Apparatus 22: «Estamos interessados em usar a alegria, o camp e o excesso como ferramentas contra o cinismo e o desespero».

A curadora Luísa Santos, no âmbito do projeto Institutio(ning)s, conversou com o coletivo Apparatus 22, sobre a sua prática artística, a passagem pelo CAM e o seu trabalho de investigação e reflexão no quadro das instituições culturais.
Luísa Santos 04 mar 2026 11 min

LS: Caros Erika, Maria e Dragoș, talvez possam começar por dizer algumas palavras sobre o início da vossa prática coletiva.

A22: Na primavera de 2010, em Estocolmo, tivemos alguns meses para refletir sobre o nosso trabalho com Rozalb de Mura (2005–2010), uma marca vanguardista de design de moda. Desencantados pelas limitações do universo da moda e com o recorrente conselho para diluir as nossas ideias e pensar mais em termos de negócio, decidimos acabar com essa colaboração e iniciar um novo capítulo, um projeto ainda mais ousado, mais abrasivo e simultaneamente mais terno.

Fundámos o Apparatus 22 no princípio de 2011 como coletivo de quatro pessoas, cada um de nós com um background completamente diferente: a Ioana tinha um passado ligado ao desporto e às artes e era a única de entre nós que já tinha uma prática artística. A Erika tinha formação em sociologia e serviço social, a Maria em literatura e línguas estrangeiras, o Dragoș em economia. No entanto, embora em funções diferentes, todos nós estávamos há uma década a trabalhar em atividades relacionadas com a arte. Pouco tempo depois, perdemos a nossa amiga Ionana Nemeș.

Só mais tarde percebemos que a criação do coletivo estava a amadurecer há muito tempo, através das nossas várias colaborações ao longo desses dez anos.

O coletivo Apparatus na performance "How Close to Hold the Mirror? [A Que Distância Segurar o Espelho?]" © Pedro Jafuno

LS: Conhecemo-nos em maio de 2024, durante a conferência «Museum Why? Practice, Agency and Knowledge in the Art Museum» na Universidade de Copenhaga.

Embora as fronteiras continuem a diluir-se, os protocolos das conferências académicas ainda tendem a seguir os padrões habituais: oradores principais, e académicos e artistas a falar sobre as suas práticas a partir de um palco, geralmente com um ecrã como apoio visual.

Vocês desafiaram esse protocolo com as vossas participações – apresentando How Close to Hold the Mirror?  [A Que Distância Segurar o Espelho?] e A Most Amazing Offer [Uma Oferta Verdadeiramente Extraordinária] enquanto performances e não como comunicações tradicionais para descrever o vosso trabalho. Por outras palavras, receberam o público com o trabalho e não com um comentário sobre o trabalho.  

Distribuíram uma série de papéis coloridos e convidaram toda a gente a responder às vossas perguntas usando cores em vez de palavras. Ao longo das performances, não eram apenas os vossos corpos que se moviam, mas também o público se movimentava e respondia às perguntas, entrando em breves diálogos com quem quer que estivesse sentado ao lado. Isso fez-me refletir sobre o facto de todo o protocolo ser em si próprio uma forma de performance, independentemente do seu formato e nível de (auto)consciência.

Podem partilhar algumas das ideias por detrás desses trabalhos? E explicar como mudam a abordagem consoante o contexto?

A22: Muito honestamente, foi angustiante quebrar o gelo numa conferência académica internacional, pedindo às pessoas que respondessem pública e emocionalmente a perguntas sobre museus, poder e exclusão. Estávamos conscientes de que os formatos participatórios não são sempre bem acolhidos, especialmente em contextos institucionais e académicos, treinados para manter a distância e salvaguardar a autoridade.

Percebemos desde o início que a conferência não era um palco neutro e entendemo-la como uma coreografia – de gestos, cores, hierarquias. Decidimos quebrar o protocolo e não falar sobre o nosso trabalho, mas antes colocar o púbico perante dois trabalhos. Ambas as performances surgiram como um cruzamento de várias linhas de investigação e de reflexão, como ferramentas para iniciar conversas críticas e abertas, com um particular interesse em museus, no seu potencial e na sua necessidade de mudança, e na necessidade de novos formatos de obras de arte que possam ter consequências reais no mundo.

Estarmos num contexto académico também significou conceber o nosso contributo como um comentário sobre o universo da própria academia. O questionário é um instrumento habitual de pesquisa, mas na obra How Close to Hold the Mirror? sofreu um desvio. Nessa ocasião, mas também mais tarde no CAM, o processo de responder a 26 perguntas tornou-se uma experiência participativa coletiva.

O foco não estava na recolha de dados, mas na experiência coletiva de refletir sobre os paradoxos, as ausências e urgências que moldam os museus hoje em dia. Deixamos que perguntas poéticas, emocionais, bizarras e políticas coexistam com outras muito específicas sobre pensamento institucional, todas centradas nas políticas de aquisição de arte dos museus. Desta forma, o questionário ele mesmo torna-se um meio artístico.

Como o título sugere, A Most Amazing Offer é tanto um gesto hiperbólico como uma verdadeira provocação. Impregnado por um pensamento utópico e oferecido a instituições aventureiras, reúne uma série de reflexões que resultam do nosso trabalho. O argumento é algo absurdo, deliberadamente exagerado e esperamos que ligeiramente sedutor. De muitas maneiras, reflete a forma como os investigadores «vendem» ideias uns aos outros todos os dias através da revisão por pares e propostas de financiamento. A única coisa que fizemos foi expor esse mecanismo, geralmente oculto, à vista de todos.

O coletivo Apparatus na A performance How Close to Hold the Mirror? [A Que Distância Segurar o Espelho?] © Pedro Jafuno

LS: Um método recorrente na vossa prática é o uso de adivinhas e perguntas, que logo à partida convidam o público a participar. No entanto, numa leitura mais atenta, funcionam como estímulos para imaginar possibilidades alternativas, ao mesmo tempo que apontam para a impossibilidade de criar universos como ato individual e para a responsabilidade coletiva inerente a qualquer contexto vivido.

Estou a pensar, por exemplo, em Positive Tension, em que usam confettis inscritos com perguntas para iniciar um diálogo sobre uma variedade de tópicos, como instituições artísticas, solidariedade, os bens comuns, moda e consumismo. O uso da cor e de elementos festivos, tal como as adivinhas e as perguntas, parecem ser um traço característico da vossa prática. Podem falar um pouco mais sobre esta abordagem?

A22: As perguntas são um dos nossos materiais de trabalho favoritos. Uma pergunta é uma proposta que qualquer pessoa pode ativar no seu próprio contexto. Para nós, as perguntas não são instrumentos para extrair conhecimento – são convites à exploração da incerteza partilhada. Usamo-las para gerar curiosidade, fricção, imaginação, para criar espaços em que os participantes se veem subitamente não só como espectadores, mas como corpos com agência. E são também apelos à ação.

Articular e fazer perguntas é uma abordagem situada que temos desenvolvido desde que iniciámos a nossa prática artística, em diversos formatos e contextos. Varia em conjuntos de perguntas, escritas em confettis gigantes e atraentes, usados para desencadear tanto celebração como crítica em grandes explosões.

Na nossa prática, perguntas, adivinhas e as escolhas formais de cores, brilho e néon ultrapassam a simples decoração e tornam-se métodos. Permitem-nos abordar questões como estruturas de poder, inigualdade, precariedade e futuros queer de uma forma que parece acessível, divertida até.

Estamos interessados em usar a alegria, o camp e o excesso como ferramentas contra o cinismo e o desespero. Uma adivinha atrasa a resposta óbvia; esse atraso torna-se um tempo precioso para a dúvida, a reflexão e a imaginação. O público é frequentemente atraído para uma cápsula sobrenatural, brilhante e negra, que cintila através de fitas de vídeo pretas infinitas, dentro da qual o tempo, de alguma forma, deixa de ser linear.

Parece uma suspensão, um oásis dentro do qual o mundo exterior se dissolve por um minuto e onde este pequeno encontro – tu + uma pergunta impossível + um momento de honestidade ou desconforto – pode contribuir para uma mudança mais ampla. Quando trabalhamos com adivinhas e perguntas, não fornecemos respostas, antes oferecemos ferramentas para pensar, para confrontar utopia e distopia, numa espécie de exercício de musculação poética.

O coletivo Apparatus na performance "How Close to Hold the Mirror? [A Que Distância Segurar o Espelho?]" © Pedro Jafuno

LS: O vosso trabalho é transdisciplinar – exploram as relações diversificadas entre economia, política, estudos de género, estudos queer, sociologia, religião e moda. Tudo isto faz parte das ciências sociais, que analisam o comportamento humano, a sociedade e as relações interpessoais através do estudo das instituições, das estruturas sociais e das interações.

As ciências sociais procuram entender, descrever e prever o funcionamento das sociedades, oferecendo perspetivas que podem ajudar a abordar os desafios societais. Vocês têm estado profundamente envolvidos numa reformulação possível da estrutura das instituições artísticas – algo que também me interessa muito. Se tivessem de propor um único método para imaginar e antecipar a forma que as instituições artísticas poderão assumir na próxima década, qual seria?

A22: Essa é uma provocação muito difícil de responder. O mundo não está em evolução, mas sim num estado de turbulência caótica, com crises múltiplas: guerras, genocídios, como na Palestina; políticas brutais de diferentes ditadores e Trump com total liberdade; a maquinaria pérfida do neoliberalismo, que produz mais desigualdade social e económica; a inevitável colisão frontal com o desastre ecológico; a ascensão da extrema-direita e o soberanismo que andam de mãos dadas com a opressão de diferentes minorias; e poderíamos continuar por aí fora.

Tem-se tornado cada vez mais difícil, para todos nós, cidadãos do mundo, imaginar o que vem a seguir. A realidade atual impede que muitos consigam imaginar o futuro, quer pessoal quer global, distante ou próximo. Por esta razão, para o nosso coletivo é uma estratégia de sobrevivência ter um pé neste mundo e outro firmemente apoiado na dimensão cósmica, como a utopia em SUPRAINFINIT.

Sobre as instituições artísticas, a resposta é sempre muito contextual. Tivemos o prazer e o privilégio de trabalhar com algumas instituições no seu processo de autorreflexão e transformação e aproximamo-nos da instituição/formato/meio que é O Museu.

Há algumas coisas que poderiam moldar o futuro de forma mais rápida e mais eficiente. Vamos tentar centrar a nossa resposta naquilo que alguns museus poderiam e deveriam fazer.

Em primeiro lugar, o processo de repensar o museu deveria ser muito mais coletivo, estruturado e estratégico. Os museus deveriam incluir grupos de fora da instituição nos processos de transformação: desde crianças e adolescentes, que representam o futuro, a burocratas, mas também a representantes de outras comunidades para quem a instituição não é visível, mas que são importantes para o ecossistema local.

Abertura, curiosidade e inclusão podem ser importantes para os museus se tornarem fluentes nas linguagens de mais comunidades, para ganharem compreensão, confiança e relevância. Embora sempre experimentando novos formatos e ideias, os museus não podem esquecer aquilo que os diferencia de centros de arte e de outros formatos: a investigação; a responsabilidade de colecionar e de cuidar obras de arte; e as exposições, como um contributo para a escrita de uma história da arte corajosa e sensível.

O coletivo Apparatus na performance "How Close to Hold the Mirror? [A Que Distância Segurar o Espelho?]" © Pedro Jafuno

LS: Antes de acabarmos, há alguma pergunta que sempre tenham desejado que alguém vos colocasse e que nunca ninguém fez?

A22: É difícil reduzir a apenas uma, por isso cada um de nós vai escolher uma pergunta:

*/ Estão interessados em experimentar o que acontece quando os artistas são contratados para criar arte como um bem social?

*// Gostariam que os vossos sonhos fossem descodificados? 

*/// Porquê tanta paixão pela arte? 

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