«Leitura e Contraleitura de uma Janela Objeto», de Irene Buarque

A curadora Francisca Portugal entrevista a artista Irene Buarque a propósito da recente aquisição da obra «Leitura e Contraleitura de uma Janela Objeto» (1978) para a Coleção do CAM.
Francisca Portugal 24 mar 2025 7 min
Obras da Coleção do CAM

Conheci a Irene Buarque (São Paulo, Brasil, 1943) durante a sua exposição, Uni Verso Plural (2024) na Fundação Carmona e Costa, Lisboa. A exposição expandia retrospetivamente o seu trabalho, desde pintura, instalação de vídeo, escultura e livros de artista, e representou um marco na sua carreira artística, sendo a primeira de grande escala dedicada ao seu espólio.

Desta vez, encontrámo-nos no novo edifício do CAM, um espaço que lhe é familiar desde 1973, quando veio para Portugal vinda do Brasil por sugestão do artista Fernando Lemos. Na época, recebeu uma bolsa da Fundação Gulbenkian, instituição que descreve como «um oásis na cidade».

Na sequência das mais recentes aquisições do CAM, convidámos a artista para uma conversa sobre a sua relação com a Fundação, a sua produção artística e a forma como esta se desenvolveu em relação às mudanças sociais e políticas em Portugal.

A sua primeira exposição em Portugal, Irene Buarque (1975), foi inaugurada no Jardim Gulbenkian, marcando o fim da sua bolsa. Esta exposição, realizada em paralelo com as de Fernando Calhau e Eduardo Batarda, revelou desde cedo a curiosidade de Irene pelo tecido urbanístico e arquitetónico das cidades portuguesas, onde destaca o papel social e o vestígio histórico das muralhas como monumentos ideológicos. A artista optou por apresentar 19 pinturas circulares (da série Muralha) suspensas por um cavalete, inspiradas na topografia do espaço e nas muralhas dos castelos portugueses, uma novidade para quem vinha de São Paulo, onde «só havia muralhas da ditadura». 

«Os muros separam os espaços, a cidade, as pessoas; eu sentia também que estava dentro de uma muralha, estando Portugal tão isolado do resto do mundo durante o regime.»

Estes símbolos, que demonstram tanto sensibilidade poética como consciencialização política, carregam o sentido duplo desta imagem: a fuga e a esperança e, por sua vez, a experiência da ditadura e o período pós-revolução vivido pela artista, que «estava a pintar a décima Muralha quando aconteceu o 25 de Abril. Das pinturas que foram produzidas pós-revolução escolhi fazer algumas a preto e branco [duas das quais estão na Coleção do CAM] e viraram quase vidraças, aproximando-se já de janelas.»

Houve uma crescente reciprocidade entre a sua experiência urbana e o seu trabalho artístico. Desenvolvendo-se em sintonia com a cidade de Lisboa, que lentamente se organizava em democracia, observamos uma aproximação de afinidades visuais com a situação política. Em consequência dessa relação com a vivência urbana surge o tema da obsessão da artista pelo registo de janelas e a sua reprodução através da gravura e fotografia. Irene Buarque fala da cidade de Lisboa como um lugar para andar a pé, ao contrário do que acontece em São Paulo. Nos passeios que dava, encontrou interesses em elementos arquitetónicos, em especial nas fachadas dos prédios. O enquadramento geométrico proporcionado pela disposição das janelas e a riqueza que observou na diferença dos vários estilos levou-a a aperceber-se «que estava a encontrar também a História da Arte, o estilo pop, o clássico, o minimalista…», segundo Buarque, «Não tem um único artista que não tenha qualquer coisa a ver com janelas.»

«Não tem um único artista que não tenha qualquer coisa a ver com janelas.»

A instalação, adquirida em 2024 para a Coleção do CAM, é um exemplo dos múltiplos tipos de janelas e molduras por si encontradas. O conjunto foi apresentado pela primeira vez, por sugestão de Ernesto de Sousa, na exposição Leitura e Contraleitura de um Espaço Limite: Janela, em 1978, na Galeria Quadrum em Lisboa. É nesta altura que também fica explícito o papel da gravura e da serigrafia na prática artística de Irene Buarque, tendo sido uma das fundadoras da Cooperativa Diferença em Lisboa.[1]

A instalação Leitura e Contraleitura de uma Janela Objeto foi apresentada juntamente com uma moldura-janela, que foi tratada como a referência para a produção das restantes peças. A janela é reproduzida numa organização simulada, em impressões de molduras, com os seus contornos retos, simplificados a favor da geometria. As faixas de papel, que se organizavam no chão e suspensas no espaço, sugeriam uma certa cadência numa objetificação crescente e abstração da imagem base[2]. «Eu quando pego numa forma levo-a até às últimas consequências». O mesmo acontece no interesse da artista em reformular a arquitetura do espaço interior para o exterior e, através da escala e da repetição, recriar nesses padrões o que observava e fotografava no exterior. Buarque descreve as janelas «como extensões de pessoas» e, desse modo, estas janelas que expõe personificam-se e permitem-lhes ações, desejos e pensamentos. Num momento final da exposição, foi organizada uma pequena performance em que a artista recorta uma das janelas com uma lâmina.

«Leitura e contra-leitura de um espaço limite: JANELA» (1978), CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian

Esta ação final esclarece e conclui esta conversa, demonstrando o imenso poder da simbologia utilizada por Irene, e a contemporaneidade das suas palavras e da sua experiência como artista brasileira que vive e trabalha em Portugal desde a sua chegada na segunda metade da década de setenta. A importância de incluir esta artista na coleção assenta não só na contínua relação de apoio e trabalho com a instituição, mas também no contributo da artista Irene Buarque para o panorama artístico nacional e internacional.


[1] Um espaço no centro de Lisboa criado em 1978 e gerido por um conjunto de artistas: Ernesto de Sousa, Helena Almeida, Irene Buarque, António Palolo, Monteiro Gil, José Conduto, José Carvalho, Fernanda Pissarro, Marília Viegas e Maria Rolão. Com uma programação diversa e espaços de trabalho, a Cooperativa Diferença dedicava-se a técnicas de impressão, publicações, eventos experimentais de performance e exposições. Atualmente a Galeria Diferença.

[2] «Trabalho de quase dois anos – 1977/78 – e dividido em cinco fases: 1.ª Fase: Levantamento fotográfico tratando (ou seleccionando) a janela como pintura figurativa, ora abstracta, ora pop, etc…; 2.ª Fase: A estrutura de uma janela como um objecto, desmistificando sua função e considerando o símbolo e a forma. São as sequências na areia, na água e no fogo; 3ª Fase: Projetos de janelas reproduzidos no papel, riscadas na areia, traçadas no vidro de outra janela e esquematizadas com etiquetas; considerando a linha, os planos e os meios; 4ª Fase: A janela tratada como forma geométrica, considerando a ambiguidade da imagem, o vazio, o cheio, o dentro e o fora.; 5ª Fase: A “janela-reflexo”, suas mutações com a luz, considerando a imagem devolvida, projectada, intransponível e impenetrável.» – Catálogo Galeria Quadrum, 1978.

Série

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