Carlos Bunga. Habitar a Contradição

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Carlos Bunga apresenta uma das suas exposições mais complexas e pessoais até à data e uma das maiores instalações de cartão site-specific, que inclui obras da Coleção do CAM.

Carlos Bunga (Porto, 1976) desenvolveu uma prática artística centrada nas possibilidades da forma. O que começou como uma pesquisa sobre os limites da pintura transformou-se num modo de trabalho que hibridiza suportes e superfícies até a pintura se tornar um espaço de atividade. No seu processo ressoam as experimentações dos artistas conceptuais e da performance dos anos 1960 e 70, cujo uso de gestos simples e iterativos gerava uma força sensorial e emocional. Com o passar dos anos, a obra de Bunga expandiu-se ao desenho, escultura, instalação, fotografia e vídeo.

Recorrendo a materiais provisórios – cartão, tinta, fita adesiva –, os seus projetos mais conhecidos reinterpretam as arquiteturas que é convidado a abordar em grande escala. Obras como Ruin [Ruína] (2008), Landscape [Paisagem] (2011), Chapel [Capela] (2015) ou Home [Lar] (2022), e agora Bosque (2025) retraçam essa evolução e os caminhos nómadas do artista. Materialmente frágeis mas estruturalmente sólidos e deliberadamente destinados à transformação, estes trabalhos refletem a natureza mutável dos ambientes edificados e orgânicos e a permanente procura, de todas as espécies, de um espaço, um lugar ou uma comunidade aos quais regressar.

Habitar a Contradição parte de um dos desenhos surrealistas de Bunga: A Minha Primeira Casa Foi Uma Mulher, 1975 (2018). Mostra uma figura grávida, cuja cabeça é uma casa, cujos membros são simultaneamente retratados como humanos e animais e cujo torso é atravessado por um selo da era colonial. Aludindo à abrupta partida da mãe do artista de Angola para Portugal, esta obra é um ponto de partida pessoal. Tal como a própria vida, a exposição expande-se para uma experiência multifacetada moldada pela memória, pela mudança e pela convergência de casa, corpo, mente e universo.

No interior das múltiplas galerias do CAM e no jardim circundante, intervenções arquitetónicas fundem-se com objetos encontrados e gestos pictóricos. Movimento, materiais efémeros e uma seleção de obras da Coleção e do Arquivo da instituição transformam a exposição numa meditação sobre a ausência e a reinvenção, e sobre a complexidade de manter em simultâneo múltiplas verdades, muitas vezes contraditórias.


Temas

Casa

Bosque

Nómadas

Maternidade

Casa n.º 17

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Textos dos curadores / artistas

Carlos Bunga

A primeira instalação site-specific que realizei, assim como as minhas primeiras obras, nasceu na ESAD.CR – Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. O curso de Artes Plásticas, criado e reformulado em 1990, destacava-se pela centralidade da prática artística – laboratorial, experimental e vivencial – tanto no espaço do ateliê da escola como para além dele: nas ruas, nos gestos e nos encontros.

Ingressei na ESAD.CR em 1998. A escola era jovem e eu, como tantos outros estudantes, estava em processo de formação. Ambos, escola e alunos, procurávamos uma identidade. Vivíamos um tempo de transição, entre a antiga escola MATEL e o novo edifício da ESAD, um momento decisivo na história da instituição. O ambiente era de efervescência e inconformismo; os estudantes reivindicavam, com espírito crítico e irreverente, o direito de experimentar, de questionar e de fazer da arte um espaço de resistência e liberdade. As Caldas, cidade de tradição artística discreta, mas profundamente enraizada, tornaram-se o cenário de uma aprendizagem que foi tanto técnica quanto existencial. 

Ali, arte e vida entrelaçavam-se numa experiência contínua de descoberta e transformação distante dos grandes centros urbanos; a escola cultivava um sentido particular de comunidade. Partilhávamos vivências intensas, não apenas nas salas e oficinas, mas também nos cafés, nas casas, nos jardins ou em qualquer lugar que pudesse ser pretexto para estarmos juntos. Entre conversas, projetos e noites de trabalho (e também de festa), teciam-se laços que ultrapassavam a dimensão académica. A camaradagem tornava-se método; o convívio, processo criativo.
Essa convivência marcou uma época essencial da minha formação, um tempo em que crescer, pensar e criar se confundiam, e em que a própria noção de arte se expandia para o território da vida.

A partir da pintura, da transformação e da instalação, aprendi que o processo artístico é, acima de tudo, uma forma de conhecimento. O gesto artístico, seja ele pictórico, performativo ou instalativo, é sempre uma tentativa de questionar. Entre o ateliê e a rua, entre a escola e a cidade, entre a pintura e o corpo, encontrei o verdadeiro território da criação: o lugar onde o gesto e o pensamento se encontram.

Contudo, quanto mais aprendia, mais crescia em mim um sentimento de desconforto. As minhas pinturas pareciam não responder às perguntas que eu fazia, e cada gesto no ateliê era acompanhado por uma dúvida: porquê? para quê? o que procuro realmente?

Esse universo de questionamento, de experiência ou espírito crítico, efervescência e inconformismo, em que a própria noção de arte se expandia para o território da vida sempre se mantiveram presentes na minha maneira de ser e de estar no mundo ao longo de todos estes anos.

Esse espírito de questionamento, essa efervescência crítica e irreverente, a expansão da arte para o cotidiano mantiveram-se vivas, atravessando anos e experiências, moldando a minha maneira de estar, de olhar e de criar. A arte tornou-se, desde então, não apenas prática, mas também espaço de reflexão, território de resistência e contínuo encontro entre vida e criação.


Ficha técnica

Curadoria 

Rui Mateus Amaral

Imagem principal

© Pedro Pina

Mecenas Exposição

Apoio

A Fundação Calouste Gulbenkian reserva-se o direito de recolher e conservar registos de imagens, sons e voz para a difusão e preservação da memória da sua atividade cultural e artística. Caso pretenda obter algum esclarecimento, poderá contactar-nos através do formulário Pedido de Informação.

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