«Lugar à Mesa»: Comida, Relação e Pertença
Os alunos entram na sala de aula um a um, deixando os sapatos lá fora e lavando as mãos. Chegam com uma mistura de curiosidade, antecipação e ligeira confusão nos seus grandes olhos.
A sala está às escuras, os estores corridos, música suave a tocar. As mesas habituais foram empurradas para os lados. No seu lugar, um pano foi estendido no chão como uma mesa comunal redonda. Palavras escritas em diferentes caligrafias cobrem o tecido: amor, batata, alimentação. Sobre o pano estão uma torradeira, fatias finas de pão, compota, uma preparação xaroposa de cenoura.
Quando as crianças se sentam em volta desta mesa improvisada, é-lhes oferecida uma chávena de infusão de hortelã com plantas da própria horta da escola. Um rapaz diz: «Esta é a minha aula preferida.»
Lugar à Mesa é a quarta edição do projeto LUGAR, em colaboração com escolas primárias de Lisboa. Desenvolvido este ano pelas artistas convidadas Francisca Paiva e o projeto Joy Food Experiences de Alice Artur e Joana Trindade Bento, em conjunto com a equipa de mediação do CAM, usa a comida e a metáfora da mesa como material e método para explorar a memória, a ecologia, a coletividade e o pertença.
Convidadas a partilhar as suas próprias memórias alimentares a partir dos ingredientes dispostos no pano – que representam algumas das memórias favoritas das artistas –, as crianças hesitam. Algumas respondem com o seu alimento preferido no presente – talvez porque estejam mais habituadas a ser questionadas sobre preferências do que sobre memórias, mas também porque, nesta idade, a memória está ainda em construção.
A infância é tempo presente: não um passado a revisitar, mas uma acumulação contínua de sensações, sabores, rotinas e afetos. O que nomeiam hoje poderá tornar-se, um dia, numa memória querida. Nesse sentido, Lugar à Mesa não pede apenas às crianças que recordem através da comida – ajuda-as a compor memórias a que poderão um dia regressar.
A comida é talvez a nossa forma mais imediata de relação: quem cozinha para nós, come connosco, e com os ecossistemas vivos que nos sustentam. Como escreve Aurora Solá no Manifesto on the Future of Food, a comida é «o vetor mais evidente da nossa ligação a tudo […] porque a comida situa-se na fronteira entre nós e tudo o resto». Que melhor meio – e método – para explorar o mundo à nossa volta, o nosso lugar nele e a nossa relação com os outros, humanos e não-humanos?
A mesa é o lugar onde as relações são ensaiadas e negociadas. À sua volta, aprendemos formas de cuidado, troca, atenção, espera, partilha, prazer e contenção. Aprendemos também algo sobre posição: quem serve, quem é servido, quem fala, quem escuta, quem chega tarde a uma mesa já posta – e quem nunca foi convidado. A mesa ensina-nos, muitas vezes antes de termos consciência disso, como estar com os outros.
O nosso lugar à mesa pode, por sua vez, dizer algo sobre como vivemos o nosso lugar no mundo: se nos sentimos bem-vindos ou periféricos, capazes de contribuir ou esperados apenas para nos adaptarmos a disposições feitas por outros. Para as crianças em particular, muitas dessas disposições podem parecer já estabelecidas: as regras herdadas, os rituais preexistentes, os lugares atribuídos de antemão.
O que Lugar à Mesa oferece não é apenas uma introdução à teia de relações que sustenta a vida, mas uma experiência incorporada de fazer parte dela: não chegar a uma mesa já posta, mas reconhecer-se como parte da sua disposição em curso.
O projeto desenvolve-se ao longo de sessões na escola e no CAM. Ao chegarem ao museu, as crianças trocam os sapatos por pantufas. É um sinal para sentirem-se em casa – e a casa é também o tema central da exposição de Carlos Bunga Habitar a Contradição, que começava com a obra A Minha Primeira Casa Foi Uma Mulher, 1975 (2018). Cada criança segura um nó numa longa corda partilhada e, juntas, entram na exposição em grupo: a andar, a gatinhar, aos saltos, por vezes deitadas no chão.
A percorrer o Bosque (2025), de Carlos Bunga, encontram objetos familiares do quotidiano doméstico – uma cama, cadeiras, molduras – antes de pintarem uma mesa posta num grande pano com sumo de beterraba. Juntas, carregam o pano-mesa até ao lugar onde vão comer e onde Alice conta a história da terra: das sementes (romã) na terra (cacau), às plantas (folhas de capuchinha), aos frutos (batata-doce), que por sua vez transportam novas sementes.
A cada sessão conduzida pelas artistas segue-se outra sessão com a equipa de mediação do museu – um espaço para refletir, dar sentido e, porque não, digerir as impressões.
Ao longo do projeto, regressa-se repetidamente ao conceito de «micélio» e à imagem da interligação. Fique ou não o termo «micélio», o sentido vivido de interdependência provavelmente ficará: em como constroem uma teia de memórias passando um novelo de lã enquanto cada criança nomeia a sua memória alimentar (ou o seu alimento preferido, consoante o caso); em como se alimentam uns aos outros de olhos vendados; em como nomeiam os problemas do mundo, a fome é um deles; e em como respondem a essa fome com uma salada de fruta feita a levantar um pano em uníssono – cada peça insuficiente sozinha, a fruta a saltar e a misturar-se em algo que só juntos é possível – um pequeno modelo comestível do que pode ser partilhar recursos.
Mais do que ensinar às crianças que tudo está ligado, Lugar à Mesa convida-as a sentirem-se participantes ativas nessas ligações: capazes de contribuir para, afetar e ser afetadas por estes entrelaçamentos.
Num tempo em que os entrelaçamentos ecológicos, sociais e políticos podem parecer abstratos e cada vez mais avassaladores, há algo de esperançoso e discretamente radical em ensinar as crianças: através de torradas com compota, chá de hortelã, sementes de romã, fruta partilhada e, sempre, vários fios e tecidos, lã evocadora do micélio, vendas, o pano como toalha e mesa. E são-lhes dados instrumentos para navegar nesse mundo, incluindo um amuleto feito de uma rodela de maçã seca, que ao mesmo tempo alimenta e protege.
No final de cada sessão, pede-se a todos que escrevam na toalha-mesa de cada turma uma palavra que sintetize a sessão. Tenho permissão para participar. Todas as vezes, a primeira palavra que me vem à mente é «partilha».