«Black Gaze» chega ao CAM para mostrar o cinema português visto de outro lugar

Entre os dias 8, 9, 15 e 16 de novembro, o CAM recebe «Black Gaze – Mostra de Cinema Negro em Portugal». A curadora Kitty Furtado, numa conversa com Marisa Mendes Rodrigues, da BANTUMEN, aborda o olhar de cineastas afrodescendentes para repensar a representação e o lugar das perspetivas negras no cinema português.
Marisa Mendes Rodrigues 27 out 2025 7 min
BANTUMEN na Gulbenkian

Durante décadas, o cinema português construiu-se a partir de um olhar homogéneo que definiu não apenas o que era mostrado, mas também o que podia ser imaginado. A ausência de corpos negros, de perspetivas femininas e de histórias fora do centro é encarada por alguns como uma forma de perpetuar a narrativa dominante de uma nação que raramente se pensou a partir da diferença. Nas imagens, como nas instituições, a diversidade que compõe o país permaneceu invisível ou representada sob o olhar do outro. E mesmo quando se aproxima da ideia de inclusão, o cinema português ainda tende a enquadrar a presença negra como exceção ou adorno, raramente como centro narrativo.

É neste território de lacunas que o conceito de Black Gaze encontra o seu sentido. O termo surge como resposta à estrutura visual hegemónica que organizou o cinema ocidental e que, na sua forma mais visível, Laura Mulvey descreveu nos anos 1970 como male gaze, o olhar masculino que transforma o feminino em objeto de contemplação. O Black Gaze propõe o contrário, um olhar negro sobre o mundo, não enquanto categoria identitária, mas como gesto político e epistemológico. É um modo de ver e de narrar que recusa a neutralidade do olhar dominante, porque reconhece que a neutralidade, em si, é uma construção de poder.

Still de «Nha Mila« (2020), de Denise Fernandes

Em Portugal, o termo ganha agora uma expressão concreta com a mostra Black Gaze – Mostra de Cinema Negro em Portugal, que decorre nos dias 8, 9, 15 e 16 de novembro, no Estúdio do CAM. A curadoria é de Ana Cristina Pereira, também conhecida como Kitty Furtado – investigadora, crítica e uma das vozes que mais têm refletido sobre o modo como o cinema português representa (ou omite) as suas periferias.

«O termo gaze é intraduzível», explica. «Não é apenas olhar, é um discurso, e o discurso nunca é neutro», afirma, deixando claro que o ponto de partida do projeto passa por analisar de que forma o cinema negro produzido em Portugal e nas suas diásporas devolve à imagem o que durante muito tempo lhe foi retirado: a pluralidade de perspetivas e de sujeitos.

O ciclo de filmes é, assim, a materialização de uma pesquisa de vários anos sobre o cinema negro produzido em Portugal e nas suas margens, filmes que revelam uma outra história, construída fora dos circuitos centrais e, muitas vezes, à margem das estruturas institucionais. Kitty descreve-os como o resultado de uma «contra-esfera pública», formada por realizadores afrodescendentes e africanos que, partilhando o português como língua comum, criam espaços alternativos de expressão. «Esses sujeitos não têm a mesma possibilidade de afirmação na esfera dominante», observa. «Por isso, constroem lugares próprios, onde as suas identidades e memórias podem circular.»

Still de «Memória» (2022), de Welket Bungué

Black Gaze organiza-se em quatro eixos – entre-lugar, memória e ancestralidade, feminismo e ecologia, e antirracismo – que sintetizam as linhas mais consistentes do cinema negro contemporâneo. O primeiro, o entre-lugar, reflete a condição diaspórica de quem vive entre geografias e pertenças culturais. É a realidade de muitos cineastas afrodescendentes e de personagens que se movem entre África, Europa e o espaço simbólico da memória. O filme Nha Mila, de Denise Fernandes, ilustra essa travessia ao retratar a história de uma mulher que parte da Suíça para Cabo Verde e faz escala em Lisboa, aproveitando as horas de espera para reencontrar familiares na Cova da Moura. A curta distância entre aeroporto e bairro condensa o deslocamento maior que atravessa a sua vida, o de viver entre mundos, pertencendo a ambos e a nenhum.

No eixo da memória e ancestralidade, a curadoria dá corpo à urgência de revisitar a história portuguesa e os seus silêncios. «Trata-se de iluminar o que foi invisibilizado, de resgatar fragmentos que ficaram fora do arquivo», diz a curadora. Filmes como Memória, de Welket Bungué, dialogam com a história da libertação africana e com a transmissão intergeracional da experiência colonial. São obras que aproximam o passado do presente, mostrando que o tempo histórico não é linear, mas espiralar e que o passado, mesmo reprimido, continua a moldar o agora.

O terceiro bloco, feminismo e ecologia, reflete uma das dimensões mais marcantes do cinema negro em Portugal: a sua matriz feminina e, em muitos casos, feminista. Ao contrário do cinema nacional, tradicionalmente dominado por homens brancos, esta esfera criativa é ocupada maioritariamente por mulheres e pessoas não binárias. Filmes como A Ilha, de Mónica de Miranda, ou Hanami, de Denise Fernandes, articulam narrativas de resistência com imaginários de reconciliação entre o humano e a natureza. A ideia de tempo surge aqui como metáfora e remete para o tempo espiralar africano, que se opõe à linearidade ocidental, dá espaço à coexistência do passado e do futuro, e à possibilidade de reinventar o presente.

Still de «A Ilha» (2022), de Mónica de Miranda

O último eixo, o antirracismo, é inevitável num país onde a dificuldade de «se olhar ao espelho» ainda persiste. Para a curadora, o cinema é sempre político, mesmo quando disfarçado de entretenimento. «Dizer que um filme é só entretenimento já é uma afirmação política», recorda. Ao consumir imagens sem questionar o que nelas está naturalizado, o espectador reproduz ideologias que permanecem invisíveis precisamente por se confundirem com o senso comum. O cinema negro, pelo contrário, desafia esse automatismo e torna visível o que foi normalizado, propondo um outro modo de ver.

Ao longo da conversa, Kitty Furtado regressa várias vezes à ideia de reparação simbólica. Reescrever a história não é apenas incluir o que ficou de fora, mas reconfigurar o modo como a realidade é percecionada. «Reparar é ver melhor, é voltar a ver o que não foi visto antes», afirma. Essa revisão do olhar não beneficia apenas as comunidades racializadas, é, acima de tudo, um gesto de restauro coletivo. Ao incluir o que foi excluído, o cinema negro amplia o campo da experiência nacional e devolve complexidade à imagem de Portugal.

Mas essa transformação ainda enfrenta obstáculos estruturais e Furtado não esconde que a produção negra continua a ser marginalizada pelos circuitos de exibição e pelas lógicas de financiamento. «A parte mais difícil é seduzir o público», admite. «Há desconfiança em relação ao que é percecionado como “cinema do outro”. Mas quem o vê, gosta. São histórias humanas, belas, intensas como qualquer outra.» O problema, diz, não é de qualidade nem de interesse, mas de acesso e de oportunidade.

Still de «Hanami» (2024), de Denise Fernandes

A mostra Black Gaze procura precisamente abrir esse espaço de diálogo. Ao levar o cinema negro para o CAM, Furtado propõe uma deslocação simbólica de trazer para o centro da cultura portuguesa as histórias, vozes e olhares que têm sido mantidos nas margens. «Não se trata de criar um gueto dentro das instituições, mas de complexificar o discurso nacional», sublinha. «Não é apagar ninguém; é fazer com que mais vozes sejam ouvidas.»

No final da conversa, o futuro surge com a serenidade de quem sabe o caminho que está a ser traçado. «O cinema negro em Portugal tem um grande futuro, aliás, é o próprio futuro do cinema português», diz. Há mais filmes a ser produzidos, mais autoras, mais experimentação e, sobretudo, mais consciência do poder do olhar. «Nem tudo o que é feito por cineastas negros é cinema negro», adverte, «mas quando a questão racial é estrutural na criação, quando há um posicionamento político e estético claro, então estamos perante um cinema que repara, questiona e transforma», conclui. 

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Série

BANTUMEN na Gulbenkian

A BANTUMEN, plataforma dedicada à Lusofonia Negra, junta-se à Fundação Gulbenkian para oferecer um novo olhar sobre atividades e artistas, numa parceria que promove a diversidade das perspetivas e sensibilidades das comunidades afrodescendentes dos países que partilham a língua portuguesa.
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