Zia Soares e a travessia das sementes: uma conversa sobre «ARUS FEMIA»
Para a encenadora e atriz Zia Soares, falar sobre a sua arte é falar com a paixão de quem constrói mundos. Não apenas espetáculos, mas universos inteiros, repletos de história, memória e transformação. A peça ARUS FEMIA é um desses mundos, um palco onde o passado ressurge, onde a resistência toma forma e onde a natureza e o corpo se fundem numa dança de sobrevivência e, sobretudo, de reinvenção.
A peça renasce de uma história enterrada nas tranças das mulheres que partiram da Guiné-Bissau rumo ao desconhecido, levadas à força pelas rotas do tráfico de escravizados. Nas suas cabeças trançadas, escondiam-se sementes de arroz. Um gesto de esperança, um pacto silencioso com o futuro.
Ao chegarem às Américas, essas mulheres encontraram um solo estranho, mas, com o conhecimento ancestral que traziam consigo, souberam como adaptar a terra ao seu alimento. O arroz cresceu ao redor dos quilombos, espalhou-se, e, ao perceberem o poder dessas mãos femininas, os colonizadores tomaram-lhes a sabedoria e transformaram-na num império de monocultura. Hoje, hectares de arrozais na América do Sul têm a sua origem nesse ato de resistência invisível.
Zia soube desta história por acaso, contada por um amigo guineense. «Achei fascinante», confessa. A partir daí, embarcou numa pesquisa que a levou repetidamente à Guiné-Bissau, às bolanhas salgadas onde o arroz cresce num equilíbrio cada vez mais frágil entre a água do mar e a água da chuva. Ali, encontrou mulheres que perpetuam esta tradição, mas que agora enfrentam um novo inimigo: a crise climática. «A subida do nível do mar está a salinizar os solos. Há campos que já não dão nada. E quando pergunto a essas mulheres o que farão se as águas engolirem a terra, elas respondem simplesmente: “Vamos morrer”.» A resposta é uma certeza fincada na ausência de soluções concretas, seja pela inação face às alterações climáticas – provocadas na sua maioria pelos países do Norte global, seja pelas barreiras impostas à imigração.
A urgência dessa realidade ecoa em ARUS FEMIA, mas Zia não quer contar apenas uma história de lamento. A performance propõe um mundo onde essa comunidade de mulheres não se rende. Em vez disso, transforma-se. Continua a plantar arroz, mas agora debaixo de água. Elas não se afundam, adaptam-se, tornam-se parte desse novo ciclo, reinventam a existência.
Questionada sobre a forma como absorve ou se protege da carga emocional que estas histórias movimentam, Zia é muito direta: «Eu não fico presa no emocional. Quando crio um espetáculo, estou a criar um mundo que funciona. Não se trata de chorar o passado, mas de propor novas formas de existir.»
Essa lucidez molda ARUS FEMIA como uma obra de geometrias rigorosas, onde texto, som, movimento e imagem coexistem sem hierarquias. A música de Xullaji nasce das águas gravadas na Guiné-Bissau, as coreografias de Vânia Doutel Vaz evocam os caminhos geométricos dos arrozais, e a cenografia de Neusa Trovoada recria esse universo submerso.
No elenco, juntam-se vozes de cá e de lá. Artistas negros portugueses e guineenses, unidos por uma narrativa que desafia fronteiras temporais e espaciais. «Esta comunidade que criámos no espetáculo não existe no passado, no presente ou no futuro. Ela atravessa todos esses tempos», explica Zia.