«Uma mala aberta», por Johanna Carter
Antes de ser artista, Túlia Saldanha (1930-1988) era mulher – e este traço marca o seu corpo de obra, tornando-se, simultaneamente, característica e condição. É indissociável pensar na obra de Túlia Saldanha sem convocar a ideia de lugar e a subversão dos espaços tradicionalmente atribuídos ao universo feminino que, em diálogo, por ação da artista, marcam o panorama das artes visuais em Portugal, no século XX.
O cenário que acompanha a obra de Túlia Saldanha é o de um país, entre a década de 1960 e 1970, manifestamente pautado por grandes irregularidades entre o centro urbano e o interior ruralizado, que determina o destino de quem o ocupa. Os códigos que marcam este tempo e espaço tornam-se coordenadas fulcrais, expressando-se formalmente através da escultura, instalação, performance, desenho ou pintura.
Em Do Nordeste a Coimbra (1978), Saldanha cristaliza um tempo – tempo esse que passa e destrói.
Os objetos que preenchem o vazio da mala testemunham histórias. Em diálogo, podem apelar a uma leitura cronológica que passa dos brinquedos, entre carrinhos e bonecos, a escovas e véus de noiva e utensílios de cozinha que se evidenciam, alguns dos quais parecem conter vestígios de comida – como se tivessem sido acabados de retirar da mesa. São objetos mundanos e diferenciados entre si, mas inevitavelmente convocam o imaginário feminino aliado ao espaço doméstico. O modo como estão dispostos sugere, à primeira vista, a sobreposição e o caos. No entanto, algo na parte superior da mala, aponta para uma certa ordem.
Esta tensão traduz duas ideias que me parecem essenciais – em primeiro lugar, a ideia de um tempo que percorre a vida de uma mulher, expresso por objetos que acompanham as lides domésticas às quais muitas se veem confinadas. Em segundo lugar, a relação ambígua e confidente entre a desordem e aparente harmonia da vivência doméstica.
O manto negro que cobre os objetos, aparentemente carbonizados, alude à suspensão do tempo e da memória, tornando a perceção das formas umas vezes mais clara e visível, outras nem tanto. Túlia Saldanha contrasta a dureza cromática com a fragilidade material dos objetos, num jogo de invisibilidade total da obra, que joga com um trabalho doméstico também ele invisível, inscrito no quotidiano da mulher.
A ausência de várias cores, criando uma mancha homogénea negra, torna-se numa tela por pintar, onde as nossas referências e ideias convergem nas formas preexistentes. Do Nordeste a Coimbra é um convite a parar, observar, associar e refletir. É uma mala aberta, sem que isso baste para a descodificar. O encontro entre quem observa e a obra de Saldanha resulta num processo colaborativo e em aberto. Representa um lugar a ocupar, um tempo fugaz que passou, mas que se permite ser visto pelo rasto que deixa sobre a matéria.
Túlia Saldanha é uma artista que propõe uma relação de contacto e contágio junto dos visitantes, potencializando o papel da arte enquanto resultado da projeção do artista e dos públicos. É uma obra de cariz efémero, transitório e nómada, que se alia à vida – porque é impossível desassociá-la da sua vida.