Sara Bichão: «Está ali para comunicar, e o seu olhar dirige-se às pessoas.»

Nesta entrevista, conduzida pela curadora Francisca Portugal, a artista Sara Bichão explica o processo de produção da sua obra «Longínquo (dur)», encomendada pelo CAM, que integra a exposição «Xerazade, a Coleção Interminável do CAM» e que agora pertencente à Coleção do CAM.
Francisca Portugal 01 jun 2026 9 min
Obras da Coleção do CAM

Conversei com Sara Bichão (Lisboa, 1986) a propósito da sua escultura Longínquo (dur), de 2025, agora da Coleção do CAM. Idealizada para integrar a exposição Xerazade, a Coleção Interminável do CAM, esta despertou uma curiosidade sobre o seu processo de produção, e em particular sobre as circunstâncias, intuições e decisões que conduziram à sua realização.

A escultura ocupa o início do percurso expositivo, no átrio de entrada, e logo visível ao descer a larga escadaria. Uma figura suspensa em forma de asa composta por tecido, corda, borracha, metal e madeira, transporta na sua estrutura em cruz uma «criatura» enrolada que desvenda um rosto em relevo.

Seguindo o curso natural da conversa a artista reflete, com a leveza que lhe é característica, sobre a construção da obra, descrevendo cada etapa do processo. Sara Bichão intercala os pormenores mais técnicos com o uso de uma linguagem poética e um fascínio genuíno pela matéria e pelas suas possibilidades. Como ponto de partida perguntei-lhe sobre a sua relação com o CAM, onde já tinha apresentado em 2018, no antigo Espaço Projeto e também com curadoria de Leonor Nazaré, a exposição Sara Bichão. Encontra-me, Mato-te.

Vista da obra na exposição «Xarazade, A Coleção Interminável do CAM» © Pedro Pina

Francisca Portugal: Nesta nova obra há alguma continuidade em relação a Encontra-me, Mato-te (2018), ou quiseste explorar um território diferente?

Sara Bichão: São duas propostas muito distintas. Encontra-me, Mato-te nasceu da fusão entre uma experiência pessoal e a sala de exposição. O projeto organizava-se como uma constelação de obras interligadas entre si e com a sala, formando um sistema fechado que envolvia o visitante.

Por outro lado, Longínquo (dur) foi criada para a nova exposição da Coleção do CAM, Xerazade e existe de forma autónoma. Partiu do convite da curadora da exposição Leonor Nazaré para habitar um espaço definido pelo museu e, ao mesmo tempo, estabelecer ligação com uma escultura voadora que havia exposto na galeria no início deste ano[1]. Para mim, era importante que esta peça pudesse transitar por várias dimensões do tempo, tal como a trama desta lenda, que é bonita e importante, precisamente por reverberar urgências passadas e também futuras.

A partir dessas condições iniciais, defini as coordenadas da peça, o tipo de obra, a escala, a forma, e entrei no espaço criativo onde sou absolutamente livre. Enquanto Encontra-me, Mato-te impunha ao público um jogo fechado, Longínquo (dur) habita um território comum, partilhado, convivendo com as restantes obras e com quem as observa.

Vista da obra na exposição «Xarazade, A Coleção Interminável do CAM © Pedro Pina

FP: A obra está instalada no piso subterrâneo, no final de uma escadaria que conduz o visitante a um espaço de transição. De que forma essa localização, essa descida e esse encontro influencia a experiência do público e a leitura da peça?

SB: O espaço interessa-me, claro, mas isso não significa que a obra esteja limitada a ele. Trata-se de um lugar de passagem, ainda que possa também tornar-se um espaço de contemplação dependendo da disponibilidade de quem o atravessa. Embora soubesse que a instalação seria provisória naquele local, construí-a dentro dos limites que este me impunha. A peça tem cerca de cinco metros mas pode aumentar no comprimento porque a sua estrutura é extensível. No entanto, ali era importante encontrar uma escala que não se perdesse nem se impusesse em excesso, mantendo o equilíbrio com o movimento dos visitantes. O interessante é que, nesse percurso, podem observá-la de cima e por baixo num tempo dilatado de observação.

Há uma compreensão total do «organismo» da escultura, da cabeça aos pés, e às vezes por dentro. Normalmente uma escultura não se vê assim, integralmente, sob todos os ângulos. Depois há o mistério do olhar: em determinado ponto, já no piso inferior, é possível colocar-se frente a frente com a escultura. Ela olha de volta, parece pousar, como se estivesse em trânsito. É plana, disponível. Está ali para comunicar, e o seu olhar dirige-se às pessoas.

Vista da obra na exposição «Xarazade, A Coleção Interminável do CAM © Pedro Pina

FP: Numa entrevista anterior disseste: «Eu gosto de trabalhar de acordo com o metabolismo da natureza. Interessam-me também as memórias. E faço questão de dar seguimento às atrações por determinada matéria que casualmente encontro». Quando se observa o teu trabalho, há sempre uma pergunta sobre o que são esses materiais, de onde vêm e como se transformam. De que modo a escolha e a proveniência dessas matérias, algumas reaproveitadas, outras encontradas, moldaram a plasticidade desta nova obra?

SB: Sem dúvida que os materiais são tudo, são o objeto, o sujeito e o próprio estímulo do meu trabalho. Muitos deles acompanham-me há anos no ateliê. Às vezes, porque os recebi em grande quantidade, outras porque têm uma história pessoal, uma relação familiar ou íntima comigo. A matéria é memória e carrega consigo uma energia vital, que eu gosto de manter por perto. Quando a integro numa obra estou a transferir um acontecimento privado para um contexto coletivo, e a escultura, para mim, é precisamente isso: uma identidade partilhada.

Nesta obra há quatro materiais fundamentais. O corpo principal é feito com a «pele» de uma peça anterior, apresentada em Encontra-me, Mato-te, de 2018. Esse revestimento passou por uma metamorfose para integrar esta nova escultura, mas é possível reconhecer-lhe a origem se houver atenção à documentação da exposição anterior.

A cana de pesca, por sua vez, estabelece um vínculo direto com uma outra escultura voadora, a mesma que referi há pouco. Escolhi-a pela sua capacidade extensível, que me permite trabalhar a escala com elasticidade. Depois há o bambu: pedi aos jardineiros da Fundação Gulbenkian algumas canas após um passeio em que uma cana, que estava a ser utilizada como vara, me atraiu. Esse bambu tornou-se a coluna vertebral da peça; as canas restantes, as vértebras. Por fim, há o saibro[2], recolhido na Fundação de Serralves na minha última exposição institucional. Ele encerra uma memória recente, e enquanto essa matéria ressoar, continuará a aparecer nas minhas obras.

Há ainda segredos entre mim e a escultura, invisíveis e guardados no interior do corpo, que não precisam de ser revelados. Cada obra tem o seu mistério, e esse é só nosso. O espírito da escultura é profundamente afetado pelos traços destes materiais. Eles são a história da peça, a sua potência e o seu carácter.

FP: As tuas esculturas parecem nascer de um diálogo entre intenção e acaso, entre o que é planeado e o que acontece. Como se constrói esse equilíbrio? Até que ponto desenhas antes de começar a fazer, ou fazes primeiro para descobrir o desenho depois?

SB: Quase nunca me ocorre programar uma escultura de forma rígida e depois produzi-la. Não consigo trabalhar assim. O que faço é definir inicialmente algumas coordenadas: o volume, o tipo de obra, se é voadora, se está pousada, se sobe ou desce e como tem de habitar o espaço. É como preparar personagens para um filme: entende-se a carga daquele lugar, o seu tom, as reverberações. A partir dessas coordenadas, entro num espaço de liberdade criativa. Junto materiais, observo como dialogam uns com os outros e a escultura vai-se construindo nesse encontro. É preciso estar atenta: quando a peça começa a ganhar caráter, não se pode abandonar a sua identidade. Mas não há um desenho final rígido do que vai ser, a obra vai-se definindo enquanto se faz.

O desenho, neste caso, é mais um registo técnico, serve para assinalar dimensões, proporções e coordenadas. É um rabisco que me ajuda a compreender o corpo da escultura do princípio ao fim, no todo. Não é uma construção improvisada: se consigo desenhar a obra, é porque houve uma intenção forte e os detalhes mais precisos, como a localização de um nó ou um ponto de tensão, ficam registados para guiar a produção. É um diálogo contínuo entre o que já existe, o que se está a criar e o que o espaço exige, sempre com rigor para não dissipar a força da peça.

FP: Sendo esta exposição inspirada em Xerazade, existe alguma narrativa, literal ou simbólica, que atravesse esta peça?

SB: Sinto-me naturalmente ligada à ideia da Xerazade, como mulher, e ao modo como as histórias se transformam e se prolongam umas nas outras. As minhas esculturas também vivem dessa metamorfose: viajam, mudam de forma, trazem memórias de outras peças e de outros tempos. Fiquei a pensar no que a Leonor Nazaré disse sobre as As Mil e Uma Noites e deixei-me envolver por esses contos, mas não para os ilustrar. É algo que fica num plano quase inconsciente do processo criativo, sem nunca se encerrar numa lenda, a escultura habita esse imaginário, tempo e lugar. A escultura viaja, carrega informações, emoções, acontecimentos, e continua a transportar tudo isso como um testemunho para o futuro.

A escultura chama-se Longínquo (dur). Dur é a tradução de Longínquo em persa, língua original d’As Mil e uma Noites.

De cima, parece uma coisa; por baixo, outra. Manifestando-se de forma violenta mas também delicada, talvez feminina, ave ou peixe, serena.


[1] Referente à obra Voo (2024), da exposição Divers Flight, que decorreu entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 na Galeria Filomena Soares, em Lisboa.

[2] Material de terra, uma mistura de areia, argila e pedra.

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A Coleção do CAM reúne quase 12 000 obras de arte moderna e contemporânea. Descubra as aquisições mais recentes da coleção, as histórias que estavam por desvendar, os bastidores e os restauros, ou as narrativas escondidas no reverso das obras.
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