Katharina Lackner e a arte de voltar a ser criança

Uma oficina orientada por Katharina Lackner levou crianças e adultos a explorar a criatividade através da experimentação livre. Neste artigo, o colaborador da BANTUMEN Edson Vidal reflete sobre o valor do processo criativo que marca o início desta residência.
Edson Vidal 15 jun 2026 3 min
BANTUMEN na Gulbenkian

De onde vem a criatividade? O que nos move a tocar no que já existe e a moldá‑lo até que se torne outra coisa? Um grande amigo meu chama‑lhe o espírito da coisa – essa força invisível que nos atravessa quando algo pede para ser criado. No passado dia 31, acordei cedo e fui até à Fundação Calouste Gulbenkian, não à procura de respostas, mas atrás da curiosidade de criar uma paisagem onírica.

Esse é o ponto de partida da residência aberta da austríaca Katharina Lackner, no CAM: um convite para que crianças e adultos recolhessem vestígios da natureza – folhas, ramos, memórias, sonhos – e, com tintas e tecidos, lhes dessem uma nova forma.

O trabalho de Katharina nasce desse impulso de brincar e usar as mãos. «Experimentar e tentar. Exatamente. Divertir‑se, especialmente divertir‑se», disse‑me a artista, acrescentando: «nem sempre temos de trabalhar para um produto. Às vezes é tão bom apreciar o processo.» E era precisamente esse o desafio escondido no convite.

Mas ser adulto, em 2026, é viver sob a exigência de alcançar mais, ir mais longe, corresponder ao que vemos nas redes sociais e ao que a tão celebrada Inteligência Artificial nos promete. Como é que me dispo dessa pressão e mergulho apenas no processo?

Talvez por isso Katharina prefira trabalhar com crianças: «eu só tenho de criar um ambiente em que elas possam… não sei… expandir ou crescer.» Elas não ficam muito tempo presas a questões, elas abraçam o desafio.

E foi exatamente isso que aconteceu naquela sala inundada de luz, numa manhã solarenga de domingo, em Lisboa. As crianças expandiram.

O espaço encheu‑se de olhos – tímidos no início – como se carregassem um leve desconforto e perguntassem: «porque me trouxeram para aqui?» Mas rapidamente encontraram objetos que reconheciam desde sempre: folhas, ramos, tintas… E tinham as suas ferramentas favoritas – as próprias mãos. Só havia uma coisa a fazer: experimentar, misturar, tocar, usar o que lhes foi explicado e, claro, fazer ao contrário do que lhes foi pedido. Não havia medo de errar, porque ali nada podia ser errado.

«Pai, olha o que eu fiz, faz tu agora.»

«Que cor é esta que eu inventei?»

« Podemos fazer isto em casa?»

A sala estava cheia de vozes e sorrisos de quem vive o momento. Foi então que larguei a câmara e fui sujar as mãos. Usei folhas como stencils, outras como carimbos, misturei cores e perdi‑me no meio daquelas ferramentas analógicas, como quem regressa a um sonho antigo dentro de si. É-nos tão natural brincar com as mãos sujas, é voltar a ser o que já fomos um dia.

Talvez aquela oficina não tivesse apenas o propósito de fazer arte, mas de lembrar aos adultos como eu, como é ser criança – e, assim, reacender a criatividade que ainda vive em nós.

Katharina contou‑me um estudo que a NASA fez nos anos 60: testaram crianças de cinco anos e descobriram que 99% delas tinham potencial criativo ao nível de génios.

Cinco anos depois, esse número caiu para 30%. Aos 21, restavam 3%.

E aos 47… que percentagem me resta?

A verdade é que não interessa. Hoje não preciso de respostas. Hoje escolho o que aprendi com a Katharina – e com todas as crianças daquela sala – e volto a entregar‑me ao processo.

Série

BANTUMEN na Gulbenkian

A BANTUMEN, plataforma dedicada à Lusofonia Negra, junta-se à Fundação Gulbenkian para oferecer um novo olhar sobre atividades e artistas, numa parceria que promove a diversidade das perspetivas e sensibilidades das comunidades afrodescendentes dos países que partilham a língua portuguesa.
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