Yasmine Ostendorf-Rodríguez: «Por vezes, as coisas também precisam de se desmoronar para serem reimaginadas»
Como começou o teu fascínio pelo mundo dos fungos? E como é que essa paixão se transformou numa metodologia aplicada à prática artística e à colaboração?
Adorava poder dizer que cresci rodeada de cogumelos, mas estaria a mentir.
Nasci na cidade. Sempre vivi em cidades. Mas acho que, na verdade, sempre senti o desejo desta outra forma de me relacionar com a natureza, em que esta não é apenas um lugar aonde vamos, mas um lugar que faz parte de nós, no qual compreendemos que fazemos parte da natureza. Mas faço parte de um país e de uma cultura, os Países Baixos, em que estas coisas estão muito separadas. Além disso, este é um país muito micofóbico. Os cogumelos não estiveram muito presentes na minha infância.
Sempre tive interesse em alianças e em reunir pessoas, e aquilo que aprendi bastante cedo foi que tenho uma certa capacidade para juntar pessoas, ou, pelo menos, é algo que me dá prazer fazer. É esta ideia de construir alianças e compreender aquilo que nos une uns aos outros, o que nos é comum, e como nos podemos entreajudar. É isso que me move.
Quando li o livro Mushroom at the End of the World: on the possibility of life in capitalist ruins, de Anna Tsing, foi para mim uma grande revelação, porque pude observar paralelos entre o reino dos fungos e aquilo que eu já andava a fazer, a construir redes e alianças. Usava a palavra aliança, mas não estava familiarizada com o que é o micélio nem com a terminologia do mundo da micologia, por isso, no princípio, era tudo muito teórico. Esse livro foi muito importante, mas rapidamente compreendi que não queria que a minha abordagem fosse meramente teórica… Precisava de pôr as mãos na massa, estás a ver? E acabei por realmente incorporar esse conhecimento!
Percebi que tinha de mudar alguma coisa na minha vida de forma bem radical. Foi então que me mudei para a quinta. Mudei-me para uma quinta de cogumelos, uma quinta de produção de cogumelos shiitake, e comecei a cultivá-los e a passar ali muito tempo. E uma coisa levou a outra, acabando por tornar-se numa obsessão.
E depois toda a minha vida. Também comecei a reparar que as coisas estavam a mudar muito para mim, na medida em que passava tanto tempo a pensar nos fungos e a estar perto dos fungos, que senti a necessidade de lhe dar sentido. E, para mim, escrever é um processo de compreensão.
Os 12 ensinamentos que incluí no livro são coisas que podemos implementar na nossa vida, na forma como tomamos decisões; como colaboramos; como nos relacionamos com as pessoas; como nos relacionamos com a morte ou a transformação; como nos relacionamos com o tempo… Claro que isto pode ser aplicado desde as decisões que tomamos a um nível macro, por exemplo, onde e como vivemos, até às decisões micro, do nosso quotidiano.
Qual é título profissional que te atribuis a ti mesma?
Considero-me uma criadora de pontes. Costumava chamar-me curadora, e gosto muito da associação entre as palavras curadora e curar, olhando para um lado curativo das coisas, de cuidar e nutrir, mas sinto que, atualmente, a palavra curadora está mais associada apenas a fazer exposições. E, na verdade, eu já não faço exposições.
Adoro a parte da pesquisa, mas o problema que tenho com a organização de exposições é a construção de todo um ambiente, as paredes, o transporte de coisas a partir de todo o mundo, a logística, ter tudo num lugar durante três meses e depois desmontar tudo e voltar a montar tudo outra vez. Há algo nessa temporalidade que não funciona para mim. Mas, claro, também há a parte que envolve a pesquisa e as relações com os artistas, reunir temas ou contextualizar coisas, com a qual me sinto muito alinhada e próxima, e que me entusiasma.
Como é que achas que os teus projetos, como o Green Art Lab Alliance, se relacionam com o projeto de residências artísticas Institution(ing)s, e quais são os maiores desafios e lições aprendidas ao trabalhar com comunidades tão diversas e geograficamente distantes?
Penso que existe um paralelo muito claro no questionamento ou na reflexão sobre as práticas no interior das instituições, particularmente em relação a questões sociais e ambientais. Acho muito importante que continuemos a fazê-lo porque, tradicionalmente, as instituições são sítios extremamente importantes para cuidar da comunidade, são o seu ponto fulcral em termos de recursos
Mas são também as construções que mais demoram a mudar. Não se podem comparar com um coletivo. Por exemplo, um coletivo consegue tomar decisões muito rapidamente e mudar de direção. Já numa instituição, há imensos obstáculos que precisam de ser contornados para se fazer qualquer mudança e, à medida que vamos evoluindo e – gostaria de pensar – à medida que entramos num paradigma diferente em que repensamos essas mesmas instituições, isso acarreta mudanças.
Evoluir implica mudanças que temos de fazer. E essas mudanças serão mais lentas nas instituições, e é por isso que eu acho o projeto Institution(ing)s tão empolgante. É preciso colocar rebeldes dentro dessas instituições que apontem para o que é que não está a funcionar.
No contexto do teu workshop Tornar-se Fúngico, que se baseia no teu livro Let’s Become Fungal! – Mycelium Teachings and the Arts, como podemos nós aplicar o conceito de redes de micorrizas como metodologia comunitária nas artes, nas ciências e na sociedade? E como é que as aplicas no dia-a-dia da tua vida institucional e artística?
Existe a dimensão ambiental de que falámos. É mais a função ecossistémica do micélio das micorrizas. E isso já é uma lista completa que nos permite dizer: oh, é o maior sumidouro de carbono em terra, protege contra a erosão, redistribui recursos para o crescimento de outras plantas. Portanto, há toda uma lista nessa dimensão ambiental. Depois, há uma dimensão social que, por seu lado, se relaciona com a ideia de construir comunidade, de colaborações e simbiose, por forma a existir uma troca mutuamente benéfica.
E depois, no outro dia estava a falar com alguém sobre a dimensão espiritual. Porque, para mim, isto chega ao ponto de sentir que não fui realmente eu a escrever o livro. Que este conhecimento veio dos fungos. Que eu apenas o canalizei. Sei que parece uma loucura, mas sinto que o canalizei. Sinto que os fungos escolhem as pessoas – sei que soa estúpido quando o digo em voz alta – mas é como se os fungos escolhessem pessoas para serem os seus embaixadores.
De repente, isto tornou-se um tópico gigantesco na minha vida. E sinto que muitas das pessoas com quem conversei para o livro ou que participam nos workshops têm uma experiência muito semelhante. Seja através da investigação, do lado teórico, ou do cultivo dos fungos, há um conhecimento que também se liga a algo diferente.
E é também uma relação simbiótica, repito, porque também me foi útil. Somos aliados.
Como imaginas o futuro das instituições artísticas em termos de sustentabilidade e colaboração interespécies? Que lições podemos aprender com o vasto universo dos fungos, que possamos aplicar à construção de um futuro culturalmente próspero e diverso?
Essa é uma pergunta difícil. Penso que, na verdade, as coisas por vezes precisam de se desmoronar antes de as podermos reimaginar radicalmente. A nossa imaginação para pensar nas possibilidades com base naquilo que já vimos e que sabemos é muito limitada. É difícil libertarmo-nos desse padrão.
No outro dia, li uma entrevista muito interessante com o diretor de um jardim zoológico. Ele dizia que, se queremos verdadeiramente reimaginar a nossa relação com os animais, precisamos de abandonar completamente a ideia dos jardins zoológicos. Porque senão, só conseguiremos pensar de uma forma com esse sistema, chamemos-lhe um sistema capturado, em que tentamos fazer com que este fique melhor. Talvez para que o tigre não esteja numa jaula mas atrás de uma vedação elétrica invisível, e isso parece-nos melhor. E os visitantes do jardim zoológico pensam: «oh, que bela vida levam os animais aqui.» E parece bem. Mas, no essencial, é teatro. E nós adoramos o teatro quando este é consensual, claro.
Nas instituições, há muitas tentativas de adaptação, por exemplo quando dizemos: «vamos fazer a parede de micélio, e vai ter mesmo bom aspeto», e depois vem a conversa do «oh, é um museu interespécies»… Um pouco como darmos-lhes uma palavra fixe e depois…
Bem, se quisermos mudar alguma coisa radicalmente – que é o que temos de fazer, porque, caso contrário, resta-nos ficar à espera que um terremoto crie o colapso ou que uma cheia crie o colapso ou que outra coisa qualquer crie o colapso. Porque podemos ter a nossa belíssima parede de micélio, mas continuar com um sistema de poder patriarcal e hierárquico dentro da instituição, que apenas continuará a persistir até se extinguir.
Por vezes, as coisas também precisam de se desmoronar para serem reimaginadas. Não quero com isto dizer que é necessário destruir tudo, mas acho que devemos pensar adiante do verdadeiro colapso ambiental, precisamos de ser muito mais radicais na forma como imaginamos aquilo que estas instituições podem ser.
Qual é a tua palavra favorita, a tua comida favorita e a tua cor favorita?
Bom, tenho uma nova palavra favorita. Porque fiz o workshop, no outro dia, na Cidade do México, com um grupo de mulheres, e elas inventaram algumas palavras novas incríveis. E uma dessas palavras ficou na minha cabeça, uma combinação da palavra líquen – uma associação simbiótica entre fungos, algas e cianobactérias numa relação mutualista, que surge em várias cores e tamanhos – e eu me identifico muito com isso. A palavra era uma combinação de líquen com identidade: Liquentidade. Adoro esta palavra porque, basicamente, também significa que é possível a nossa identidade estar em simbiose com diferentes espécies, com cianobactérias, com diversas entidades, e todas elas vivem dentro de nós.
A cor: gosto do azul Yves Klein. Adoro essa cor, o que é agradável porque no México há muitos edifícios dessa cor, por isso traz consigo um toque de lar.
Em relação à comida, gosto mesmo de comer cogumelos. E adoro comer coisas que não conheço. Assim, optaria por… – Não sei se mencionei isto no workshop, acho que sim – que menos de 5% de todos os fungos estão identificados. Menos de 5%! Portanto, quase nada. Ainda há tantos que não conhecemos… E não estou interessada apenas no elemento alimentar. Porque acho que estamos muito habituados a pensar: «será que é comestível?» Eu gosto de não pensar sempre do ponto de vista individual, mas mais: «O que é que este me pode ensinar?»
Mas, se tivesse de escolher uma comida favorita, diria que é um cogumelo comestível que ainda não tenha sido identificado.