Yasmine Ostendorf-Rodríguez: «Por vezes, as coisas também precisam de se desmoronar para serem reimaginadas»

A investigadora Yasmine Ostendorf-Rodríguez, que desenvolveu o workshop «Tornar-se Fúngico» no CAM, explora como o seu fascínio pelo mundo dos fungos se transpõe para a realidade das instituições artísticas e da colaboração interespécies.
Elsa Damas 05 nov 2025 10 min

Como começou o teu fascínio pelo mundo dos fungos? E como é que essa paixão se transformou numa metodologia aplicada à prática artística e à colaboração?

Adorava poder dizer que cresci rodeada de cogumelos, mas estaria a mentir.

Nasci na cidade. Sempre vivi em cidades. Mas acho que, na verdade, sempre senti o desejo desta outra forma de me relacionar com a natureza, em que esta não é apenas um lugar aonde vamos, mas um lugar que faz parte de nós, no qual compreendemos que fazemos parte da natureza. Mas faço parte de um país e de uma cultura, os Países Baixos, em que estas coisas estão muito separadas. Além disso, este é um país muito micofóbico. Os cogumelos não estiveram muito presentes na minha infância.

Sempre tive interesse em alianças e em reunir pessoas, e aquilo que aprendi bastante cedo foi que tenho uma certa capacidade para juntar pessoas, ou, pelo menos, é algo que me dá prazer fazer. É esta ideia de construir alianças e compreender aquilo que nos une uns aos outros, o que nos é comum, e como nos podemos entreajudar. É isso que me move.

Quando li o livro Mushroom at the End of the World: on the possibility of life in capitalist ruins, de Anna Tsing, foi para mim uma grande revelação, porque pude observar paralelos entre o reino dos fungos e aquilo que eu já andava a fazer, a construir redes e alianças. Usava a palavra aliança, mas não estava familiarizada com o que é o micélio nem com a terminologia do mundo da micologia, por isso, no princípio, era tudo muito teórico. Esse livro foi muito importante, mas rapidamente compreendi que não queria que a minha abordagem fosse meramente teórica… Precisava de pôr as mãos na massa, estás a ver? E acabei por realmente incorporar esse conhecimento!

Yasmine Ostendorf-Rodríguez na conversa «Mycelial Methodologies» © Inês Condeço

Percebi que tinha de mudar alguma coisa na minha vida de forma bem radical. Foi então que me mudei para a quinta. Mudei-me para uma quinta de cogumelos, uma quinta de produção de cogumelos shiitake, e comecei a cultivá-los e a passar ali muito tempo. E uma coisa levou a outra, acabando por tornar-se numa obsessão.

E depois toda a minha vida. Também comecei a reparar que as coisas estavam a mudar muito para mim, na medida em que passava tanto tempo a pensar nos fungos e a estar perto dos fungos, que senti a necessidade de lhe dar sentido. E, para mim, escrever é um processo de compreensão.

Os 12 ensinamentos que incluí no livro são coisas que podemos implementar na nossa vida, na forma como tomamos decisões; como colaboramos; como nos relacionamos com as pessoas; como nos relacionamos com a morte ou a transformação; como nos relacionamos com o tempo… Claro que isto pode ser aplicado desde as decisões que tomamos a um nível macro, por exemplo, onde e como vivemos, até às decisões micro, do nosso quotidiano.

Yasmine Ostendorf-Rodríguez no workshop «Tornar-se Fúngico» © Inês Condeço

Qual é título profissional que te atribuis a ti mesma?

Considero-me uma criadora de pontes. Costumava chamar-me curadora, e gosto muito da associação entre as palavras curadora e curar, olhando para um lado curativo das coisas, de cuidar e nutrir, mas sinto que, atualmente, a palavra curadora está mais associada apenas a fazer exposições. E, na verdade, eu já não faço exposições.

Adoro a parte da pesquisa, mas o problema que tenho com a organização de exposições é a construção de todo um ambiente, as paredes, o transporte de coisas a partir de todo o mundo, a logística, ter tudo num lugar durante três meses e depois desmontar tudo e voltar a montar tudo outra vez. Há algo nessa temporalidade que não funciona para mim. Mas, claro, também há a parte que envolve a pesquisa e as relações com os artistas, reunir temas ou contextualizar coisas, com a qual me sinto muito alinhada e próxima, e que me entusiasma.

Como é que achas que os teus projetos, como o Green Art Lab Alliance, se relacionam com o projeto de residências artísticas Institution(ing)s, e quais são os maiores desafios e lições aprendidas ao trabalhar com comunidades tão diversas e geograficamente distantes?

Penso que existe um paralelo muito claro no questionamento ou na reflexão sobre as práticas no interior das instituições, particularmente em relação a questões sociais e ambientais. Acho muito importante que continuemos a fazê-lo porque, tradicionalmente, as instituições são sítios extremamente importantes para cuidar da comunidade, são o seu ponto fulcral em termos de recursos

Mas são também as construções que mais demoram a mudar. Não se podem comparar com um coletivo. Por exemplo, um coletivo consegue tomar decisões muito rapidamente e mudar de direção. Já numa instituição, há imensos obstáculos que precisam de ser contornados para se fazer qualquer mudança e, à medida que vamos evoluindo e – gostaria de pensar – à medida que entramos num paradigma diferente em que repensamos essas mesmas instituições, isso acarreta mudanças.

Evoluir implica mudanças que temos de fazer. E essas mudanças serão mais lentas nas instituições, e é por isso que eu acho o projeto Institution(ing)s tão empolgante. É preciso colocar rebeldes dentro dessas instituições que apontem para o que é que não está a funcionar.

Yasmine Ostendorf-Rodríguez no workshop «Tornar-se Fúngico» © Inês Condeço

No contexto do teu workshop Tornar-se Fúngico, que se baseia no teu livro Let’s Become Fungal! – Mycelium Teachings and the Arts, como podemos nós aplicar o conceito de redes de micorrizas como metodologia comunitária nas artes, nas ciências e na sociedade? E como é que as aplicas no dia-a-dia da tua vida institucional e artística?

Existe a dimensão ambiental de que falámos. É mais a função ecossistémica do micélio das micorrizas. E isso já é uma lista completa que nos permite dizer: oh, é o maior sumidouro de carbono em terra, protege contra a erosão, redistribui recursos para o crescimento de outras plantas. Portanto, há toda uma lista nessa dimensão ambiental. Depois, há uma dimensão social que, por seu lado, se relaciona com a ideia de construir comunidade, de colaborações e simbiose, por forma a existir uma troca mutuamente benéfica.

E depois, no outro dia estava a falar com alguém sobre a dimensão espiritual. Porque, para mim, isto chega ao ponto de sentir que não fui realmente eu a escrever o livro. Que este conhecimento veio dos fungos. Que eu apenas o canalizei. Sei que parece uma loucura,  mas sinto que o canalizei. Sinto que os fungos escolhem as pessoas – sei que soa estúpido quando o digo em voz alta – mas é como se os fungos escolhessem pessoas para serem os seus embaixadores.

De repente, isto tornou-se um tópico gigantesco na minha vida. E sinto que muitas das pessoas com quem conversei para o livro ou que participam nos workshops têm uma experiência muito semelhante. Seja através da investigação, do lado teórico, ou do cultivo dos fungos, há um conhecimento que também se liga a algo diferente.

E é também uma relação simbiótica, repito, porque também me foi útil. Somos aliados.

Como imaginas o futuro das instituições artísticas em termos de sustentabilidade e colaboração interespécies? Que lições podemos aprender com o vasto universo dos fungos, que possamos aplicar à construção de um futuro culturalmente próspero e diverso?

Essa é uma pergunta difícil. Penso que, na verdade, as coisas por vezes precisam de se desmoronar antes de as podermos reimaginar radicalmente. A nossa imaginação para pensar nas possibilidades com base naquilo que já vimos e que sabemos é muito limitada. É difícil libertarmo-nos desse padrão.

No outro dia, li uma entrevista muito interessante com o diretor de um jardim zoológico. Ele dizia que, se queremos verdadeiramente reimaginar a nossa relação com os animais, precisamos de abandonar completamente a ideia dos jardins zoológicos. Porque senão, só conseguiremos pensar de uma forma com esse sistema, chamemos-lhe um sistema capturado, em que tentamos fazer com que este fique melhor. Talvez para que o tigre não esteja numa jaula mas atrás de uma vedação elétrica invisível, e isso parece-nos melhor. E os visitantes do jardim zoológico pensam: «oh, que bela vida levam os animais aqui.» E parece bem. Mas, no essencial, é teatro. E nós adoramos o teatro quando este é consensual, claro.

Nas instituições, há muitas tentativas de adaptação, por exemplo quando dizemos: «vamos fazer a parede de micélio, e vai ter mesmo bom aspeto», e depois vem a conversa do «oh, é um museu interespécies»… Um pouco como darmos-lhes uma palavra fixe e depois…

Bem, se quisermos mudar alguma coisa radicalmente – que é o que temos de fazer, porque, caso contrário, resta-nos ficar à espera que um terremoto crie o colapso ou que uma cheia crie o colapso ou que outra coisa qualquer crie o colapso. Porque podemos ter a nossa belíssima parede de micélio, mas continuar com um sistema de poder patriarcal e hierárquico dentro da instituição, que apenas continuará a persistir até se extinguir.

Por vezes, as coisas também precisam de se desmoronar para serem reimaginadas. Não quero com isto dizer que é necessário destruir tudo, mas acho que devemos pensar adiante do verdadeiro colapso ambiental, precisamos de ser muito mais radicais na forma como imaginamos aquilo que estas instituições podem ser.

Yasmine Ostendorf-Rodríguez no workshop «Tornar-se Fúngico» © Inês Condeço

Qual é a tua palavra favorita, a tua comida favorita e a tua cor favorita?

Bom, tenho uma nova palavra favorita. Porque fiz o workshop, no outro dia, na Cidade do México, com um grupo de mulheres, e elas inventaram algumas palavras novas incríveis. E uma dessas palavras ficou na minha cabeça, uma combinação da palavra líquen – uma associação simbiótica entre fungos, algas e cianobactérias numa relação mutualista, que surge em várias cores e tamanhos – e eu me identifico muito com isso. A palavra era uma combinação de líquen com identidade: Liquentidade. Adoro esta palavra porque, basicamente, também significa que é possível a nossa identidade estar em simbiose com diferentes espécies, com cianobactérias, com diversas entidades, e todas elas vivem dentro de nós.

A cor: gosto do azul Yves Klein. Adoro essa cor, o que é agradável porque no México há muitos edifícios dessa cor, por isso traz consigo um toque de lar.

Em relação à comida, gosto mesmo de comer cogumelos. E adoro comer coisas que não conheço. Assim, optaria por… – Não sei se mencionei isto no workshop, acho que sim – que menos de 5% de todos os fungos estão identificados. Menos de 5%! Portanto, quase nada. Ainda há tantos que não conhecemos… E não estou interessada apenas no elemento alimentar. Porque acho que estamos muito habituados a pensar: «será que é comestível?» Eu gosto de não pensar sempre do ponto de vista individual, mas mais: «O que é que este me pode ensinar?»

Mas, se tivesse de escolher uma comida favorita, diria que é um cogumelo comestível que ainda não tenha sido identificado.

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