«Interior #2», de Patrícia Garrido
Para escrever sobre Interior #2, é importante refletir sobre o corpo de trabalho de Patrícia Garrido. Não porque a sua leitura ou fruição estejam dependentes das relações com outras obras, mas porque – servindo-me das palavras da própria – é possível que todas as suas peças sejam, na verdade, a mesma: reformulações contínuas de uma identidade sempre em fluxo, em constante diálogo com os fluxos do mundo.
As suas esculturas e instalações são odes à persistência das coisas e das memórias, construídas de elementos utilitários reutilizados cujo propósito primeiro é mediar as relações entre corpo e espaço. Essas relações são substancializadas em formas, onde tanto o corpo, como o espaço que o contém estão ausentes, mas claramente impressos: embora partindo da referenciação autobiográfica (o corpo da artista é medida universal das suas obras), desvanecem-se os limites da subjetividade, pois na marca indelével desse corpo ausente poderia caber o nosso.
Entre o pessoal e o universal está a casa, o centro do mundo e o nosso. Ao descarnar estes lugares construídos, Garrido revela intrincadas relações entre corpo, espaço e vida. Se, como ela, acreditarmos na acumulação afetiva sobre as superfícies que nos envolvem – imaginando camadas sedimentares de história testemunhadas e memorizadas pelas estruturas que amparam a vida humana – podemos pensar nos objetos também como casas, onde guardamos ou pousamos partes de nós.
Interior #2 foi especificamente construído para uma exposição na Fundação Carmona e Costa, e na relação com a galeria, a sua escala obrigava a circular pelo estreito corredor que o separava das paredes do espaço. Ao corpo constrangido, excluído e relegado à periferia, resta-lhe projetar-se pelo olhar para esse interior, transparente mas intransponível, conformado por cantoneiras abandonadas numa antiga oficina onde a artista estabeleceu o seu atelier. Nesta peça encontramos muitas das especificidades da obra de Garrido – a arquitetura, o módulo padrão, a repetição, o material construtivo – aqui extrapoladas para uma escala brutal que, inevitavelmente, nos faz questionar de que forma os espaços nos modelam para que possamos caber neles.
Uma instalação imponente, Interior #2 é, acima de tudo, a materialização de um processo que dura uma vida: continuamente construir, desconstruir e reconstruir o(s) nosso(s) lugar(es) e identidade(s), nunca finais, nunca estanques. Sem plano de montagem fixo, cada assemblagem resultará numa obra que é outra e a mesma. Um pouco como viver, reaprender todos os dias como habitar os nossos corpos e o mundo, sempre em fluxo – fazendo e refazendo a mesma peça.