«Desenho Habitado», de Helena Almeida

«Desenho Habitado», de Helena Almeida, inscreve-se num momento em que a artista começa a afirmar o corpo como lugar de trabalho. Rosa Barba selecionou esta obra da Coleção do CAM para integrar a sua exposição «Desenhar Vocabulários».
Margarida da Fonseca 26 jun 2026 3 min
Obras da Coleção do CAM

Durante os anos 70, em Portugal, a prática de Helena Almeida (1934-2018) configura-se diante de um cenário onde artistas mulheres eram sujeitas a constrangimentos e formas de invisibilidade. Esse ambiente condicionou, ainda que nem sempre abertamente, o conjunto de trabalhos produzido por Helena Almeida.

Em Desenho Habitado (1977), a fronteira entre desenho, fotografia e ação dissolve-se. Em vez de mostrar o corpo, a artista integra-o como elemento operante na composição. O movimento passa então a funcionar como prolongamento visual da obra. A imagem não resulta apenas do traço, nasce também do fazer presente.

Durante o seu percurso, Helena Almeida questionou os limites físicos e simbólicos do espaço. Neste segmento de trabalhos, o corpo habita o quadro, ainda que o dispute, como quem desafia as suas próprias margens. A linha passa a não ser somente um risco sobre o plano, mas ganha ritmo, pressão e esforço por marcar uma posição lá dentro.

Existe na obra uma relação ambígua entre contenção e liberdade. Fragmentos do corpo da artista surgem em substituição, ora visíveis, ora quase ausentes. Longe de seguir regras estáveis, o traço age como movimento constante. Em vez de entregar uma imagem pronta, Helena Almeida mostra o desenho como gesto vivo – marcado por insistência, tensão e encontro com o lugar onde se insere. A cada instante, algo resiste, persiste, ocupa.

A imagem surge então como marca de um momenteo encenado. Não se trata somente de uma sequência fotográfica, em vez disso revela o rastro de algo feito antes, de alguém que procurou preencher a figura além do plano onde ela existe. Em cada quadro, persiste uma luta silenciosa – ora aparece, ora desparece, ora domina, ora entrega. A cena permanece entre mostrar e esconder, ficar e passar.

Assim como em outros trabalhos da artista, Desenho Habitado foge a qualquer interpretação fixa. Em vez de mostrar o corpo como forma imutável, revela-o em mudança constante – sempre à procura, nunca parado. Entre traço, lugar e substância, a peça mantém-se em tensão subtil. É por esse movimento que o desenho passa a ser sentido, mais do que visto.

A inclusão desta sequência fotográfica na exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, apresentada no espaço do Mezanino, evidencia uma das linhas de pensamento que atravessa a curadoria de Rosa Barba: a atenção à linguagem, à inscrição do corpo, às maneiras de expor o invisível.

Vista da exposição "Rosa Barba. Desenhar Vocabulários" © Bruno Lopes

Em vez de separar tempos ou nomes, Rosa Barba entrelaça diversas peças, criando diálogos tensos entre palavras, movimentos, gestos e imagem. Assim, a peça revela aquilo que normalmente fica escondido – a passagem ténue entre estar ali e já ter partido. Desta forma, a obra reforça uma das questões centrais da exposição: a forma como corpo, imagem e linguagem constroem significado através das relações que estabelecem entre si.

O tempo na obra não avança de modo linear; ele enrola-se sobre si mesmo, puxado pelo peso dos gestos repetidos. Cada fotografia parece hesitar antes de se firmar, como se recusasse a virar um monumento. Ao fundo, quase sem avisar, ressoa a proposta curatorial: nada aqui está imóvel, tudo conversa enquanto dura.

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