O santuário vivo de Yonamine: «A única coisa que me faz mover para fazer essas peças chama-se amor.»
Yonamine (Luanda, Angola, 1975) viveu e trabalhou em Portugal durante um longo período, mantendo até hoje uma ligação próxima com o país. A sua prática artística utiliza técnicas multidisciplinares clássicas, como pintura, desenho e escultura, com materiais reciclados ou reapropriados, com referências ao design gráfico e em diálogo com a música e a política. Aborda temas como as narrativas marginalizadas, a transformação social constante e uma expressão coletiva construída a partir do uso subversivo de simbologias e dos mecanismos do capitalismo ocidental, e aplicada à realidade que testemunha enquanto artista africano.
ANOTHER DAY ANOTHER LIFE (2024) é uma obra que ressignifica a expressão coloquial do imaginário norte-americano another day, another dollar. Na leitura de Yonamine, esta frase transforma-se numa celebração do carpe diem, sugerindo que cada dia deve ser vivido como se se tratasse de uma vida inteira.
O título da obra antecipa o tom do conjunto das peças adquiridas pelo CAM, onde a repetição da palavra another reafirma a fusão entre a linguagem comercial e uma dimensão espiritual. Como explica o artista: «Antes de mais nada, nós somos feitos de carne. Mas temos também um espírito. E esse espírito não podemos deixar morrer nas peças. É isso que me encanta, ter obras que tenham um argumento social, que tenham um sabor, que tenham cheiro, que tenham volume, ou seja, que tenham quatro dimensões.»
A instalação foi apresentada numa sala com um mural de colagens e objetos como estatuetas, ferramentas, talismãs, bandeiras e jarros com flores, que compõem um altar. O conjunto resulta num cenário de um espaço de culto, oração, observação e consumo, onde energias positivas e negativas se encontram, criando uma situação de poder, confronto e catarse. A obra é também um tributo ao artista Paulo Kapela (1947-2020), um amigo inspirador para Yonamine, símbolo de resistência e ativismo na cultura e na política africanas. Nas palavras do artista: «Para além de ser uma homenagem a Kapela, é também uma provocação a Portugal e uma tentativa de mostrar outras coisas que, por norma, não são mostradas ou assumidas como obras de arte. Não só em Portugal, o sistema da arte contemporânea está à espera de coisas limpas e acabadas, prontas a pôr na parede e com um valor comercial fácil. Quando aparecem peças diferentes, têm medo.»
A ausência de plintos e barreiras, a escala das peças e a sua colocação no chão permitem a aproximação do público à obra, o que a humaniza e encoraja uma leitura mais pessoal que dissolve as fronteiras entre arte e quotidiano. «Precisamos de estar mais com os pés no chão, sentirmo-nos em contacto com a terra, com a natureza, antes de começarmos a pintar, antes de querermos fazer os verdadeiros altares do Paulo Kapela. Todos esses que ambicionam ser como o Kapela, na verdade, não têm ground. Primeiro temos de ter ground para construirmos um altar. É uma crítica.» Esta atitude, ancorada em factos e experiências reais, amplifica a identificação com o público e favorece uma relação com os valores do artista: «Talvez esse altar represente um ensinamento filosófico sobre como viver a nossa vida, a ideia da viagem.» A expressão coletiva e os rituais partilhados são elementos centrais para o trabalho de Yonamine e o convite à interação e participação, mesmo que de forma indireta, desafia a passividade tradicional da contemplação artística.
O espaço expositivo transforma-se num lugar de encontro e troca, evocando a ideia de um santuário vivo, onde a arte serve como motor de reflexão e transformação social. Pinturas como Beaucoup de Saka Saka (2024), Eu não sou eu (2024), Setting the Trend! (2024) e STRAY DREAD (2024), igualmente adquiridas para a Coleção do CAM, exibem o léxico visual e simbólico construído por Yonamine, que mistura referências da cultura americana, da música africana, da cultura popular e de tradições antigas.
Cartazes com frases como «NO RE-ENTRY» surgem repetidamente, lembrando a cadência dos mantras e simulando técnicas da publicidade, criando, mais uma vez, espaços onde o urbano e o espiritual se encontram. «Não estou à procura da ficção. Estou mais à procura da profecia. Não me interessa o futurismo nem o afrofuturismo. O que eu gosto mesmo de fazer é vodu e sincretismo. É uma cena pura, sem maldade, sem tentações de fazer mal a ninguém. A única coisa que me faz mover para fazer essas peças chama-se amor.»
«Gosto de trabalhar com jornais, porque com o jornal não se precisa datar, ele marca por mim, situa-nos no tempo», explica o artista sobre a função dos jornais colados nas telas. De facto, as obras são testemunhas da sua própria produção, e também as interações profissionais e pessoais aparecem referidas sob a forma de nomes de colaboradores, curadores, amigos e outros artistas, pois, para Yonamine, «os créditos são muito importantes, porque me relembram que eu nunca vivi sozinho. Tudo tem o seu crédito e temos que nos lembrar de o manter.»
Yonamine desafia categorias fixas e propõe um novo vocabulário onde se cruzam a espiritualidade, a política e a vida quotidiana. As suas obras operam como santuários vivos, espaços de encontro e resistência, onde objetos reciclados, memórias pessoais e referências culturais se transformam em linguagem comum. Mais do que contemplar, o artista convida o seu público a participar: a sentir, a escutar e a permanecer com os pés no chão.