Hamadríades, ou o vento que fala com as árvores
Três obras, diferentes nas suas formas, materiais e aparências, partilham o mesmo sobrenome, como um pequeno amuleto. As hamadríades – ninfas que nascem com as árvores e que as protegem com a vida, pois os seus destinos estão interligados – povoam lendas da antiguidade grega, fulminando quem cortasse, violentasse ou de alguma forma duvidasse da força divina das suas companheiras vegetais. A anterior denominação diferenciada das obras (Metamorfoses… Alguns Dias…) partilha a compreensão de que o natural é transitoriedade, é movimento transformativo, é a passagem entre estados que sublima a existência cíclica de todas as coisas.
Em Metamorfoses_Árvores, uma pintura em camadas tal qual a terra, respiramos a paisagem noturna da lezíria, onde a linha do horizonte se esbate na plenitude ribatejana para confundir o chão com o céu, e apenas as sombras recortadas das árvores os distinguem. Nela vejo, com olhos de memória, os salgueiros-chorões que se dobram sobre o rio sujo, como quem nele verte lágrimas límpidas que logo desaparecem no leito de lodo.
A sensação de uma humidade pantanosa, o húmus da terra, a silhueta das árvores, os múltiplos tons do céu noturno que se entreveem pelas copas cerradas, quase nos deixam adivinhar uma outra dimensão escondida pelo véu da noite que cai sobre a lezíria. Nas telas de Ilda David’, vejo a poesia e a pintura de mãos dadas entre o rio e o pasto, entre memória e atmosfera, entre respiração e imanência – encontro esse lugar onírico onde habita o desejo de fundir o corpo com a terra.
Por alguns dias é uma obra têxtil que se desdobra em dois objetos, um pano e um casaco, ambos de linho e pertencentes à artista ou a alguma mulher da sua família. O ato de bordar sobre estas anamneses pode ser uma forma de inscrição do tempo sobre as superfícies que a rodeiam, mas suspeito que há algo mais. Uma invocação da memória ancestral do movimento cíclico da mão que segura a agulha, tão simples, mas que na sobreposição gestual nos aproxima do passado – que embora não seja idílico, é sempre cartografia da nossa relação com a terra. Como escreveu Maria Gabriela Llansol, «coso, e quando espeto a agulha e olho para trás, para o percurso dos pontos, parece-me que se abre um caminho de pedras no deserto» (Livro de Horas I, 2009).
Bordadas à mão, as linhas que rasgam o linho lembram o vento que se enrola nas folhas, sussurrando carícias que descem do céu ao chão, como se o ar quisesse conversar com os espíritos arbóreos. Talvez sejam os movimentos invisíveis das pontas dos dedos dessas hamadríades, desenhando carinhosamente constelações nas suas árvores, cujas raízes nunca permitirão que ascendam aos céus.
A cosmologia de Ilda David’ é a das paisagens e das leituras, das mitologias e das folhas das árvores, dos poemas e das águas do rio. No Ribatejo não há mar, mas há um horizonte que se estende sem fim pelas planícies que (não) o contêm, e é nesse horizonte que encontramos a poesia das suas coisas: na infindável linha reta que divide terra e céu, deparamo-nos com a pequenez da nossa insignificância face à magia da Terra. E talvez nos relembremos de que não a podemos extinguir.