Teatro da Maluca: «O nosso trabalho é juntar as pessoas»

Do surgimento do projeto até à colaboração com o CAM através da ZAF – Zona Artística Familiar, a curadora Marta Espiridião conversou com as criadoras do Teatro da Maluca, num diálogo que explorou as intersecções entre o teatro e a arte contemporânea.
Marta Espiridião 07 abr 2026 11 min

Visitei o espaço do Teatro da Maluca em Loures, onde fui muito bem recebida pela Ana Limpinho e pela Maria João Miguel. Após uma rápida volta ao seu pequeno, mas versátil espaço, sentámo-nos para conversar, com chá e biscoitos, sobre o projeto do Teatro da Maluca, as oficinas que têm desenvolvido mensalmente para a ZAF – Zona Artística Familiar do CAM, e outras vertentes do seu trabalho fora das portas do museu.

Marta Espiridião (ME): Como e quando surgiu este projeto do Teatro da Maluca? E que direção procuravam?

Teatro da Maluca (TdM): Somos ambas de Loures, embora tenhamos andado em escolas diferentes. Ambas fazíamos teatro nas nossas respetivas escolas, mas conhecemo-nos no Conservatório de Teatro. O nosso primeiro espetáculo juntas foi «quem me dera ser onda», em 2004, e a partir daí continuámos a criar juntas. Por coincidência, voltámos as duas a viver em Loures e fez-nos sentido trabalhar para esta comunidade. Foi assim que chegámos ao Teatro da Maluca, que inaugurámos no dia 21 de junho de 2024.

Desde o início que trabalhámos sempre com a questão das histórias, do comportamento humano – como por exemplo no espetáculo «Memórias de Algodão Doce», que falava das memórias da Feira Popular. Ou seja, coisas que nos faziam parar e pensar no comportamento humano, formas de aproximar as pessoas umas das outras quando vão ver um espetáculo.

Como num espetáculo sobre a solidão na terceira idade, onde quisemos pensar sobre o que andamos a fazer neste mundo, o que é que sobra no fim. Não partimos de textos já escritos, mas sim de textos pensados para falar sobre determinado tema, que vão sendo construídos em conjunto durante os ensaios.

Pensamos «O que é que nos apetece falar? O que é que nós queremos que o público sinta depois deste espetáculo?». Sabemos que o teatro em si não é absolutamente nada, basta uma pessoa assistir e uma pessoa a representar. Ou nós fazemos disso qualquer coisa especial, trabalhando as memórias do que vai ficar, ou não é nada. Importa-nos pensar no que é urgente em cada momento.

ZAF – Zona Artística Familiar © Enric Vives Rubio

ME: E de onde vem o nome «Teatro da Maluca»?

TdM: Vem de uma história, deste largo, aqui neste campo – chama-se o Campo da Maluca, pois no século passado vivia ali uma senhora que era vista como a «maluca». Como trabalhamos muito a partir das histórias, gostamos de dizer que a primeira história está no nosso nome. Aliás, o nosso primeiro espetáculo é sobre a história da Maluca.

A Maluca era lavadeira e tinha uma forma diferente de estar na vida. Era visitada por um homem que não era de cá, era mãe solteira… Tinha um comportamento à partida considerado «diferente». Há só restos de coisas que nos chegam, e desses restos reconstruímos uma história, que é o nosso espetáculo. Mas, no fundo, este nome serve também para alertar, não só para as histórias que cada um traz, mas também para a forma como nos rotulamos uns aos outros tão rapidamente.

ZAF – Zona Artística Familiar © Enric Vives Rubio

ME: Que outras atividades propicia o Teatro da Maluca?

TdM: Temos o nosso espectáculo, «Maria Maluca», agora em digressão. Fazemos algumas sessões no nosso espaço, mas é muito pequeno e não dá para mais de 15 pessoas, portanto apresentamos o espetáculo em coletividades por toda a zona de Loures.

Para além disso, fazemos aqui sessões de contos tradicionais, chamadas «um Conto e um Chá», e ainda organizamos oficinas de dias inteiros, e semanas inteiras, para as férias dos miúdos. Temos também a nossa «bibliotroca» e as oficinas de marionetas. A ideia destas oficinas é fazer marionetas com materiais que sejam familiares e que as crianças possam usar em casa sem gastar muito dinheiro. Para a «Feira Saloia» de Loures, por exemplo, fizemos uns teatrinhos de montar com pequenas lendas que podem ser encenadas com figurinhas de papel. Queremos dinamizar ainda leituras encenadas ou pequenos espetáculos, para criar um hábito de visita do público sem ser em contexto de aulas. Por exemplo, para a «Maria Maluca», fizemos umas sessões de partilhas de histórias, umas tertúlias com vários agentes da zona.

Depois temos as nossas oficinas de teatro anuais, uma vez por semana. Temos três turmas: crianças, jovens e adultos. Já começámos o ano passado, este é o segundo ano. No final, vamos fazer o nosso «Festival de Teatro da Maluca», com a apresentação de um espetáculo por cada turma. Não fazemos aqui porque o espaço é muito pequenino, mas temos uma parceria com uma coletividade aqui perto, em À-das-Lebres, para mostrar o trabalho. Para as aulas, é preciso criatividade, mas mesmo que pequeno, o espaço transforma-se. É pequeno, mas tentamos que seja um bocadinho maior e funciona bem, torna-se muito acolhedor.

Para além disso, temos formações acreditadas: neste momento estamos a dar uma formação para contadores de histórias. E temos uma parceria com as bibliotecas escolares, onde fazemos sessões de contos para os primeiros e quartos anos do ensino primário. Também oferecemos oficinas para escolas, tanto para alunos como para professores.

ZAF – Zona Artística Familiar © Enric Vives Rubio

ME: Como se iniciou a vossa colaboração com o CAM?

TdM: Surgiu de um convite do CAM para a apresentação de propostas a alguns coletivos, entre os quais nos encontrávamos. Quando nos escolheram, pensámos: «isto é um desafio engraçado», passar do contexto específico do teatro para o museu. Sendo uma de nós da área de cenografia e figurinos, o que tem alguma parte de artes plásticas aplicadas ao teatro, e a outra atriz, encenadora e dobradora, tentámos fazer um projeto que juntasse as duas coisas, as artes performativas e as artes plásticas.

ME: Como pensam o serviço educativo? Como se relacionam com o museu?

TdM: Quando vamos assistir a uma exposição, colocamo-nos lá no meio e pensamos: como é que uma criança consegue divertir-se aqui? O que é que podemos fazer para a criança acompanhar os pais, e os pais acompanharem a criança? Por isso, pensámos nas «folhas de sala» que acompanham a exposição como uma espécie de caça ao tesouro. É sempre uma brincadeira, um jogo. Umas folhas transformam-se em quantos-queres, outras unem pontos para descobrir um detalhe da obra. Pensamos sempre em desafios que tornem a folha apelativa, para que, quando voltarem ao espaço da ZAF, venham já com vontade de brincar e com alguma informação. A questão principal que nos surge ao pensar o serviço educativo, o museu, a exposição, é «como é que esta experiência pode ser partilhada?».

ZAF – Zona Artística Familiar © Enric Vives Rubio

ME: E que intersecções encontram entre o teatro e a arte contemporânea?

TdM: Achamos que cada vez mais as áreas artísticas se cruzam, e ainda bem. As artes performativas estão nas artes plásticas, como as artes plásticas estão nas artes performativas. Está tudo interligado. E o CAM, como um lugar de arte contemporânea, tem obras que são multidisciplinares. Por exemplo, a exposição da Zineb Sedira, que inspirou a oficina dos «cartazes para um mundo melhor», era uma obra muito cenográfica. E foi talvez a mais difícil, foi um desafio. Chegámos lá e pensámos: «O que é que nós fazemos aqui?» É giro porque nos desorganiza e nos põe a questionar.

Acreditamos verdadeiramente que o cruzamento se dá no momento em que todos nós, seja o CAM, seja o Teatro da Maluca, seja o público, queremos estar com os outros. E não há propriamente barreiras: claro, não se pode tocar nas obras, mas podemos olhar para elas e pensar «e se fosse eu?».

No fundo, queremos desmistificar a arte e dar a todos a oportunidade de brincarmos um pouco.

ZAF – Zona Artística Familiar © Enric Vives Rubio

ME: Querem falar-me um pouco mais do que estão a desenvolver com o CAM?

TdM: O desafio que nos foi lançado era criarmos oficinas inspiradas numa das exposições a decorrer ou numa obra que estivesse exposta no CAM. É uma oficina para famílias, uma vez por mês, durante o dia inteiro e com entrada livre. As pessoas podem chegar à hora que quiserem e estar o tempo que quiserem. Às vezes estão um dia inteiro, é muito giro. É muito diferente das oficinas que fazemos mais regularmente, que têm um tempo limitado e uma estrutura muito mais rígida. É um desafio que nos tem dado muito gozo.

Convidamos as famílias a irem primeiro ver a exposição com a folha de sala que nós estruturamos, e depois regressam ao espaço da ZAF para as atividades. Porque normalmente também nós vamos ver as exposições primeiro e depois pensamos a oficina. Em cada ZAF, temos sempre uma terceira pessoa convidada, para termos pessoas vindas de áreas diferentes, com estilos e olhares diferentes. Já tivemos uma pessoa da área da História, da Cerâmica, da Arquitetura, do Som…

ZAF – Zona Artística Familiar © Enric Vives Rubio

ME: E como têm sido as oficinas da ZAF no CAM?

TdM: Muito gratificantes. Temos tido sempre muita gente, algumas acima da lotação. E o mais giro é ver as pessoas a repetirem, marcarem na agenda e voltarem. Isso é um ótimo sinal. Já vários pais nos disseram que este é um ótimo método para as crianças verem as obras, esta coisa de levarem desafios para as exposições obriga a um outro olhar. Sentem a exposição também como sendo para elas.

A adesão das famílias é muito interessante. Cria-se um espaço familiar onde todos são convocados. Não são só as crianças que participam e os pais ficam a ver ou vão dar uma volta. Nós insistimos para que os pais também participem. Os pais também querem brincar, querem desenhar, querem fazer. Cada vez há menos tempo para brincar. E os filhos adoram que os pais participem. Quando estamos todos juntos, estamos a criar momentos de partilha que não são só das crianças com os respetivos pais, todas as famílias partilham. É um sítio onde estão todos ao mesmo nível, onde não há uns mais importantes que outros. Estamos todos. E esta importância do todo, achamos que é de cuidar.

Depois, a ideia da criação conjunta pela participação individual é muito forte. Por exemplo, numa oficina onde gravámos audiolivros, todos os pais e todos os filhos gravaram um pedaço e depois receberam em casa o ficheiro onde podiam ouvir as suas vozes com as outras. Eles sentem: «Eu fiz parte disto, isto existe porque eu contribuí com qualquer coisa». Não são só os filhos que são convocados, é a família toda.

ZAF – Zona Artística Familiar © Enric Vives Rubio

ME: Que planos têm para o futuro próximo do Teatro da Maluca?

TdM: Uma coisa que queremos fazer muito este ano é um livro com as lendas do Concelho de Loures. Utilizar toda a pesquisa que temos feito e, como somos um teatro, queremos que seja qualquer coisa que tenha a ver com o jogo do teatrinho. Uma coisa que tenha também um teatro que dê para ser montado, para as lendas serem dramatizadas. Um livro que se transforme nisso tudo.

Vamos continuar com as digressões da «Maria Maluca», o nosso espetáculo sobre a história que dá nome ao grupo. Queremos levá-lo a todos os cantos do concelho de Loures, às coletividades. Loures não tem um teatro ou um centro cultural, por isso a forma que temos de chegar às pessoas é ir ter com elas, trabalhar com elas.

No CAM, a colaboração continua. Queremos, no futuro, explorar o mundo da física e, sobretudo, adereçar as pessoas que trabalham no CAM. Quem são os lanterninhas, quem limpa, quem mantém, quem faz com que aquilo possa ser o que é. Essa é uma ideia que temos guardada para mais tarde.

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