Quando a escrita não basta: os desenhos de Maria Isabel Barreno
Antes de desenhar, Maria Isabel Barreno (1939–2016) escrevia. As palavras bastavam-lhe para dar forma ao pensamento, explorar o mundo e o íntimo. Mas em algum momento – como sucede por vezes com quem cria – a escrita revelou-se insuficiente. O gesto pediu espaço, e o traço começou a insinuar-se. Só depois veio a consciência:
«Durante muito tempo apenas escrevi. Os sons tinham cores, as frases alongavam-se como braços ou ramos, jogando um claro-escuro rendilhado com o nomeado, com o dito. Às vezes, quase sem eu dar por isso, minhas mãos agitavam-se em minuciosos desenhos, quando eu pensava. Julgava eu que a escrita me bastava.(…) Até que um dia, eu sou, disse, e desenhei.»[1]
Estas palavras, de Maria Isabel Barreno, leem-se no catálogo da sua exposição individual, ocorrida no CAM, em junho de 1986. Escritora, coautora das Novas Cartas Portuguesas, com a exposição Desenhos, Livros e Tapeçarias de Maria Isabel Barreno afirma-se também como artista plástica. O CAM guarda na sua Coleção dois desenhos desta mostra: Espreitando as folhas (1982) e Limpo (1982). Este último escolhido por Leonor Antunes para integrar a exposição uma seleção de obras da coleção por leonor antunes.
Limpo (1982) propõe a palavra enquanto materialidade plástica. As letras tanto são desenhadas como dactilografadas, e por entre frases e parágrafos, nascem traços gráficos que reforçam a ideia de um pensamento em fluxo, onde a escrita e a imagem se contaminam. É um jogo de caos e ordem onde toda a superfície é ocupada por palavras, cores e texturas.
A frase «Para os amantes da limpidez» – que aparenta um tom satírico – surge em destaque no topo da composição, envolta em camadas de cor que se expandem como ondas, sugerindo um movimento orgânico que conduz o olhar para os outros elementos do desenho. O preenchimento total do espaço contrasta imediatamente com o título da obra e a noção de «limpidez», associada à clareza e à ausência de ruído. O discurso chega mesmo até à moldura do desenho, onde se inscrevem as frases «As redes confusas com que pescamos» e «Os amargos enredos das nossas vidas».
Num dos parágrafos são evocados mitos e imagens simbólicos. A narrativa entrelaça elementos da mitologia e da condição feminina, fala de raízes mágicas, sangue e transformação. O texto é absorvido pela explosão gráfica da caneta de feltro e das suas cores. As palavras manuscritas que se sobrepõem formam um comentário marginal que expande o discurso central.
A saturação da informação visual obriga a um processo de descodificação mais demorado e atento. É uma estratégia de resistência ao discurso homogéneo. Ao invés de uma leitura transparente e direta, o desenho exige um esforço interpretativo, uma disposição para lidar com a justaposição de significados. Não existe uma economia de meios. Pelo contrário, a obra nasce da complexidade e da sobreposição, não da ausência.
Nas palavras da artista percebemos que a sua experiência com a escrita era tão profunda e complexa que a linguagem era percecionada de forma visual. O desenho surge como uma expressão involuntária e natural, diretamente relacionada ao ato de escrever e, assim, a sua extensão.
Da coexistência de vários símbolos, da justaposição de linguagem e imagem, discurso e matéria, nos desenhos de Maria Isabel Barreno nasce um espaço de liberdade.
[1] Barreno, M. I. (1986). Dezanove Desenhos de Maria Isabel Barreno. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna. Proveniência: Biblioteca de Arte Gulbenkian.