«Brincar com canoas e afogar cães», de Diogo Nogueira
Brincar com canoas e afogar cães (2023), de Diogo Nogueira, é uma pintura de enormes dimensões (o seu suporte é um telão publicitário), onde onze figuras masculinas se distribuem por duas canoas, enquanto uma terceira, aparentemente vazia, flutua para fora do enquadramento da cena.
Destas onze figuras, nenhuma tem uma face definida, não havendo qualquer possibilidade de subjetivação ou identificação – o tema central aqui não é o corpo ou a figura isolada, mas as relações entre corpos e como os seus encontros constroem comunidade.
As formas inacabadas das figuras na paisagem indefinida trazem para o primeiro plano de leitura da pintura, não as personagens ou o ambiente que estas habitam, mas as relações entre os corpos representados, como estes se tensionam no encontro com outros.
Neste lugar do sonho, a fantasia do toque oscila entre os polos violência/carinho: o cão que morde a mão, a mão que toca a face, o roçagar das peles nuas dos companheiros de embarcação, vários gestos com leituras múltiplas e tão diferenciadas, consoante a história que deles queiramos contar.
O conforto na nudez parece ampliado pela presença de uma única personagem vestida, que reforça o jogo de leituras opostas, tal como uma certa estranheza intrínseca à ficção (nascida da tensão entre o que nela iguala ou difere do real); da mesma maneira como o faz o riso partilhado pela maioria das personagens, e que parece não encaixar com a ameaça de uma morte anunciada no título. Esse riso que, sem conhecimento do presságio, pode ser a celebração de uma alegria queer da comunhão entre corpos, em tanto diferente da normatividade sexual e de género pelas suas distintas construções ritualísticas comunitárias.
Tingindo a ficção de um cariz autobiográfico quase impercetível, Diogo Nogueira é pintor mas também tema, traduzindo em imagens a ideia de uma identidade, as camadas que a constroem, as referências que a influenciam e os desejos que a moldam.
É transversal à sua obra uma enorme consciência do potencial do mito e da ficção na criação de identidades individuais e especialmente coletivas – inseparáveis de algo que há já muitos anos tem sido reclamado pela teoria queer como a sua utilidade mais disruptiva, essa capacidade de nos permitir imaginar mundos e formas relacionais diferentes das estabelecidas pela ordem social vigente.
As suas ficções pictóricas convidam-nos a imaginar infindáveis narrativas humanas, que possam transbordar para a realidade do mundo e expandir os horizontes das possibilidades de vida comum para lá das normas e da normalização, num lugar onde corpo e desejo são uma e a mesma coisa.