«WOW! Isto não é uma visita, será?»: tudo aquilo que «não é suposto»
O título WOW! parte daquilo que o escritor francês Stendhal no início do século XIX, ao observar os frescos da Basílica de Santa Croce, em Florença, descreveu como a sensação física de êxtase, uma experiência que viria a ser conhecida como «Síndrome de Stendhal», a fisicalidade do sublime. Quando se vive esse momento de intensidade, o corpo reage com um simples: WOW! Esta encenação faz ainda referência ao universo da arte moderna e contemporânea, convocando artistas como Erwin Wurm, Marcel Duchamp, Tino Sehgal, Andrea Fraser ou René Magritte. A imagem que anuncia o evento inspira-se nos retratos de Picasso, com rostos desconstruídos sobrepostos num rosto real.
Sara e André têm um trabalho que questiona os limites dos sistemas do mundo da arte, funcionando muitas vezes como uma forma subtil de crítica institucional. É a partir desta abordagem que convidam crianças e famílias para «mostrar que a criatividade pode estar em toda a parte».
Nesta visita são as próprias crianças que se tornam protagonistas, ganhando iniciativa e poder de decisão para interrogar comportamentos considerados normativos e rompendo «a sensação de formalidade comum nos museus e as suas regras: comprar o bilhete, seguir o percurso da exposição, ler as legendas nas paredes, falar baixo, entre muitas outras…».
Esta não é a primeira vez que os artistas trabalham em teatro. A colaboração com a Plataforma 285 parte de uma relação iniciada com o espetáculo Errado, que procurava fazer «o elogio ao erro, à tentativa, ao espaço para experimentar, sem ter que acertar ou ter respostas concretas».
Para esta nova criação no CAM juntaram-se à figurinista Inês Ariana e ao músico George Silver construindo roupas, objetos e uma paisagem sonora que prolongam as provocações lançadas pelos atores durante a visita. Sem revelar demasiado, os artistas Sara e André falam em código: plintos vestidos, iconoclastia aplicada a símbolos clássicos, exercícios de especulação, pastilhas elásticas, são pequenas pistas que anunciam surpresas.
Durante a visita, com o apoio dos atores, o grupo é convidado a desconstruir a ideia tradicional de «ir ao museu». «O foco será questionar ou contrariar todas as convenções sobre como estar num museu ou numa exposição», explicam os artistas, «incluindo a noção de beleza, valor ou legitimidade das obras aí expostas». «Logo no início, os atores dirão: “não olhem para nada!” E pedem para os espectadores se concentrarem em coisas que normalmente não são observadas numa visita a um museu: fichas elétricas, luzes, sinalização, extintores… detalhes que fazem parte do seu funcionamento mas que, por norma, não têm interesse artístico.»
Ao observar estes detalhes, os participantes perceberão rapidamente que a experiência museológica é constituída por muitos outros elementos além das obras, e que todos podem ser interpretados e apreciados. A partir desta premissa, constrói-se uma relação de cumplicidade e os exercícios sobre o comportamento «correto» num museu tornam-se progressivamente mais subversivos.
O percurso atravessa várias galerias do CAM, com especial atenção dada à exposição Carlos Bunga. Habitar a Contradição, onde a instalação Bosque, construída em cartão, ocupa e transforma o espaço num ambiente neutro, transitório e mutável. É maioritariamente neste cenário que a visita se desenvolve, abrindo possibilidades para novas formas de ver, experimentar e habitar o museu.
A componente do passeio ativa imediatamente o corpo e os sentidos, criando uma experiência física que desperta novas sensibilidades e, neste caso, por ocupar um espaço «proibido», torna-se também um gesto artístico e político. Como explicam os artistas: «Parece-nos um espaço muito tranquilo, muito contemplativo, mas também flexível; vai permitir tudo. Sendo que há também a seleção de obras de outros artistas da Coleção do CAM feita pelo próprio Carlos Bunga, que permite ir ainda mais longe nas possibilidades de encenação.»
Apropriando uma secção do texto do curador Rui Mateus Amaral, a exposição de Carlos Bunga é descrita como um espaço de fluidez e liberdade, onde o corpo «entra e sai de cena», permitindo que cada visitante construa um caminho aberto, atravessando memórias, paisagens e sensações distintas. Esta disponibilidade curatorial e artística funciona como um convite para projetos como WOW! Isto não é uma visita, será?, que exercitam a crítica, a dúvida e, sobretudo, uma abordagem alternativa ao modo como nos relacionamos com o espaço do museu e a arte contemporânea.