Mas o que procuro fazer é escutar o mundo tal como ele é. Escutar requer silêncio; exige uma imobilidade que ver não exige. Não é preciso estar em silêncio para olhar para algo, mas para realmente escutar é necessário criar espaço.
Quando estou em silêncio, aceito aquilo que surge. Essa abertura pode conduzir a uma compreensão mais profunda do mundo e do meu lugar nele. Não se trata de controlar o que se ouve, mas de permitir que se revele. Por isso, sinto-me atraído por escutar todo o tipo de sons, incluindo aqueles que podem ser perturbadores ou difíceis. Por vezes, são precisamente esses que mais nos revelam.
RC: A tua prática envolve frequentemente aquilo que muitos considerariam temas desafiantes ou até desconfortáveis: resíduos, radioatividade, morte, guerra, fronteiras. O que te atrai nesses territórios «mais sombrios» e o que revela a escuta nesses contextos?
JK: Remonta à minha adolescência. Ouvia grindcore e noise e passava muito tempo sozinho no meu quarto, numa zona periférica da Dinamarca, a sintonizar rádio de ondas curtas. Aqueles sinais e texturas estranhas fascinavam-me, pareciam completamente diferentes de tudo o que me rodeava. Não me sentia particularmente ligado à escola ou a ideias convencionais de felicidade, mas encontrava um certo espaço nesses sons agressivos. Acalmavam-me. Sentia-me menos sozinho. Havia algo de muito direto neles, algo honesto.
Com o tempo, percebi que me sinto atraído por temas que carregam um certo peso: guerra, glaciares em degelo, cercas fronteiriças, resíduos. Não são temas fáceis, mas estão presentes e afetam-nos a todos. Gosto de mergulhar nesses sons. Dá-me sentido. É também uma forma de não desviar o olhar.
RC: No Chile, desenvolveste um trabalho com monumentos vandalizados, como a estátua de Cristóvão Colombo, captando as suas ressonâncias ocultas à medida que absorviam e transformavam as tensões envolventes. Como é que essa experiência moldou a tua compreensão da situação, e o que procuravas escutar num ambiente tão volátil e complexo?
JK: Foi um momento intenso. Vivi-o como um confronto entre uma estrutura colonial antiga e uma nova realidade social. As pessoas estavam a ser violentamente reprimidas, enquanto aquelas estátuas permaneciam de pé, como símbolos de uma narrativa histórica distinta.
Comecei a pensar nas estátuas como corpos ressonantes, tal como outros materiais com que tenho trabalhado. Não são apenas símbolos visuais, têm propriedades físicas, vibram, respondem. Perguntei-me: se pudessem «ouvir» o que estava a acontecer, conseguiria eu escutar através delas?
Ao colocar sensores de vibração nas estátuas, consegui captar as suas ressonâncias ativadas pelo ambiente envolvente: os protestos, os gritos, o movimento das pessoas, até a presença da polícia. Quando se escuta no seu interior, ouve-se algo semelhante a uma voz, uma espécie de tom contínuo moldado por tudo o que as rodeia.
Tornou-se uma forma de me relacionar com a situação não através da sua representação direta, mas escutando como ela vibrava através desses objetos. É uma perspetiva diferente: menos narrativa, mais centrada na presença.
RC: Relativamente a Testimonium, como começou este projeto? O que te levou a seguir a vida sonora dos resíduos?
JK: Começou na Etiópia, em 2012, no Merkato, o maior mercado ao ar livre de África. Na zona de reciclagem, as pessoas transformavam bidões de óleo à martelada. Criava-se uma paisagem sonora incrível: muito intensa, muito rítmica, quase como uma espécie de música bruta.
Anos mais tarde, quando o meu filho ainda era muito pequeno, estava a ensinar-lhe sobre resíduos, sobre como deitar fora as coisas corretamente. Ele perguntou-me para onde vai realmente o lixo. Essa pergunta ficou comigo. É uma pergunta muito simples, mas também muito difícil.
Decidi seguir o percurso dos resíduos com os meus microfones. Gravei em instalações de reciclagem na Dinamarca, num enorme aterro em Nairobi e com trabalhadores informais de recuperação de resíduos na África do Sul. Cada lugar tinha o seu som, a sua própria linguagem material.
Do ponto de vista musical, trata-se sobretudo de timbre: a ressonância oca do plástico, as qualidades percussivas do metal, a fragilidade do vidro. Mas não estou a tentar transformá-lo noutra coisa. Procuro revelar o que já está lá. Torna-se uma forma de composição que emerge diretamente dos processos materiais.
RC: Em Testimonium, há também uma forte reflexão sobre a nossa relação com a Terra, sobre acumulação, excesso e responsabilidade. Vês a arte como tendo a capacidade de influenciar a forma como pensamos ou agimos relativamente a estas questões?
JK: Vejo a arte como algo em que se pode escolher entrar, um espaço em que nos podemos imergir, se quisermos. Ninguém nos obriga. Não se impõe, e não tenho expectativas rígidas sobre aquilo que deve alcançar.
O que me interessa é o ato de escutar, especialmente aquilo sobre o qual as pessoas discutem: o «ruído» da política, das fronteiras ou da desinformação. O som pode ser avassalador. Se alguém me grita, é como se algo quase explodisse dentro de mim. Ao mesmo tempo, procuro também uma certa calma interior.
Se conseguir escutar essas coisas difíceis, se conseguir ouvir a sua «voz», seja o zumbido de uma vedação fronteiriça ou o rugido dos resíduos, começo a compreender algo mais.
A escuta torna-se uma forma de processar o mundo, de encontrar sentido nele. E talvez também uma forma de nos mantermos ligados, mesmo àquilo que preferíamos não ouvir.