«As sementes precisam de quebrar»: uma conversa com Lidija Kolovrat sobre crescimento, paciência e transformação
Inspirando-se em sementes recolhidas no Jardim Gulbenkian e noutros lugares, Lidija Kolovrat traduz as suas formas e o seu simbolismo em padrões, materiais e movimento. A coleção percorre diferentes fases – da dormência e escuridão à emergência e floração – convidando-nos a refletir sobre o que significa abrir-se para poder crescer.
Jule Kurbjeweit: Como surgiu o tema da nova coleção? Quais são as tuas inspirações?
Lidija Kolovrat: O tema surgiu a partir das sementes. E as sementes, enquanto potencial, são algo que também está profundamente dentro de nós. Levam-nos ao passado e ao futuro. Em momentos como o atual – momentos que nos fazem querer saber o que vai acontecer, o que está a acontecer – podem funcionar como uma orientação para a renovação. O título diz que as sementes precisam de quebrar, de se partir, para poder crescer. Uso isso como uma metáfora: também nós precisamos que algo se abra ou se parta para que a mudança aconteça.
JK: Como vemos este tema na coleção?
LK: Vemo-lo de muitas maneiras diferentes. Começámos por desenvolver padrões e estampados em tecido. Imprimimos sementes em diferentes composições. Cada padrão tem uma abordagem ou um conceito diferente. Às vezes é uma repetição geométrica. Noutras criamos um leitmotiv inspirado em padrões florais. Por exemplo, usamos o café como se fosse uma flor, portanto há aí uma metáfora. Também temos feijões, temos café em alguns padrões, e os outros têm diferentes sementes. Algumas reconhecemos visualmente, outras são realmente comestíveis.
JK: A coleção também atravessa diferentes fases, e claro que a semente também passa por diferentes fases.
LK: Exatamente. Usamos isso em três ritmos. Tanto na música como na coleção existe um momento mais escuro, em que as sementes ainda não surgiram. Depois vem a floração, ou a chegada da primavera – aliás, agora mesmo a primavera está a chegar. Por isso coincide com o tempo. E provavelmente também não estaremos lá para ver o que as sementes trazem, qual será o resultado da coleção.
JK: Como é que isso se reflete na apresentação? Há uma espécie de desenvolvimento na forma como os materiais e os designs são apresentados?
LK: Sim, há. Começa com formas muito controladas, formas geométricas, formas que lembram a própria semente numa escala maior, e também algumas formas geométricas que não são tão orgânicas. E há peças mais soltas, que falam connosco numa linguagem diferente, mais abstrata.
Por exemplo, tínhamos organza, que já tinha uma espécie de enrugado regular. Depois cortámos outros tecidos e colocámo-los entre duas camadas de organza, como se fossem sementes ou algo vindo da natureza. As sementes podem ter qualquer forma, por isso tínhamos liberdade.
Outra peça é mais livre. É uma organza de seda que já tinha pequenos orifícios no tecido. Começámos a passar o tecido por esses orifícios e a drapeá-lo de forma irregular. Deixámo-lo acontecer, sem ser tão controlado.
Há também uma peça mais imaginária, suave, quase ingénua, que conta histórias do que vemos ou imaginamos à volta das sementes e do seu ambiente. É um trabalho muito espontâneo, muito intuitivo, feito com a máquina de costura.
Tal como as sementes, as peças podem ser muito diferentes entre si. A ideia era desenhar de forma que cada peça fosse diferente, como as sementes. Isso significa que cada momento é diferente. Tudo é como uma semente – podemos usá-la como sinónimo de potencial. Algo muito pequeno que pode tornar-se enorme. Pode multiplicar-se. No seu ADN guarda informação, tal como nós. De certa forma, nós também somos a semente. É um objeto e não é um objeto.
JK: Também é um ser vivo.
LK: É um ser vivo, sim. Que dorme. É muitas coisas ao mesmo tempo. É isso que me fascina nas sementes. Existe uma enorme variedade. Estão presentes em todas as culturas e em todos os continentes. São influenciadas pelo clima. São um pequeno ato de fé. São memória. São uma promessa para amanhã.
JK: Volta muitas vezes à ideia de futuro. A semente parece sempre indicar um futuro.
LK: Algo vai surgir. Na maioria das vezes – às vezes não. Mas há sempre algo que pode surgir. Quando pensamos numa semente é como perguntar o que virá a ser – neste caso, em 2026. É uma metáfora muito forte para o que está a acontecer e para aquilo que podemos retirar disso. Ajuda-me muito a compreender o momento que estamos a atravessar. É potencial, mas também algo humilde. É paciência e, ao mesmo tempo, esforço e força – procurar a luz, procurar soluções, procurar crescer, dar fruto, dar resultados.
JK: Há muito que podemos aprender com as sementes e com esta metáfora.
LK: Sim, se observarmos as sementes, elas dão-nos esperança. E claro que precisamos de preservar as sementes, porque esse é outro aspeto do tempo em que vivemos: muitas sementes são geneticamente modificadas, o que também se reflete na alimentação. Isso pode influenciar a nossa saúde. Por isso trata-se também de as proteger e de compreender que provavelmente o seu maior potencial está no seu estado original.
JK: Portanto as sementes representam muita esperança, um olhar voltado para o futuro. Mas o título da coleção também diz que precisam de quebrar ou de se partir para crescer. Há também um momento de pressão ou talvez de dificuldade.
LK: Sim, pode ser uma dificuldade. Ou simplesmente um desejo tão grande de crescer que é preciso partir. Como quando nascemos – esquecemo-nos disso. É uma energia de esforço que quer crescer. O título diz que precisamos de nos abrir para poder crescer. E isso também significa aceitar esse processo como algo normal, não o ver como algo demasiado difícil. Uso as palavras «quebrar» ou «partir» porque algo tem de se abrir, e dizer apenas «abrir» não é exatamente o mesmo – tem de atravessar alguma coisa. Literalmente, quando vemos uma árvore e um pequeno rebento verde a surgir, ele abriu-se, ele rompeu. Não sabemos como isso se sente. Como nos sentimos quando abrimos algo dentro de nós? É um momento de transição.
JK: Acho que muitas vezes pode parecer assustador antes de acontecer, porque é preciso exercer muita pressão para abrir algo.
LK: Por isso temos de praticar. E quando acontece mais vezes, torna-se mais fácil.
JK: Falando das inspirações para a coleção – mencionou as imagens usadas como ponto de partida para os padrões. Que outros lugares ou contextos servem de inspiração?
LK: Começámos pelo Jardim Gulbenkian e falámos com a pessoa responsável pela parte botânica. Recolhemos sementes e fotografámo-las. E alguns padrões vêm diretamente dessas sementes. Tenho um pouco de obsessão em conseguir captar essas formas nas peças.
JK: O que podemos esperar do evento no CAM – sem revelar demasiado?
LK: É um desfile com modelos. Os modelos terão uma forma específica de caminhar. Há música e som que evocam as sementes. Quase se pode imaginar o que está a acontecer com as sementes naquele momento.
O público não estará sentado. A ideia é que esteja muito próximo das modelos, que exista alguma mistura – não um ambiente seletivo em que o público está de um lado e as modelos do outro. Estamos todos juntos. Assim podem sentir a experiência mais de perto e compreender melhor a ideia.
JK: Trabalhou com alguém na música e no som?
LK: Sim, com o Nelson Gomes. Trabalha comigo na música há muitos anos. Acho que a música será muito interessante. Tem algo muito profundo. Sente-se que o som se liga àquilo que imaginamos. É como sentir as sementes através da música.
JK: Isso parece muito bonito. E relativamente a esta coleção, mas também de forma mais geral, qual é a sua ideia de sucesso? Como se manifesta?
LK: Há diferentes aspetos no trabalho que propomos. Trabalhamos com o corpo e com aquilo que é desejável vestir, por isso também tem a ver com beleza. Mas há também a inovação, mostrar técnicas diferentes. Por exemplo, nesta coleção manipulámos o tecido de uma forma diferente, criando texturas e juntando restos de tecidos para construir uma narrativa visual, como sementes espalhadas no chão. E tenho sempre este impulso: «Está demasiado normal», «está demasiado elegante», «não corresponde ao sentimento». Então preciso de destruir um pouco, de tornar mais surpreendente para mim própria, de produzir algo estranho, algo novo e não convencional.