Uma Noite em Suspensão: uma conversa sobre «Salt Bath»
Apresentado no âmbito de um fim de tarde especial, Salt Bath convida o público a entrar numa noite suspensa de cinema e música. O evento desdobra-se como um díptico: uma projeção do filme de K. Desbouis e Camille Aleña, seguida de um DJ set da artista Courtesy, com vídeo e luzes por Desbouis, onde as tensões atmosféricas do filme transbordam para a dança. Através dos seus temas de transformação, simulação e construção elusiva de sentido, o evento propõe uma experiência partilhada entre o suspense e a presença imersiva.
Jule Kurbjeweit: Como surgiu Salt Bath? Como surgiu a ideia e o teu trabalho com a Camille?
K. Desbouis: Surgiu a partir de um texto que escrevi por volta de 2018 ou 2019. Inicialmente era uma peça para uma exposição numa galeria. Enviava o guião por correio em envelopes pretos selados, divulgados em episódios ao longo do tempo.
Mais tarde conheci a Camille e tornámo-nos amigos próximos. Eu tinha este texto e rapidamente começámos a trabalhar numa adaptação, embora muito transformada. O original era mais lírico e dramático.
Mas duas ideias centrais mantiveram-se: tudo acontece numa única noite e há este subtexto de uma história de vampiros. Interessavam-nos os vampiros, mas não como criaturas que sugam sangue – mais como vampiros psíquicos, algo ou alguém que drena, a tua energia, a tua personalidade. Era isso que estava em jogo para nós: esta ideia de ser sugado por algo maior do que tu e de como um corpo e uma pessoa conseguem suportar isso – ou não.
JK: Isso liga-se à forma como a fala funciona no filme? As pausas, as falas sussurradas?
KD: Sim, verdade. Também porque o elenco é composto por atores não profissionais, com exceção de PRICE, que é um intérprete genial. Usámos auriculares e sussurrávamos as falas. Quase como ventriloquismo. Há lacunas, erros gramaticais, e a fala por vezes soa artificial, como se estivessem assombrados pelo texto.
Acho que, enquanto pessoas, também experienciamos isso: dizemos aquilo que os outros esperam de nós, porque nos faltam palavras para expressar o que realmente sentimos, ou porque dizê-lo perturbaria a realidade construída à nossa volta.
Por isso não há muitos diálogos, mas sim monólogos. As personagens tornam-se recipientes – o corpo como recipiente da fala – como extraterrestres a tentar aprender uma nova língua. E, no meio disso, procuram também alguma forma de verdade.
JK: Não soa espontâneo ou humano, mas quase mecânico, também por causa da repetição.
KD: Totalmente. Estão presos em loops e, por vezes, ficam suspensos. Tem a ver com a forma como a vida pode repetir-se, parecer simulada. Tudo acontece à noite, o que cria este efeito de acordar de um sonho sem perceber que se está noutro, como antecâmaras da realidade. É uma única noite condensada, filmada ao longo de quatro. Quase como um reality show, passando muito tempo juntos naquela casa. E, para as cenas de clube, fomos a um clube real.
JK: Como funcionou em termos de filmagem?
KD: Foi caótico e muito divertido. Não tínhamos autorização para filmar, mas fomos na mesma. Levámos câmaras discretas, escondemos o equipamento enquanto a equipa de som ficava no exterior, encostada às paredes. Foi pouco profissional, mas resultou. Essas cenas são improvisadas. Desaparecemos um pouco, e os atores simplesmente saíram à noite e esqueceram-se de nós.
JK: E isso contrasta com as outras partes, que têm menos emoção espontânea.
KD: Tínhamos um guião, mas a narrativa não era o nosso foco. Estávamos a tentar captar uma sensação abstrata de dissociação da realidade.
Também tem a ver com ser jovem hoje, tentar tornar-se alguém num mundo constantemente transformado pela violência. É esse espaço liminar em que não sabes onde pertences, entre adolescente e adulto, entre mundos. Uma espécie de purgatório. Há essa sensação de colapso, que pode estar para vir, ou que talvez já tenha acontecido.
JK: E a casa, uma espécie de casa assombrada, reforça isso.
KD: Sim, é uma espécie de refúgio, e quando saem, as coisas correm sempre mal. Filmámos em Praga, também pela ligação da Europa de Leste à história do vampirismo, especialmente nos tempos da peste. Praga foi uma das primeiras cidades a construir um cemitério fora da cidade por medo da contaminação. E esta casa gigantesca foi confiscada pelo regime comunista e deixada vazia desde então, por isso era um ready-made assombrado.
JK: A Camille trabalha normalmente com cinema?
KD: Sim, mais do que eu. Tínhamos meios limitados, mas ainda assim trabalhámos com uma equipa profissional. A composição da imagem era muito importante para nós.
JK: Como se articularam as vossas referências e influências?
KD: O filme Cruising foi uma delas. Até fazemos uma citação direta.
Outra grande referência foi The Last Days of Disco. É também uma história de coming-of-age, muito estruturada em torno de cenas de clube. A Chloë Sevigny e a Kate Beckinsale dançam em clubes de disco, conscientes de que é o fim de uma era, enquanto falam sobre a vida, o amor e a sociedade – os mesmos temas simples explorados em Salt Bath.
JK: E a noite funciona como um espaço onírico.
KD: As pessoas comportam-se de forma diferente do que durante o dia.
JK: Mas no final há também uma cena com luz do dia.
KD: Sim, é a manhã real do último dia de filmagem. As atrizes estavam exaustas, pálidas, e a melancolia que se sente é, de certa forma, real. Surge depois dos créditos, quase como algo separado. De certo modo, é quando os atores parecem sair do filme, enquanto, simultaneamente, o tão aguardado evento cósmico finalmente acontece.
A noção de horror cósmico estava muito presente para nós, enquadrada por [Howard Phillips] Lovecraft: o horror não é necessariamente gráfico, é ambiental. Pode ser extremamente subtil e até aborrecido.
O som é muito importante no trabalho com estes elementos atmosféricos.
JK: É uma das formas mais poderosas de criar ambiente.
KD: Sim. Tornou-se uma forma de mise-en-scène para criar este estado de incomunicabilidade ou de interioridade extrema que atravessa as personagens.
Por exemplo, a cena de clube com a faixa da Courtesy e da Klô – é uma das minhas favoritas porque é simples. Mostra o que a personagem está a viver interiormente. A música repete «mudo, mudo», em francês, enquanto este vampiro dança no meio da multidão. A música da Courtesy emocionou-me muito, e expressa algo que não conseguimos captar apenas com a câmara.
Também utilizámos a rádio, jogando com diferentes camadas, como diferentes programas – confessional, cultural, musical – ou como canções vindas de outro planeta.
A rádio é algo que pode anunciar uma catástrofe, mas também pode ligar-nos a todos. Acho que a voz liga as pessoas de uma forma que as imagens, por si só, não conseguem.
JK: O título Salt Bath, de onde vem?
KD: É uma imagem de pureza, de purificação extrema, até ao ponto da irritação. Um banho de sal supostamente purifica, mas em excesso pode queimar a pele. É a ideia de ter de ser absolutamente puro, de se purgar completamente. As personagens vomitam todas estas palavras para se purificarem tanto que, no final, já não resta nada.
JK: Tanto curativo como violento.
KD: A pureza como ficção.
JK: Também falas de contaminação.
KD: Mesmo que queiras ser irrepreensível, não estás separado da sujidade do mundo.
JK: Deve ser interessante olhar para o filme com alguma distância, porque o processo em si pode ser bastante intuitivo.
KD: Sim, porque é preciso clarificar as intenções antes de tentar algo, mas não se pode justificar tudo. É preciso acreditar no que se sente. A Camille tem muito essa qualidade, e é por isso que me inspira tanto. Com o tempo, é fascinante perceber que aquilo que não consegues controlar pode tornar-se o verdadeiro centro do teu trabalho.