Carlos Bunga. Habitar a Contradição
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Data
- sáb,
- Encerra Terça
Local
Nave e Mezanino Centro de Arte Moderna GulbenkianPreço
Gratuito – Menores de 18
25% – Menores de 30
10% – Maiores de 65
Cartão Gulbenkian:
Gratuito – Menores de 30, sábados, 18:00 – 21:00
50% – Menores de 30
20% – Maiores de 64
10% – 30 a 65
Carlos Bunga (Porto, 1976) desenvolveu uma prática artística centrada nas possibilidades da forma. O que começou como uma pesquisa sobre os limites da pintura transformou-se num modo de trabalho que hibridiza suportes e superfícies até a pintura se tornar um espaço de atividade. No seu processo ressoam as experimentações dos artistas conceptuais e da performance dos anos 1960 e 70, cujo uso de gestos simples e iterativos gerava uma força sensorial e emocional. Com o passar dos anos, a obra de Bunga expandiu-se ao desenho, escultura, instalação, fotografia e vídeo.
Recorrendo a materiais provisórios – cartão, tinta, fita adesiva –, os seus projetos mais conhecidos reinterpretam as arquiteturas que é convidado a abordar em grande escala. Obras como Ruin [Ruína] (2008), Landscape [Paisagem] (2011), Chapel [Capela] (2015) ou Home [Lar] (2022), e agora Bosque (2025) retraçam essa evolução e os caminhos nómadas do artista. Materialmente frágeis mas estruturalmente sólidos e deliberadamente destinados à transformação, estes trabalhos refletem a natureza mutável dos ambientes edificados e orgânicos e a permanente procura, de todas as espécies, de um espaço, um lugar ou uma comunidade aos quais regressar.
Habitar a Contradição parte de um dos desenhos surrealistas de Bunga: A Minha Primeira Casa Foi Uma Mulher, 1975 (2018). Mostra uma figura grávida, cuja cabeça é uma casa, cujos membros são simultaneamente retratados como humanos e animais e cujo torso é atravessado por um selo da era colonial. Aludindo à abrupta partida da mãe do artista de Angola para Portugal, esta obra é um ponto de partida pessoal. Tal como a própria vida, a exposição expande-se para uma experiência multifacetada moldada pela memória, pela mudança e pela convergência de casa, corpo, mente e universo.
No interior das múltiplas galerias do CAM e no jardim circundante, intervenções arquitetónicas fundem-se com objetos encontrados e gestos pictóricos. Movimento, materiais efémeros e uma seleção de obras da Coleção e do Arquivo da instituição transformam a exposição numa meditação sobre a ausência e a reinvenção, e sobre a complexidade de manter em simultâneo múltiplas verdades, muitas vezes contraditórias.
Temas
Bosque
Nómadas
Maternidade
Casa n.º 17
Convite
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Casa
Desde o início da sua carreira que Carlos Bunga tem vindo a alterar objetos domésticos encontrados, dando-lhes uma nova vida. Pintados, remontados e subvertidos, eles refletem o modo como todos os dias adaptamos peças de mobiliário, usando «uma cadeira como escada ou um banco como prateleira». Antes destas intervenções, os objetos são inseparáveis das pessoas, construídos para o suporte de corpos e denominados pelas suas costas, braços e pernas.
Pretendendo humanizar o átrio do CAM, Bunga agrupou nele esculturas suas de vários corpos de trabalho. Mas em vez de configurarem um ambiente doméstico funcional ou coerente, estas peças estabelecem um espaço onde a ausência é tão fundamental como a presença. Dispostas sobre tapetes pintados ou parcialmente no chão, estes trabalhos são vulneráveis e lembram estruturas improvisadas que encontramos em centros urbanos. Ao suavizar este espaço transitório com materiais familiares e marcados pelo tempo, Bunga abre-o à reflexão e à possibilidade, convidando os visitantes a considerar as muitas formas que um lar pode assumir: a amplitude da experiência humana e a emoção que encerra, mas que nem sempre consegue conter.
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Bosque
Fisicamente exigente, o trabalho de Carlos Bunga caracteriza-se pelo seu imediatismo e reação ao local onde é construído com materiais banais. Para a Nave do CAM, Bunga projetou a sua maior instalação até à data, trabalhando de fora para dentro, para promover um encontro de espaço interior e exterior.
Um cenário de formas cilíndricas de cartão, coladas e em grupos elevados como torres, evoca tanto colunas arquitetónicas como os troncos imponentes de árvores ancestrais. Dispostas em esquemas variáveis, estas estruturas criam caminhos e becos sem saída, conferindo à Nave uma dimensão cinética que convida ao movimento e ao encontro. O seu volume e a sua curvatura remetem para o jardim circundante – uma «floresta urbana» –, com a sua folhagem e os seus lagos e charcos que recolhem água e refletem o céu.
Para Bunga, o bosque é uma rede viva – humana e não-humana, visível e invisível, tranquilizador e inquietante – onde as coisas ganham raízes, florescem, murcham e se transformam. Dentro dele, os visitantes também poderão encontrar um refúgio: um local para fazer uma pausa e recuperar a clareza. Em determinado momento, Bunga irá intervir na instalação, cortando-a, fazendo-a desmoronar e reorganizando-a.
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Nómadas
Os Nómadas, de Carlos Bunga, atravessam o espaço e as fronteiras da cultura e da identidade. São multirraciais, interespécies e não têm género. Cada um carrega um abrigo como cabeça, construções que são ao mesmo tempo um fardo e um porto seguro, levantando questões sobre o peso da memória e as flutuações daquilo a que chamamos casa. Os seus corpos têm as dimensões aproximadas de crianças, suspensas num momento de autodescoberta e potencial.
Este estado fluido relaciona-se com a trajetória do próprio artista – de refugiado a nómada –, marcada pelo deslocamento e pela instabilidade da habitação. Bunga evoca a figura da criança não só como símbolo de crescimento, mas também como forma de recuperar um espaço pré-racional, onde brincar é primordial e a imaginação não tem limites. Nesta exposição, Bunga apresenta uma nova série de Nómadas feitos em madeira, aprofundando assim a relação entre corpo, arquitetura e natureza em permanente metamorfose.
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Maternidade
Captadas no Cais do Sodré, em Lisboa, nos anos 1980, estas fotografias mostram a mãe do artista nos clubes noturnos onde trabalhava e socializava. Outrora zona portuária povoada por negociantes estrangeiros, marinheiros e profissionais do sexo, após o 25 de Abril esta parte da cidade tornou-se também um ponto de encontro para estudantes e boémios, enquanto o país passava da ditadura para a democracia e lidava com as consequências da descolonização.
Por trás do glamour desta figura materna, escondem-se duras realidades. Tendo fugido de Angola em 1975 com uma filha pequena e grávida de Bunga, chegou a Portugal com pouco mais do que alguma roupa e algumas fotografias. Não sabendo ler nem escrever, dependia do corpo para sustentar a sua família, mas fazia-o sem qualquer vergonha. As fotografias são parte da sua reinvenção contra preconceitos e tabus. Ampliadas, mostram-na resplandecente na sua verdade – enquanto mulher imigrante que resistiu e protegeu a sua família do racismo, do classismo e da misoginia. Para além da sua natureza pessoal, as fotos constituem emblemas de sobrevivência e transformação. A figura convida o olhar do observador e encara-o sem vacilar, obrigando-nos a confrontar os nossos próprios juízos de valor e a questionar o que faremos se confrontados com eles.
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Casa n.º 17
Casa n.º 17 é uma obra relacionada com a série de Carlos Bunga Modelos, iniciada em 2002. Enquanto as suas construções mais pequenas em cartão são ambíguas e formalmente vagas, Casa n.º 17 é uma miniatura detalhada, feita a partir de uma caixa de cereais e inspirada numa das casas em que o artista viveu na infância, situada em São Bartolomeu dos Galegos, a norte de Lisboa.
Depois de anos a viver em instituições convertidas e centros religiosos para refugiados, a família mudou-se para esta casa, parte de uma iniciativa de habitação social e construída com materiais prefabricados, concebida para durar apenas uma década. Na realidade, essas casas seriam habitadas durante quase dezanove anos, até o evidente estado de degradação ter forçado a sua demolição em 2002.
A maquete é acompanhada por uma sequência de fotografias que até agora nunca tinha sido exposta e que foi captada pelo artista pouco antes da demolição da casa onde cresceu. No seu conjunto, as imagens preservam uma vida prestes a ser apagada: interiores e exteriores, objetos e sinais da sua ocupação, e o desmantelar final da casa. As imagens também podem ser interpretadas como uma espécie de retrato da mãe do artista. Nos quartos, ícones religiosos coexistem com modelos e bonecas, uma mistura de objetos de conforto e de ideais que ainda hoje podem parecer contraditórios. A sua proximidade recusa, no entanto, estas distinções. O que é exaltado e o que é desconsiderado, o que consola e o que provoca coexistiam nela, tal como existem algures em cada um de nós. Esta realidade – comum mas profunda – poderia ter desaparecido nos escombros, mas sobrevive nas fotografias de Bunga.
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Convite
O convite para explorar a Coleção criou uma tensão que Carlos Bunga reconheceu como um outro ponto de partida fértil. Há mais de duas décadas que o artista questiona a autoridade de estruturas aparentemente estáveis e previsíveis, chamando ao invés a nossa atenção para a sua fragilidade e mistério. O que parece sólido poderá na verdade ser provisório; e talvez o que é flexível e adaptável seja afinal aquilo que perdura.
Bunga foi atraído por obras caracterizadas pela sua natureza efémera e elusiva, entre outros aspetos. Várias delas são apresentadas em relação com empréstimos externos e obras do artista raramente expostas, que também elas oscilam entre categorias e estados.
Através desta composição ativa, um corpo fluido entra e sai de cena, atravessando paisagens urbanas e rurais, fronteiras porosas, memória e sonho, sofrimento e euforia. O que vemos aqui reunido resiste à conclusão, em vez disso apontando para processos e finais em aberto. Em diferentes momentos da exposição, as obras poderão ser deslocadas, desaparecer ou surgir de novo pela mão do artista.
Publicações
Biografias
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Carlos Bunga
Carlos Bunga (Porto, 1976) estudou na Escola Superior de Arte e Design, em Caldas da Rainha, e atualmente vive perto de Barcelona.
Cria obras orientadas para o processo – instalações, performances, vídeo, desenhos, escultura e pintura – que remetem para o seu ambiente arquitetónico imediato e intervêm nele. Embora utilize materiais comuns e modestos, as obras acabadas envolvem uma complexidade conceptual derivada da inter-relação entre fazer e desfazer, entre desmontar e remontar, entre investigar e experimentar. -

Rui Mateus Amaral
Rui Mateus Amaral é diretor artístico do MOCA Toronto, onde foi curador de exposições de Alex Da Corte, Phyllida Barlow, Carlos Bunga, entre outros. Em 2022, organizou
«Summer», a primeira exposição individual de Felix Gonzalez-Torres no Canadá, e em 2021, cofundou a trienal do MOCA, «Greater Toronto Art». De 2011 a 2020, Mateus Amaral dirigiu o programa do Scrap Metal, um espaço de exposições privado, trabalhando com artistas como Eduardo Basualdo, Eric N. Mack e Paul P. Os seus textos foram publicados na «Artforum» e, em 2022, coeditou «Garden Court», de Scott Burton.Crédito de imagem: © Samantha Pierre and Diego Armand
Textos dos curadores / artistas
Carlos Bunga
A primeira instalação site-specific que realizei, assim como as minhas primeiras obras, nasceu na ESAD.CR – Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. O curso de Artes Plásticas, criado e reformulado em 1990, destacava-se pela centralidade da prática artística – laboratorial, experimental e vivencial – tanto no espaço do ateliê da escola como para além dele: nas ruas, nos gestos e nos encontros.
Ingressei na ESAD.CR em 1998. A escola era jovem e eu, como tantos outros estudantes, estava em processo de formação. Ambos, escola e alunos, procurávamos uma identidade. Vivíamos um tempo de transição, entre a antiga escola MATEL e o novo edifício da ESAD, um momento decisivo na história da instituição. O ambiente era de efervescência e inconformismo; os estudantes reivindicavam, com espírito crítico e irreverente, o direito de experimentar, de questionar e de fazer da arte um espaço de resistência e liberdade. As Caldas, cidade de tradição artística discreta, mas profundamente enraizada, tornaram-se o cenário de uma aprendizagem que foi tanto técnica quanto existencial.
Ali, arte e vida entrelaçavam-se numa experiência contínua de descoberta e transformação distante dos grandes centros urbanos; a escola cultivava um sentido particular de comunidade. Partilhávamos vivências intensas, não apenas nas salas e oficinas, mas também nos cafés, nas casas, nos jardins ou em qualquer lugar que pudesse ser pretexto para estarmos juntos. Entre conversas, projetos e noites de trabalho (e também de festa), teciam-se laços que ultrapassavam a dimensão académica. A camaradagem tornava-se método; o convívio, processo criativo.
Essa convivência marcou uma época essencial da minha formação, um tempo em que crescer, pensar e criar se confundiam, e em que a própria noção de arte se expandia para o território da vida.
A partir da pintura, da transformação e da instalação, aprendi que o processo artístico é, acima de tudo, uma forma de conhecimento. O gesto artístico, seja ele pictórico, performativo ou instalativo, é sempre uma tentativa de questionar. Entre o ateliê e a rua, entre a escola e a cidade, entre a pintura e o corpo, encontrei o verdadeiro território da criação: o lugar onde o gesto e o pensamento se encontram.
Contudo, quanto mais aprendia, mais crescia em mim um sentimento de desconforto. As minhas pinturas pareciam não responder às perguntas que eu fazia, e cada gesto no ateliê era acompanhado por uma dúvida: porquê? para quê? o que procuro realmente?
Esse universo de questionamento, de experiência ou espírito crítico, efervescência e inconformismo, em que a própria noção de arte se expandia para o território da vida sempre se mantiveram presentes na minha maneira de ser e de estar no mundo ao longo de todos estes anos.
Esse espírito de questionamento, essa efervescência crítica e irreverente, a expansão da arte para o cotidiano mantiveram-se vivas, atravessando anos e experiências, moldando a minha maneira de estar, de olhar e de criar. A arte tornou-se, desde então, não apenas prática, mas também espaço de reflexão, território de resistência e contínuo encontro entre vida e criação.
Ficha técnica
Curadoria
Rui Mateus Amaral
Imagem principal
© Pedro Pina
Mecenas Exposição
Apoio
A Fundação Calouste Gulbenkian reserva-se o direito de recolher e conservar registos de imagens, sons e voz para a difusão e preservação da memória da sua atividade cultural e artística. Caso pretenda obter algum esclarecimento, poderá contactar-nos através do formulário Pedido de Informação.